Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 51 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 31

— Liza! Não!

Ela estava de frente para o quadro. O tecido que o protegia fora removido, seu rosto era banhado pela luz verde que emergia da tela. Seus joelhos estavam no chão, os braços tremiam; os olhos arregalados mantinham a mesma cor bizarra que escapava do quadro. Ela estava de frente para Nôa, segurando o quadro de maneira que ele só conseguia ver a parte de trás da moldura. Ele também ouvia as vozes que a domavam, dezenas de lamentos infernais rogando por almas.

— Solte, Liza! Solte o quadro! Feche os olhos, pelo amor de Deus!

Avançou em direção a ela. Um pedaço de náilon sujo o fez tropeçar, mas ele tornou a se levantar e conseguiu tocar uma das mãos de Liza. Foi o mesmo que chupar um fio de alta tensão. A mandíbula de Nôa travou imediatamente, seus músculos retesaram, ele foi estapeado para a frente. Só parou de deslizar pelo chão encardido quando suas costas encontraram uma das colunas de sustentação da igreja. Os pulmões cuspiram o ar acumulado, os olhos de Nôa rodopiaram, evitando um possível desmaio.

— Não, Liza! Não agora — lamentou em um sussurro.

Em segundos, o que havia na frente do quadro não era mais Liza, mas o esboço de um ser humano. O rosto estava sugado aos ossos; as mãos, negras e úmidas. Os braços ainda tremiam, embora parecesse apenas um esforço débil e inconsciente. Uma das tatuagens dela, no pescoço, se enrugou como se a pele fosse um tecido encolhido. Liza gemia como uma velha, os lábios não se encontravam. Nôa presenciou seu corpo diminuindo dentro das roupas. Os anéis penderam dos dedos, os brincos de prata enegreceram.

Os olhos foram a última parte a ser consumida. Eles encaravam Nôa. Horrorizado com a visão, o rapaz ainda conseguiu se levantar e caminhar até Liza. Ela deixou o quadro cair, pouco antes que ele chegasse. A moldura vergou e tombou com a frente voltada para o chão.

— Liza! Liza, fale comigo!

Assim que a tocou, Nôa tornou a se afastar. Ela estava gelada como o piso da igreja. A pele estava queimada e retraída, e Liza tinha o cheiro de um trapo sujo que ficou em um canto qualquer enquanto esperava a luz do sol que nunca veio.

— Não era para ser assim, Liza. Eu queria o melhor para nós dois. — Nôa estava chorando. — Eu preciso ir. Você entende, não é? Não vai adiantar nada eu ficar aqui e tentar explicar o que aconteceu.

Retomando o controle que lhe era possível, Nôa apanhou o quadro, desceu o tecido verde que estava às costas da moldura e os devolveu ao embrulho. Superando a dor que sentia e o nojo ao tocar aquele corpo, apanhou a chave do carro de Liza. As vozes ainda protestavam dentro da moldura, querendo, quem sabe, um pouco mais de carne. Ele não deixou de apanhar a estatueta e os outros dois quadros. A tinta de Lester estava segura em seu bolso esquerdo. Precisou atravessar a porta mais três vezes para então recostá-la e nunca mais voltar a cruzá-la. Carregando a estatueta cigana, ganhou o jardim externo e correu até os quadros. Eles o esperavam, empilhados em um banco de concreto. Nôa não chorava mais. Só queria desaparecer daquele lugar infeliz e pintar os horrores daquela noite. Liza seria sua nova musa agora, ele usaria a tinta do menino cigano e a imortalizaria para sempre. Ou era o que pensava…