Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 92 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 15

A travessia durava cerca de trinta minutos. Tempo suficiente para Lucrécia observar as almas que tentavam se lançar sobre a balsa, enquanto Caronte as devolvia ao rio de sangue com seu remo feito de ossos. Duas ou três vezes foram tantos braços sobre o assoalho que a balsa dançou perigosamente rumo ao fundo. Aim estava muito sério, o que motivou Lucrécia a perguntar se eles corriam algum risco. A resposta do até então comandante supremo dos Damaleds — ou atormentadores, como ele sugeriu chamá-los — foi a seguinte:

— No Inferno, nada é completamente imutável. As almas em sofrimento tentam incessantemente escapar de seu estado de penúria. O rio que você vê é composto por almas crentes que não tiveram um velório justo. Ninguém rezou por eles ou encomendou suas almas. Como deve saber, essa não é uma crença sul-americana, e sim grega. É por isso que estão aqui, no Inferno que eles mesmos criaram.

— E nós estamos aqui por qual motivo?

— Pela travessia. Existem apenas sete portais para este lugar. Cada um desemboca em um ponto diferente da Terra. Para onde iremos, precisamos do barqueiro.

Em seguida, Caronte ordenou que fizessem silêncio. O nevoeiro tornara-se tão espesso que era impossível enxergar um metro à frente. Ele remava lentamente agora, às vezes tateando as águas em busca de um banco de areia traiçoeiro — ou de podridão, pelo que supunha Lucrécia. Pelos lados, ouvia-se o lento murmúrio das almas. Pulmões tentando cuspir a água que os encharcava, restos cadavéricos buscando inutilmente escapar de seus algozes. Cérbero uivava à distância, clamando por seu dono.

— Esse lugar é horrível, não é à toa que ninguém tenha interesse no Inferno. Não dá para melhorar pelo menos essa porcaria de balsa? Aim, eu não sei o que seu chefe quer que eu faça, mas a entrada desse lugar não é nem um pouco positiva.

O barqueiro rugiu algo entre os panos apodrecidos.

— Estamos ouvindo, Lucrécia — Aim disse.

— Um pouco de segurança talvez? Ou uma passagem VIP para quem ganhou um lugarzinho no coração do Demônio? Isso é o mínimo, pelo amor de… Pelas asas de Lúcifer! — corrigiu-se.

— As almas crentes precisam saber o que esperar daqui. A travessia é uma espécie de preparação. Serve para facilitar o total desapego da vida. Já pensou no trabalho que teríamos para explicar para cada desgraçado desse mundo que ele morreu e que está no Inferno? E que a partir de agora quem manda na sua eternidade é o Demônio alado das profundezas?

Sem mudar de opinião, Lucrécia comentou:

— Faz sentido. Mas eu não compreendi muito bem o que você disse sobre almas crentes. Cada um tem seu próprio Inferno, é isso?

— De certa maneira. O Inferno é um lugar físico como já deve ter sido informada pelo rapaz dos computadores. E o mundo, ah, Lucrécia, o mundo é um vale de lágrimas interminável. No princípio, e digo realmente no começo quando Lúcifer se precipitou dos Céus, o Inferno não passava de um principado de fogo. Ninguém, nem mesmo Lúcifer, se portava como humano. Nosso principal interesse e o de todo demônio daqui era cuspir na criação divina. Não é segredo que o brinquedinho preferido da inteligência celestial é o homem. Um macaco razoavelmente inteligente, sem ofensas, dotado de uma alma, com capacidade de aprendizado e evolução praticamente ilimitados. Queríamos ofender a criação, entendeu? Mas os séculos e a própria evolução humana nos obrigaram a rever conceitos. Lúcifer teve a astúcia de perceber que sua minoria de anjos caídos não faria frente ao exército dos Céus.

— Um terço dos anjos… — Lucrécia comentou.

— Apenas no começo. Muitos deles morreram longe das asas do Criador. Lúcifer foi perdendo aliados, o Inferno tornou-se um lugar abominável e solitário. Então, o chefe começou a pensar melhor nos macacos preferidos da criação. Observou que eles tinham parte de sua astúcia, e que muitos de vocês eram maliciosos e inteligentes na mesma proporção. Lúcifer começou a catalogar seus pensamentos, fez deste lugar o que vocês conceberam que fosse. Assim, o Inferno caribenho é completamente distinto do Inferno japonês: um dos meus preferidos, confesso. Claro que ainda existem almas torturadas em todos os níveis do Inferno, mas hoje temos o que pode ser chamado de plano de carreira. Tudo o que precisa ser feito para escapar dos tormentos eternos é tomar parte no plano de expansão de Lúcifer. Atualmente, em vez de asas gotejando sangue e lodo, ele usa uma jaqueta de couro e masca chicletes.

— E é bonito — comentou ela.

— Ele sempre foi belo. Mesmo investido de toda a fúria do Hades, seu fogo é capaz de seduzir legiões.

— Estamos chegando — disse Caronte. Sua voz soou ainda mais desencorajada e distante.

Lucrécia descobriu o motivo quando olhou novamente para as águas. Elas não tinham mais a cor do sangue. Tampouco o ar recendia a ranço e podridão. A névoa que impedia a visão ainda pairava sobre as águas, mas alguma luz ameaçava seu reinado de escuridão. Estavam se distanciando do Inferno, e Caronte precisava dele como seu cachorro Cérbero precisava de cadáveres para comer.

Logo a balsa se chocou contra a margem. Lucrécia se apoiou em Aim para não cair e foi afastada por seu olhar severo. Ele não fez isso, mas provavelmente pensou em limpar o local onde ela o havia tocado.

— Obrigado, Caronte. Você trabalhou bem.

Em resposta, o barqueiro estendeu a mão pedindo outra moeda. Aim deu a ele. O espírito ancestral de Caronte a merecia depois de concordar em transportar a mulher. Não era segredo que todo demônio e guardião do Inferno detesta alguém de carne e osso.

Apoiada em sua bengala, Lucrécia trocou o assoalho instável da balsa pelas margens seguras. A névoa mais clara já permitia que ela observasse o chão.

Aim esperou que Caronte deixasse as margens com sua balsa, que, às vezes, era um barco, dependendo do número de almas. Lucrécia sentia-se agradecida por ter tido companhia naquele pedaço lacrimoso do Inferno, imaginou a si mesma, sozinha, depois de uma vida decepcionante na Terra, presenciando o horror do barqueiro e de seus domínios. Foi só quando os sons do remo de Caronte entre as águas se tornaram distantes demais para serem ouvidos que Aim voltou a falar.

— Preciso que feche seus olhos.

— Fechar meus olhos? No Inferno? Tá de brincadeira, né?

— Seu intelecto reduzido não suportaria a transição. Agora faça o que eu mando e mantenha as mãos nos meus ombros. Eu vou guiá-la.