Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 35 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 15

As fotos não mostraram Lester ou indicações sobre seu paradeiro. Também não disseram seus motivos para atear fogo no orfanato e matar seus moradores. Essa parte Nôa conseguia supor. O menino era um cigano, alguém diferente — portanto, não deve ter sido recebido pela banda marcial da cidade. Se os outros meninos ou o padre que tomava conta do lugar o pressionaram o bastante, deve ter perdido o juízo. Isso se tivesse lhe restado algum, visto o que passou em sua tribo antes de chegar ao orfanato.

— Você tem cara de gente ruim — Nôa disse, apontando para a figura de um menino gorducho. O garoto era o único de braços cruzados na foto que via agora. Também era o único que parecia ter direito a sobremesas em dobro. Tinha os olhos miúdos e as pálpebras caídas nas extremidades.

Outra figura na mesma fotografia que chamou sua atenção foi a freira, a mulher chamada Suzana — o nome estava escrito em outra foto, abaixo e à esquerda da que analisava agora. Mesmo com o hábito, era possível perceber como era bonita. O padre estava ao lado dela e a mente criativa de Nôa conseguia imaginar como deve ter sido difícil para aqueles dois conviverem lado a lado, como pai e mãe de um bando de crianças, e manterem o celibato.

Tudo muito interessante, mas roubar os retratos só serviu para complicar sua visita ao casarão. Não havia nada de novo ali.

— Mais fundo, filho da mãe! — gritaram no quarto ao lado. Já era quase noite, o ritual do acasalamento dos porcos acabava de começar. Nôa se levantou e socou a parede com força. Os ruídos diminuíram um pouco.

De volta à cama, mergulhou as mãos na mochila e apanhou o terceiro livro roubado em menos de um mês (o livro que encontrou escondido no armário de carvalho). Não acreditava que teria muita sorte. Provavelmente encontraria uma lista de compras de cem anos atrás, ou uma planta do orfanato com instruções sobre a reforma, talvez um livro de registro sobre o empolgante dia a dia em um orfanato católico. Sete da manhã: orações. Depois, café. Mais orações. Em seguida, aula de catecismo. Outras orações. Almoço. Orações, orações e alguns castigos nos joelhos. Orações e boa noite.

Entediado, Nôa deixou o ar sair pela boca e abriu o volume. Suas reações mudaram rapidamente. Tão logo leu o nome do autor daquele livro, Nôa arregalou seus olhos e prendeu o fôlego.

O que tinha em mãos era o diário de Dom Giordano. Sorrindo, ele apanhou a última cerveja da sacola — quente, mas e daí? — e localizou a página que descrevia a chegada de Wladimir Lester.

“…é estranho como o menino não parece assustado. A mulher que o trouxe, Iolanda, alegou ser sua irmã. Mas tal fato também não me parece possível. Iolanda tem mais de sessenta anos, ela não poderia ter um irmão tão jovem. Lester está inseguro, mas, nessa primeira noite, não reclamou da ausência de sua família uma única vez. Quando o questionei sobre os motivos, ele disse que a família simplesmente não gostava dele. Existe uma marca arroxeada em um dos olhos, alguém da tribo o agrediu. A mulher cigana que o trouxe me contou sobre esse fato e também sugeriu que o menino mereceu a agressão. Ela chamou o pequeno de ‘desgraçado’, contou que ele era algum tipo de amaldiçoado entre seu povo. Pergunto-me quando essa gente vai sair da idade das trevas…

Conversei um pouco com o menino antes de recolhê-lo ao seu dormitório, tentei orar junto a ele. Como esperado, Lester não sabe muito sobre Deus ou Jesus Cristo. E o que sabe está distorcido e mal compreendido. Temo que será difícil evangelizá-lo.

Todas as crianças estão curiosas com Lester, ansiosas para conhecê-lo, principalmente a menina Ágata. Porém, hoje, ele dormirá sozinho, no quarto de hóspedes. Pretendo apresentá-lo aos outros amanhã bem cedo. Não me parece inteligente colocá-lo com os demais nessa primeira noite.

Junto com uma mala e uns poucos pertences, a mulher cigana trouxe um punhado de páginas. Eu li algumas delas e… Deus… Que nosso Senhor tenha piedade da pequena criança. Seus pais eram curandeiros na tribo, seguiam rituais obscuros e, pelo que compreendi, não guardavam segredos dos filhos. Não estou convencido que Iolanda seja o que alegou ser, mas Wladimir Lester tinha de fato uma irmã. ”

Nôa terminou a primeira parte e avançou até outra, que o interessava bem mais.

Duas semanas depois, Giordano escreveu:

“Estou preocupado com Lester. Ao que parece, sua única amiga é a menina Ágata. Ele também mantém boas relações com a madre Suzana, muito embora ela tenha certa insegurança em lidar com ele. Madre Suzana me confidenciou que três das crianças, o menino gordinho chamado Leonardo, Ernesto e Emílio — ou Vermelho como alguns o chamam —, andam implicando com Lester. Chegou aos meus ouvidos que eles o chamam de filho do diabo. Os três agrediram o menino dias atrás, tomaram um retrato dele. Pedi a Suzana que não tomasse nenhuma providência contra os agressores. Fiz isso para o bem do menino cigano. Se Lester pretende levar a vida em nossa sociedade, precisa aprender a lidar com nossa crueldade e reagir. Caso ele não consiga por si só, agirei em seu auxílio. ”

— Que filho da mãe. Deixou que os outros acabassem com ele — Nôa resmungou. Lembrou-se de quando ele também era uma criança e precisava se esconder para não perder o lanche no recreio. As fugas e o sofrimento não o fizeram reagir; ao contrário, o fizeram detestar as outras crianças.

Nôa avançou outra página e encontrou uma sequência de prestação de contas. Havia o nome de Lester em várias delas. Giordano estava fazendo dinheiro com a arte do menino. Ele não doava seus quadros para a igreja, ele os vendia. Também vendia para compradores particulares, da cidade e fora dela. Pelo que Nôa entendeu, o dinheiro seria usado no orfanato, para comprar mantimentos e o que mais os órfãos precisassem. Era uma sacanagem daquelas… De repente Lester estava pintando para vestir e alimentar os safados que o acuavam.

“Ele também mantém sua arte cigana. Embora eu abomine os quadros, permito que o menino os pinte, desde que divida seu tempo com a arte cristã. Conversei com a madre e concluímos que ele poderia trabalhar dentro do quarto número oito. Desde então, tem havido um pouco de paz entre os meninos. Lester passa o dia inteiro no quarto, pintando, fazendo o que ele mais gosta. Talvez essa seja a maneira certa dele se adaptar. Se conseguir sobreviver de sua arte, e creio que ele esteja a caminho de tal coisa, a sociedade terá muito a lhe oferecer. Lester é um prodígio. Suas obras parecem vivas, de um modo que chega a assustar. Muitas me assustam de verdade. Uma delas é uma estatueta cigana, uma das peças herdadas depois do incêndio que arruinou sua tribo. Madre Suzana pediu-me para acabar com ela, mas temo não poder fazer isso. O menino trata a estátua como sua mãe. Ele sempre a retoca, limpa, chegando a colocá-la em um oratório no quarto onde trabalha. ”

Nôa retrocedeu as páginas imediatamente. Ele não tinha lido nada sobre o tal incêndio da tribo. No entanto, o que lhe chamou a atenção foi a parte sobre a estatueta. Santa mãe dos homens sem talento — aquilo era uma novidade e tanto!

Folheou várias páginas sem encontrar a passagem. A maior parte do diário era a enfadonha confissão de um padre atormentado pela própria fé. Enquanto procurava sobre a estatueta, encontrou outro trecho que chamou sua atenção. Nele, Giordano narrava uma estranha visão que teve durante a noite em que Lester chegou. Aconteceu no refeitório. No final da transcrição, Nôa leu:

“…minha alma diz que estive na presença do inimigo, mas espero estar enganado. ”

Depois de reler todo o relato, continuou folheando, até encontrar o que procurava.

— Aqui está… — disse e comemorou com um gole de cerveja morna.

“Recebi uma nova visita do mesmo policial que esteve no orfanato dias atrás. Ainda não sei como contar a Lester o que aconteceu. O homem relatou um acidente terrível com a tribo cigana. As carroças despencaram em um desfiladeiro. De um modo não totalmente compreendido, todas pegaram fogo. Mais estranho ainda é o fato de que tenham se salvado alguns pertences. São quadros, vários deles. Foram atribuídos ao menino. Também uma estatueta cigana. Ela ainda não está completa, faltam-lhe a pintura do vestido e algum polimento no gesso. Temo que Lester pode perder de vez a sanidade. Não está sendo fácil para ele. O pobrezinho se apega a qualquer coisa. Prova disso é o tubinho de tinta vermelha que nunca sai de suas mãos. ”

Um calafrio percorreu o corpo de Nôa e morreu em suas mãos molhadas. Finalmente alguém com credibilidade falava sobre a tinta. Como ele já esperava, ela não era uma lenda. A tinta especial de Wladimir Lester, que interessava a Deus e ao Diabo, de fato existia. Mas se quisesse descobrir seu paradeiro, Nôa precisaria reler o material em suas mãos mais atentamente. A tinta! Deus, ela existia!

Continuou com a leitura, praticamente sem ouvir os ruídos sexualmente transmissíveis do quarto ao lado.

“Ele me permitiu tocar o recipiente na noite em que chegou ao orfanato. Não tive uma impressão muito boa. Parecia vermelho demais, quente. Meu primeiro palpite foi que se tratasse de sangue. Foi só quando olhei o conteúdo contra a luz que pensei em vinho, ou mesmo que se tratasse de um pigmento. Perguntei o que era a Lester, ele me respondeu que era sua ‘tinta especial’. Desde então o tubinho fica com ele, em seu bolso. A mim, parece uma espécie de talismã. ”

Mais adiante, quase no final do relato:

“Mais tarde falarei com Lester sobre o incêndio e sua herança. Por mais que me desagrade, é meu dever como seu tutor contar o que houve com sua família. ”

As páginas que compunham o livro que Nôa conseguiu na loja de uma suposta descendente de Lester não estavam completas. Faltava muito do miolo e também o final. Quando avançou para as últimas páginas do diário de Dom Giordano, que relatava seu último dia de vida e a empolgação com os preparativos para a Festa de Nossa Senhora, encontrou outra surpresa. Havia um envelope pardo e marcado pelo manuseio excessivo entre as páginas. Estava lacrado. Nôa descolou a cera com cuidado, para não arruinar o conteúdo que escondia. Sentiu a textura do papel, o cheiro rançoso do tempo, desejou com todo seu coração que aquilo trouxesse respostas. E foi atendido.

A tinta estava um pouco gasta, precisaria se esforçar na leitura. Então, saiu da cama e foi para debaixo da luz erma do quarto. A noite caíra depressa, dentro e fora de seu corpo.

Contendo o coração aos saltos, ele leu:

“A maldade sob a forma mais pura o encarou de volta. Era também o ser mais sensual que Juan já tinha visto. O demônio não era um homem, mas falava como um. Um eco tempestuoso que faria o pior dos carrascos se afeminar, envergonhado. Um timbre que sacrificaria toda a bondade existente no mundo com um só suspiro. Era Lúcifer. E ele sorriu antes de atravessar, jogando uma pequena esfera dourada pelo portal. O pequeno sol brilhou dentro da sala.

Cigano ainda acompanhava o destino da esfera quando o inesperado aconteceu. A porta estava se abrindo. Seu coração em agonia ameaçou desistir. Estava tão perto agora, perto demais para ter tudo inutilizado. O Demônio ainda o encarava e mantinha seu brilho, gostava de se exibir. A esfera — que tinha um lugar perfeitamente escavado para ela no Fazedor de Milagres, embora seu construtor nada soubesse sobre isso — enfim repousava e brilhava. A porta rangeu mais um pouco.

Quem teria a petulância de interromper uma cerimônia de tamanha grandeza? Quem entre os ciganos teria essa ousadia? O que significava aquela esfera?

— ‘Olá, papai’ — saudou o intruso.

Era uma criança, uma que aquele homem à beira da morte conheceu por uma vida inteira. O pequeno Wladimir. Aclamado como o pintor-prodígio, o garoto fazia com carvão e couro cru o que artistas consagrados não conseguiam com suas tintas caras. Oito anos de vida dedicados a pintar e bisbilhotar os escritos do pai que agora agonizava em seu último ritual. Cinco anos brincando com seus experimentos e conversando… Conversando com Lúcifer.

O Demônio sorriu. Estupidamente belo, virou-se de costas para o Vórtice.

— Mas?… O quê? — Cigano ainda podia falar, apesar de sair quase como um suspiro.

O Demônio sorriu de novo, animando seu exército de desgraçados.

As forças de Juan Cigano estavam acabando depressa e seu maior temor se resumia a morrer como Romena, sem uma explicação. Porém, a resposta veio de seu pequeno eu, da criança cuja mãe fora assassinada em uma roda da fortuna.

— Faz parte do plano, papai — disse Wladimir.

— Como pode fazer isso comigo? O que pretende? Eu te amo, meu filho! — Juan chorou em resposta.

— Eu sei. E ele também me ama. — O menino apontou para o demônio que caminhava de volta para suas fileiras. O portal estava menor, cerca de um metro e meio.

— Não entendo… O que você quer com isso? O que ganha?

Lester caminhou até a pequena esfera de brilho fantástico e a tomou nas mãos. Levou-a para perto dos olhos de Cigano. Sua alma continuava se recusando a sair do corpo flagelado, faria isso até que ouvisse tudo. Até a última palavra.

— Eu precisava da tinta para atrair mais almas, almas para ele. Com os meus quadros. Você nunca ofereceu muita coisa para ele. Dor não é o suficiente para o Demônio, ele precisa de almas, papai… E eu preciso de uma tinta tão boa quanto meu talento. Uma tinta que dure para sempre.

Lester recolocou a esfera no lugar escavado do aparelho, à altura dos ombros do passageiro, e se afastou. O bastardinho também trabalhou no Fazedor de Milagres.

Como pode fazer isso, Lester? era a pergunta dos olhos de Cigano.

— Achou mesmo que o Diabo daria a receita para fazer dele seu escravo? Isso foi estúpido, papai…

A bolinha luminosa foi sugada pelo aparelho. Juan sentiu que a madeira começou a se aquecer. Os pregos do encosto e o pedaço de ouro inserido dentro dele também. Além disso, começaram a rodar. Seu espírito não desencarnava, mas suas forças estavam esgotadas, Juan sequer conseguia falar. Assim, sentia em silêncio cada milímetro de seu corpo explodir de dor.

Dentro do Vórtice diminuído, o Demônio foi se afastando.

Um pouco antes que desaparecesse entre as fileiras de seus soldados malditos, Lester o ouviu dizendo: “Temos um trato”. Então, a cadeira ficou incandescente e começou a derreter o corpo, cozendo-o devagar. Lester apanhou o caldeirão de carne derretida embebida em azeite e derramou sobre o colo de Cigano. Inexplicavelmente, aquilo derreteu suas pernas. Talvez algum ácido tenha sido gerado com a mistura, ou talvez fosse somente outra surpresa do Demônio.

Com a mesma sorte de Romena, a última parte a queimar foram os olhos, mas os do Cigano não explodiram, eles se liquefizeram como o resto do corpo. O que sobrou, cozinhou devagar sob os olhos atentos e ansiosos da criança. Lester permaneceu sentado em um canto, observando e aguardando.

Ao raiar do dia, acordou com sons de boa música, violinos. O sol que iluminava a casa dizia que o feitiço estava pronto. Wladimir se espreguiçou. Depois se aproximou e apanhou a bacia de ouro embaixo da cadeira. O receptáculo continha o material destilado que lhe daria poder — e a quem daquilo fizesse uso. Uma tintura. Um concentrado de dor e decepção temperado com traição — uma receita vinda do próprio Inferno, um elixir abençoado por um milhão de demônios. Wladimir chegou mais perto e viu o vermelho mais bonito que conheceria na vida. Um pigmento doentio e apaixonante, cuja textura brilhava como uma lágrima… ”

Nôa recolheu as páginas e sentou-se no chão. O que acabara de ler tinha a mesma caligrafia do livro que mantinha consigo. Supostamente, teria sido escrito pela mesma cigana, a mulher mais velha da tribo de Lester, conhecida como Sarah. Talvez estivesse velha demais, criando contos de fada para aterrorizar as novas gerações, para que elas nunca fossem seduzidas pela maldade. Mas ela poderia ter transcrito a verdade que ouviu da boca de alguém. Da irmã perdida de Lester ou quem sabe dele mesmo.

— Agora me dê uma pista, onde devo procurar por você? — disse ao calhamaço de papéis. Tornou a revirá-los um a um. Os relatos pareciam completos, mas faltavam partes, é claro. Em algumas páginas, a tinta esmaecia até ser impossível ler alguma coisa. Em um desses trechos poderia estar sua resposta, perdida para sempre nos meandros do tempo. Pelo que entendeu do documento cigano, Juan Lester, pai do menino Wladimir, construiu algo que chamou de “Fazedor de Milagres”. Uma espécie de máquina que poderia dar-lhe poder sobre demônios e o próprio Diabo. Obviamente que Nôa pensou em obter tal poder para si, mas as partes que descreviam o ritual e o aparelho não estavam naquele livro. O que estava claro como um raio de sol é que Lester trapaceou o próprio pai e fez outro pacto com o Diabo, um que garantiu a ele a tinta que faria de qualquer tolo um Basquiat.

Nôa fechou os olhos e pensou na noite lá fora. Ele não queria as estrelas, as galáxias ou a luz da lua. Ele queria flertar com a escuridão.

— Você ajudou o menino. Estou pedindo que me ajude agora. Os papéis dizem que a tinta traz almas novas para você, eu posso consegui-las! — barganhou.

Um vento mais frio entrou pela janela. Nôa sentiu uma ferroada no estômago, algo se rebelando em seu ventre. As cervejas ameaçaram voltar e voar por sua boca. Nôa conseguiu detê-las apertando o estômago com força.

— Merda, como isso dói! — gemeu.

Uma das persianas da janela estava aberta. A que estava fechada — e Nôa poderia jurar que a prendeu com o ferrolho — voou em direção à parede. O choque abriu um buraco na tinta. Sem resistência, o vento correu pelo quarto como um vândalo. O rapaz tentou apanhar os papéis que voavam para todos os lados. Um trovão rasgou o céu e o distraiu por um segundo. A luz amarelada do teto se tornou azulada e, em seguida, brilhou até explodir. Nôa levou as mãos à cabeça para se proteger da chuva de estilhaços. Ainda ouvia o som do vento e algo elétrico que sobrevivia na lâmpada. Sua agonia durou cerca de dez segundos, só depois Nôa abriu os olhos.

Apanhou o celular que estava dentro da mochila um pouco atrás dele, ligou o aparelho e acendeu a luz da lanterna. Não teve tempo de notar as chamadas perdidas de Liza.

— Merda — resmungou, notando um corte no dorso da mão direita. Não era fundo, mas o sangue escorria mesmo assim. Sua mãe dizia que havia algo nas lâmpadas que não deixava um ferimento cicatrizar direito. Nôa rezou para que ela estivesse errada como em quase tudo na vida.

Pensou em um palavrão que não escapou pela boca quando notou que o sangue acertara uma das páginas. Ainda que toda a corrida pela tinta fracassasse, aquelas páginas velhas poderiam render algum dinheiro.

Tomou o papel nas mãos e estendeu a camiseta, a fim de secar o sangue. Fez isso, mas um pouco tarde demais. A página já estava com aquela cor de ferrugem nojenta que o sangue tem quando fica fora das veias após um tempo. Nôa a colocou contra a luz do celular para avaliar qual era o trecho condenado. Era parte do diário do padre Giordano. Menos mal, uma das páginas de Sarah valeria o dobro. Foi só quando o sangue secou definitivamente que Nôa notou algo que não apareceria sem seu contraste. Colocou a página contra a luz do celular e leu o que estava oculto no rodapé. Sentiu seu corpo aquecido de novo.

— Bingo.