Ultra Carnem
Capítulo 24
Dizem que a segunda função das velas, logo depois de fornecer luz, é guiar as almas até o caminho dos justos. Se essa fosse toda a verdade, ninguém naquele porão precisava se preocupar com um mapa. Havia velas acesas em cada pedaço de parede livre. Elas só não eram mais numerosas porque precisavam dividir o espaço restante com os quadros. Lucrécia não conseguiu notar mais nada depois de pousar os olhos neles. Eram dezenas, centenas talvez, se fossem contados os que estavam escorados nas paredes ou enrolados como pergaminhos. Ela olhou para o teto e teve a mesma surpresa. Ao redor de um candelabro com mais de cinquenta velas, pinturas se enovelavam em um torvelinho de cores. A mulher poderia ter ficado ali, por horas a fio, admirando a arte que nunca despertara seu interesse. Lucrécia só entrara em um museu uma vez na vida — e carregava um carrinho com produtos de limpeza e uma vassoura. Em dois dias, acabou sendo demitida depois de se encrencar com a supervisão.
No centro da sala, havia uma mesa de madeira. Sobre ela, mais tinta do que as tonalidades conhecidas por ela se assomavam. Também pincéis, alguns sacos de algo branco que poderia ser gesso, molduras e telas vazias — estavam empilhadas por quase um metro. À direita da mesa — na parede mais distante de onde Lucrécia estava parada e absorta com os quadros —, um som ponteado, que lembrava as asas de um inseto preso em uma caixa de papelão, tiquetaqueava como um relógio acelerado. Havia alguém sentado ali, em uma cadeira desconfortável de vime. Ao lado da figura corcunda, além da parafernália que os pintores usam, havia uma bandeja com frutas — algumas roídas pela metade —, um jarro de barro e uma caneca encardida.
— Olá — Lucrécia disse, sem encontrar palavra melhor.
— Diga logo o que você quer — respondeu ele com a voz cansada. — Estou ocupado.
Cansada seria um enorme eufemismo. A voz daquele pobre coitado era tão fina quanto um suspiro. Não fosse a acústica privilegiada do porão em que se encontravam, Lucrécia não o teria compreendido. Ela se aproximou mais, temendo que na próxima frase isso acontecesse. Caminhou devagar, pensando no que diria ao velho. Sua cabeça cheia de ideias e frases estava vazia. Que tipo de conversa poderia ter com alguém tão velho? O que proporia a ele? O que uma carcaça humana de mais de duzentos anos teria de interesse? Um marca-passo?
— Eu acho que o senhor sabe o que me trouxe aqui. Meu nome é Lucrécia e trago interesses do Inferno.
— Pensei que diria algo como: “Eu sou o demônio e vim fazer o trabalho do demônio”. Fico feliz que não repetiu as palavras de um homem morto. A originalidade é sempre a melhor porção de um homem. No seu caso, de uma mulher. E antes que me pergunte, eu me atualizo — esticou a mão esquerda em direção a uma pilha de jornais.
A mão direita não parava de pintar. O velho continuava de costas, com um capuz sobre a cabeça, mergulhando o pincel em várias ilhotas de tinta sem precisar olhar para elas. Lucrécia chegou perto o bastante para ver sua última criação. Era o rosto do homem que ela conhecera no Inferno, o rapaz dos computadores. Ao redor dele, uma porção de membros decapitados compunha uma mandala de carne. O sangue que saía dos pedaços e cotos se afilava e injetava cores mistas no retrato do rosto fino e perturbado. Dependendo de como se olhasse — inclinando levemente os olhos para a esquerda — havia outra feição imersa no rosto de Marcos, dissolvida em pigmentos, alguém que Lucrécia conheceu aprisionado no primeiro nível do Inferno. Nôa.
— Como você sabe sobre eles? — ela perguntou.
— São parte de mim. Como todos que um dia se envolveram com meus quadros e minhas esculturas. Mais precisamente, com o que a trouxe até aqui: minha tinta .
— Podemos conversar frente a frente? Não gosto de falar com a coluna retorcida de alguém.
O próximo movimento de Lester foi esticar sua coluna, não muito, mas o suficiente para que seus ossos estalassem como milho em uma panela de óleo fervente. O som repulsivo fez Lucrécia recuar um passo e se armar com a bengala. Lester deixou o pincel e esticou o braço. Lucrécia pôde ver sua mão direita espalmada, tateando e se escorando em um pedaço de parede nua. Ele conseguiu se levantar entre gemidos, parecia não tentar algo parecido há muito tempo. Arfou o ar fazendo a garganta chiar. Lucrécia guardava distância e memorizava o caminho até a saída. Em sua vida terrestre, aprendera bem cedo que velhice não significa honestidade.
Lentamente, os pés de Lester se moveram. Primeiro o direito, em seguida o esquerdo, trançando no chão um círculo imaginário que o colocaria de frente para aquela mulherzinha intrometida.
— Meu Deus, como você é velho!
— O suficiente para ensinar alguém do bando de Lúcifer a não mencionar o nome de seu criador. Chegue mais perto, eu não consigo enxergá-la.
E nem parecia possível. O que restou dos olhos de Lester foram dois globos cinzentos, enrugados e desidratados. O pouco que seu rosto mostrava sob o capuz da túnica não estava em melhor estado. Sua pele era acinzentada e cheirava a mofo. As unhas eram compridas e encardidas, um centímetro ou dois de repulsa e micróbios. O resto dele continuava coberto por uma vestimenta marrom, amarrada por cordas na cintura, como a de um frade. Nos pés havia sandálias de couro que já começavam a ficar tomadas por fungos.
— Vai ficar me encarando ou vai me obedecer?
Resgatando a coragem que andava escondida, ela seguiu as ordens do cigano. Parou a poucos centímetros dele. A bengala ainda em suas mãos, pouco se esforçando para cumprir seu primeiro papel. Lester respirou mais fundo.
— Sinto seu cheiro. Poderia ser bem melhor se não tivesse um pedaço do Inferno grudado em você. Como ele a convenceu? Dinheiro? Poder? O que Lúcifer usou para corromper sua fé?
— Eu o escolhi. Não gosto da concorrência.
— Humm… Temos uma ovelhinha rebelde aqui — Lester disse e estendeu suas mãos repulsivas. Elas foram se aproximando do rosto de Lucrécia, tremendo e se esforçando para conseguirem a altura necessária. — Enxergo melhor com as mãos — ele explicou.
Os ossos de Lucrécia tremeram. O estômago embrulhou, ansiando por afastar o resto do corpo daquelas mãos sulcadas e finas. Mas ela ficou onde estava, faria o que fosse preciso para garantir anos melhores do que os vividos até ali. Além disso, Aim estava lá em cima, provavelmente atirando toda sua decepção e contrariedade nos ouvidos de Lúcifer.
— Quarenta anos, no máximo — Lester disse. — Um pouco jovem para ter tamanha confiança do descendente. — Deslizou os dedos indicadores até as extremidades dos olhos — Suas rugas contam que você sofreu bastante. Seu cheiro me diz que está nervosa, seus tremores indicam que ainda não me disse toda a verdade.
— Tenho uma missão. Acho que tenho várias, mas a primeira delas é levar Wladimir Lester comigo.
— Passou pela sua cabeça como eu concordaria com um absurdo desses? — Ele retirou as mãos do rosto de Lucrécia e começou a caminhar. Como um cego — apesar de ainda enxergar um pouco —, Lester conhecia a posição exata de tudo o que havia na sala. Ele não precisava tocar as madeiras cortadas das molduras ou as esculturas que dormiam cobertas por tecidos pardos. Quando se aproximava de um objeto, seu corpo tomava outra direção instantaneamente. O cigano parou de caminhar quando chegou à mesa de madeira do centro da sala. — Vocês do Inferno… Estão sempre supondo que conhecem todos os desejos humanos.
— Quero saber dos seus desejos, cigano. Quero tirar você desse buraco sujo e devolver as glórias que sempre mereceu. Estou certa de que o chefe pensa o mesmo.
— Cigano… Engraçado me chamar dessa maneira. Quem recebeu esse nome foi meu pai, Juan Lester. Jamais conheci alguém tão poderoso e tão burro. Ele poderia ter conseguido o que quisesse do seu… chefe, mas preferiu enganá-lo, ou pelos menos era o que meu pobre pai pensava. Eu já pintava naqueles dias. Passava horas com minha tribo, captando suas danças, o modo como conversavam, suas cores que de tão vívidas causavam desconfiança nas pessoas da cidade. Desenvolvi meu talento muito cedo, pintei meu primeiro quadro com três anos. O rosto de minha mãe.
— Posso vê-lo?
— Infelizmente, não. Minha mãe vive dentro da minha mente e em uma ou duas obras. Mas retomando de onde fui interrompido… Acontece que um dia, Lucrécia, eu tive um sonho. Nele, alguém com asas de anjo dizia para que eu vasculhasse os diários de magia do meu pai. Resisti no começo, mas a vontade de um homem sempre é mais forte que sua disciplina, ou pelo menos deveria ser. Foi assim que descobri o oculto, o grande motivo pelo qual toda a tribo respeitava e temia meu pai na mesma proporção. Fiz alguns rituais — infantilidades com ervas, gatos e cachorros. Mesmo nos primeiros passos, minha capacidade artística cresceu como seria impossível para uma criança tão jovem. Era exaustivo e, enquanto eu dormia, o velho cigano também exercitava suas mágicas, ele e minha mãe, sua grande companheira. Um ou dois meses depois de eu ter acesso aos manuscritos do meu pai, o homem-anjo tornou a aparecer para mim. Dessa vez, ele me disse que meu pai faria algo muito, muito ruim. Disse que era tarde demais para ele ou para minha mãe, e que, se eu tentasse impedi-lo, meu próprio pai me mataria. Conhecendo o velho Juan como eu conhecia, não duvidei que fosse verdade. O anjo também me deu instruções de como tirar proveito de tudo aquilo. Eu era apenas uma criança ansiosa em espalhar minha arte para o mundo todo, uma criança sonhadora e idiota. Meu visitante noturno se revelou o Demônio dois sonhos depois. Ele me deu instruções que me permitiriam viver para sempre através dos meus quadros. Como pode perceber, aquele desgraçado trapaceou comigo.
— Mas você vive através dos seus quadros. Eu estive no Inferno, cigano, posso garantir que todos conhecem o nome de Wladimir Lester. Mesmo na Terra você virou uma lenda. Seus quadros devem valer uma fortuna!
— Ninguém quer viver para sempre. Eu vi décadas passarem diante dos meus olhos infantis, vivi guerras suficientes para desprezar os bons dias. Envelheci no corpo de um garoto, eu fui deserdado pela minha própria gente, diabos, tudo que eu toquei tomou a cor da tinta que o Demônio me convenceu a produzir. Conheci mulheres e jamais me interessei em uma segunda noite com elas, eu sabia que elas morreriam e me deixariam com as malditas boas lembranças, com a saudade. Agora vivo em um porão úmido, estou quase cego e minha bexiga desce quando penso em algo líquido. E a morte não chega, não importa o quanto eu a chame ou tente convencê-la. — Lester estendeu os braços e mostrou duas cicatrizes enormes, uma em cada pulso. — Essas não são as únicas — disse, e emendou uma tosse horrível.
— Não sei se posso convencer o chefe a deixá-lo morrer.
— Não seja burra, ninguém pode fazer isso, não agora. Estou no meio da pior das guerras e nenhum dos generais tem interesse em minha alma. Você realmente acredita que a serpente se preocupa com o meu bem-estar? Não, Lucrécia, tudo o que Lúcifer deseja é atrair mais almas para o seu covil, e para isso, ele precisa da tinta.
— O que você deseja? Existe algo que ainda queira?
— Sim. Mas para isso precisaríamos voltar no tempo e mudar o passado. Nem o Diabo consegue fazer isso. Eu gostaria de acordar em minha tenda e sair para um passeio noturno. Gostaria de ouvir os gafanhotos e ver os vaga-lumes, minha nossa, o que eu não daria por um pouco de sereno fresco na pele. O mundo que existe lá em cima não me interessa. Seus carros, suas TV s barulhentas, as pessoas que se esqueceram do que é ser um humano. Vocês são máquinas, moça. Programadas para seguir um rígido padrão de comportamento. Se isso é tudo o que tem para oferecer, pode retomar as escadas.
Em vez das escadas, Lucrécia caminhou em direção à mesa. Ergueu a bengala e golpeou a madeira com toda a força que tinha disponível. Lester se afastou com um sobressalto.
— Ira? Começo a entender porque ele gosta tanto de você.
— Foda-se a sua opinião, velho. Você vem comigo, goste ou não. Eu não vim até aqui para ouvir seus lamentos.
Lester retomou o passo perdido e voltou a se escorar na mesa. Mais seguro de onde estava, levou as mãos ao capuz e o puxou para trás. O tecido caiu devagar, se enroscando na pele oleosa daquele corpo desgraçado, até chegar aos ombros. Foi preciso muita concentração para Lucrécia não esmorecer quando viu o que saiu do capuz.
— Minha nossa.
Olhar para o que estava oculto era o mais próximo que se chegava de flertar com a morte. A pele manchada e flácida do rosto, as sobrancelhas enormes e brancas, os lábios finos que tinham alguma dificuldade em reter a saliva. Sobre a cabeça nua de Lester, uma infinidade de pintas, algumas altas o bastante para serem confundidas com verrugas. Também feridas que poderiam ser obra maligna daquela doença horrível que acaba por exterminar quem vive demais. As orelhas finas se alongaram com o passar dos anos, agora pareciam brincos indígenas feitos de carne. A boca curvada para dentro sem muitos dos dentes, as bolsas dos olhos pareciam dois desabamentos de pele. E havia o cheiro, o hálito de Lester não era muito melhor que o resto dele, um odor adocicado e enjoativo, ao mesmo tempo apodrecido. Nada em sua aparência era agradável, mas o que mais impressionou Lucrécia foi o nariz: Lester quase não o tinha. Supondo o interesse da mulher, ele explicou.
— Sífilis.
O homem então baixou o semblante e expressou toda a penúria dos últimos anos. Seus olhos ficaram úmidos, seu queixo enrugado trepidou como uma cortina atingida por um vento intrometido. Lucrécia tinha um coração de pedra, mas, pelos deuses, ela ainda tinha um coração.
Tomada pela piedade que não costumava ter, se aproximou do pobre homem. Ele continuava na mesma posição. Suas mãos estavam cerradas em cima da mesa, apertadas com força suficiente para fazer o antebraço tremer dentro do manto.
— Vamos resolver tudo — Lucrécia disse e tocou seu braço. — Basta me deixar agir.
Lester esboçou um soluço logo contido. Ele tinha algo a dizer.
— Moça, Lucrécia , eu conheci muitas mulheres insistentes nessa vida. Algumas delas amei com todo meu coração.
— Eu sei que sim.
— Mas dentre todas essas mulheres — continuou, sua voz estava desencorajada, tímida e tremulante como um vento de verão —, eu nunca encontrei uma… — Lucrécia se aproximou mais para poder ouvi-lo — UMA PUTA TÃO TEIMOSA ! — gritou.
Agora a garganta de Lucrécia estava entre os dedos nojentos daquele miserável. Ele tinha a força de um homem adulto, um dos grandes. Lester percebeu que a mulher mancava assim que ela entrou na sala, agora usava a informação a chutando na perna machucada. Lucrécia perdia o que ainda tinha de oxigênio na tentativa inútil de amenizar a dor. Quando se tornou insuportável, ela dobrou os joelhos. Lester a obrigou a deitar e subiu sobre a sua barriga; continuou apertando. A bengala estava distante agora, longe demais das mãos de Lucrécia.
— Você não vai me levar para ele, mulher! Diz pro teu chefe que Wladimir Lester não obedece ninguém. Nem a Deus, nem ao Diabo, Wladimir Lester não obedece ao próprio tempo!
— Es… tá me su-fucan-do, por… fa-vor.
Lester sentia as veias do pescoço fino se inflando depressa. Ele poderia matá-la e ninguém o julgaria por isso. O padreco de cabelo amarelo havia prevenido Aim, claro que a polícia sabia das agressões anteriores. E Lester era só um velho cigano, um abandonado, um coitadinho. Ninguém duvidaria de legítima defesa, ainda mais um padre. Além do mais, padres são especialistas em guardar segredos.
— Eu vou acabar com você, vou mandar esse recado para o seu chefe. Ele vai entender finalmente que mexeu com o cigano errado.
O mundo de Lucrécia estava cheio de estrelas negras. Os sons estavam abafados, a pressão no pescoço era tamanha que sua cabeça pulsava junto com o coração. Pensou em sua mãe. Uma pena que não se encontraria com ela. Lucrécia iria para o Inferno, faria companhia ao seu pai tarado e para as criaturas horríveis enquanto seu espírito aguentasse. Mas não pediria arrego ao Deus tirano dos Céus, isso nunca. Em seu último suspiro, pensaria em Lúcifer. Talvez ele ainda gostasse dela depois de morta. Foi depois desse pensamento que uma intensa luz vermelha iluminou as costas de Lester. As velas se apagaram com o vento que precedeu a mesma luz. Primeiro as do teto, depois as que estavam espalhadas pelas paredes. Em segundos, todo porão assumiu aquela mesma tonalidade vermelha. Uma pequena explosão se fez depois disso, alta o bastante para chamar a atenção do velho cigano. Mesmo com a surpresa, ele não deixou Lucrécia.
— Solte-a, velho — disse uma voz às suas costas.
Em seguida, um relincho.
A visão praticamente nula de Lester não era capaz de enxergar a luz, mas ele jamais se esqueceria daquela voz.
— Não, não você! — disse. — Eu não estou pronto!