Ultra Carnem
Capítulo 9
— Pensei que ninguém deveria me ver aqui dentro — Nôa disse. Acabava de cruzar seu caminho com o de outro homem encapuzado pelo corredor que tomaram ao sair da sala de Dimitri. O sujeito não o olhou nos olhos, baixando ainda mais a cabeça quando passou por Nôa.
— Queria mantê-lo do lado de fora. Eu disse a verdade sobre não recebermos estranhos e sobre nosso voto de silêncio, mas que alternativa eu tinha com um homem gritando e ameaçando fazer greve de fome?
Nôa guardou o sorriso da vitória para si e continuou acompanhando Dimitri pelo corredor. O mais prudente era ficar quieto, aproveitando seu êxito em ter chegado onde tantos falharam. Além do casarão, ele tinha o livro. Dentro dele, a próxima fase que guardava tudo o que a vida lhe negou tão duramente desde que se tornara um homem. Enquanto avançavam, Nôa notou algumas portas, e notou ainda mais a única que possuía numeração — um “8”, já oxidado e meio torto.
Nôa chegou a diminuir os passos quando passaram por esse quarto, mas o padre só abriu uma porta quando chegou ao fim do corredor.
Havia outro homem de batina marrom do lado de dentro, varrendo o chão. Ele não se distraiu de sua tarefa enquanto Nôa e o padre atravessaram o cômodo.
Passaram por mesas antigas, três delas, depois entraram em uma cozinha pequena, onde havia outra porta, à esquerda. Nôa percebeu a diferença para as demais: havia um cadeado enorme segurando o ferrolho.
— Por que um cadeado na cozinha?
Dimitri a destrancou e não respondeu. Esticou o braço para a escuridão do outro lado e tocou um interruptor. Uma luz fraca logo iluminou o chão de cimento cru e as paredes ainda no reboco. Foi só quando Nôa também atravessou que Dimitri respondeu a ele:
— O aço é bom em manter guarda.
O cheiro do corredor era meio enjoativo. Ainda tinha o odor do cimento usado em sua construção. Junto a ele, o óleo que escapava dos fogões e conseguia entrar pelo rodapé da porta. Mas havia algo mais. Um aroma um pouco carbonizado, mofado, o cheiro de um cinzeiro esquecido dentro do quarto depois de uma festa daquelas. Nôa atravessou e tocou uma das paredes para se apoiar. Estava impregnada de gordura.
Ainda em silêncio, caminharam mais alguns passos. Nôa teve a impressão de andarem em círculos. Sempre que a luz ameaçava morrer em uma curva, Dimitri acionava outro interruptor, sem que nada de novo aparecesse. Foi quando o cheiro de queimado ficou tão forte que Dimitri parou de andar. Ele se virou para Nôa e falou:
— Não preciso dizer que conto com sua discrição.
— Claro, padre.
Dimitri tornou a dar-lhe as costas e acendeu o último interruptor.
Dessa vez a luz trouxe uma passagem, e nada de portas.
— Que lugar é esse? — Nôa perguntou, olhando o lado de dentro da abertura.
O que havia estava negro e consumido. Nôa reconheceu o que um dia foram camas, mas também havia amontoados de cinzas que não davam pista alguma sobre sua origem. Em um canto, havia uma Bíblia parcialmente incendiada. Em outro, uma boneca sem cabeça. No meio do cômodo, que devia ter uns cinco metros quadrados, um carrinho de bonecas, chamuscado e sem tecido. Mas o que chamou mais a atenção de Nôa foi algo escrito aos garranchos em uma das paredes: filho do diabo.
— Quando Wladimir Lester chegou nesse lugar, havia esperança de que todas as crianças fossem boas. O que está vendo, sr. Nôa, era o dormitório delas. — Dimitri fez uma pausa antes de continuar. Ele olhava para as paredes e para o carvão que estava por toda parte, evitando olhar para Nôa. Sua voz levemente desencorajada continuou explicando: — Semanas depois de terem recebido Lester como um dos seus, o menino perdeu o juízo. O que soubemos a respeito foi dito por uma das meninas, a única que sobreviveu até a chegada dos bombeiros. Ela contou que Lester trancou todos dentro do dormitório e ateou fogo neles, pelo lado de fora da porta.
— Como ele fez isso?
— Isso nunca ficou claro. Talvez Lester tenha preparado tudo durante o dia, com solventes ou algo parecido.
Nôa levou as mãos ao estômago e virou o rosto para a entrada do corredor que deixou para trás, tentando encontrar um sopro de ar que não tivesse aquele cheiro horrível. Precisou se abaixar para não desmaiar, suas pernas tremiam. O Inferno devia se parecer com aquele quarto.
— Eles morreram? Aqui?
— As crianças e Dom Giordano não morreram. Foram assassinados . Quando a ajuda chegou, encontraram os corpos e o que havia no quarto, tudo queimado e retorcido. A menina Rita veio a falecer em seguida, assim que terminou de responsabilizar Lester pelo atentado.
— Minha nossa.
— Era uma casa cheia de amor, sr. Nôa. Um lugar onde os abandonados e desgraçados encontravam carinho e amparo. O que esse menino cigano fez contraria todas as obras de Deus, renega o que entendemos por humanidade.
Nôa se reergueu e deu alguns passos pela sala. Precisou desviar de alguns tecidos jogados pelo chão, fragmentos deles.
— O que fizeram com os corpos? E o que aconteceu com Lester?
— A menina Rita disse que Lester pegou fogo. A porta do dormitório já estava arruinada, o incêndio começava a se espalhar. O corpo do padre e o emaranhado de carne a que foram reduzidas as crianças foram enterrados aqui mesmo, no pátio. Foi quase impossível identificá-los na época. Com o escândalo que era esperado, a Igreja resolveu fechar o lugar para sempre. Nesse momento nossa ordem se apropriou do prédio, contamos a história certa e conseguimos guardar o segredo que eles tanto queriam esconder. Tem sido assim desde então. Além da língua ferina do povo de Três Rios, sabíamos como conter o mal que havia sido gerado dentro dessas paredes.
Nôa juntou um pouco as sobrancelhas.
— Vivemos em oração, sr. Nôa. Todo o tempo, o tempo todo.
— Uma atrocidade, sim… Mas, padre, esconder um segredo desses não me parece muito ético. Para que manter esse mausoléu de carne queimada? Por que não reformaram o lugar como fizeram com o restante do prédio?
— Para nos lembrarmos. E penso que para um dia convencermos alguém a não trilhar o caminho escavado por Wladimir Lester.