Ultra Carnem
Capítulo 4
Noite estranha. Não bastasse a novidade de outra criança para cuidar, Giordano ainda dividiu a escuridão com pesadelos e suores gelados. Por volta das três da manhã, quando desistiu de fechar os olhos e de ter uma noite tranquila, ele se retirou até a cozinha. O céu ainda rugia lá fora. Fazia meses que não chovia na cidade, e Deus decidiu derramar toda a água acumulada naquela semana.
O silêncio dentro do casarão era agradável, mas também um pouco assustador. Um padre tem um contato muito próximo com o desconhecido, com o oculto. O que não chega pelos ensinamentos da Igreja acaba sendo absorvido da boca dos fiéis. E também dos infiéis, como aquela cigana, Iolanda. Ela dissera que o menino era seu irmão, mas não era possível. E por que sua tribo resolveu que o menino não servia para eles? O que uma criança poderia ter feito de tão grave?
Giordano caminhou até um dos fogões e acendeu o braseiro. Ficou algum tempo olhando para o fogo e aproveitando seu calor enquanto colocava uma caneca de leite para ferver. No dia seguinte teria que apresentar o ciganinho aos outros meninos. Não seria fácil, sempre havia confusão com os novatos. Crianças são territorialistas. Uma criança abandonada, então, nem se fala.
As ações de Lester ainda brincavam com suas expectativas. O menino recusou a palavra de Deus. A única coisa que pareceu importante para ele — mesmo sendo retirado de seu lar e jogado em um orfanato — foi o bendito tubinho com a tinta vermelha. Ele parecia aficionado por ela, não seria exagero dizer apaixonado.
Em dez minutos o leite estava pronto. Giordano apanhou a caneca usando um pano de prato para não queimar os dedos e tomou assento na única cadeira da pequena mesa da cozinha. Suzana sentava ali quando comandava as cozinheiras e as refeições. Ela também cuidava das roupas dos meninos e, quando estava bem disposta, limpava todo o lugar. Às vezes, colocava as crianças para ajudá-la — fazia parte da educação um pouco de trabalho pesado. Em outras, requisitava o auxílio de duas ou três mulheres que concordavam em trabalhar por pouco dinheiro.
Como o resto do casarão, o refeitório estava escurecido pela noite. A única iluminação vinha do candeeiro que Giordano trouxera consigo. Enquanto experimentava o leite com chocolate, sua pele arrepiava tentando se livrar do vento que entrava assoviando pelas frestas do casarão. Ainda faltava alguma coisa naquela bebida. Giordano deixou a caneca sobre a mesa e caminhou até um pequeno armário, de onde apanhou uma garrafa âmbar. Colocou um pouco do conhaque na caneca fumegante e sorveu um pequeno gole. Enfim satisfeito, lançou os olhos para o refeitório vazio. A cozinha onde estava media três metros quadrados, o restante do refeitório, outros cinco. No maior dos cômodos, cadeiras estavam empilhadas sobre as mesas, como ficavam todas as noites.
— Padre?
Aos fundos estava ainda mais escuro. Giordano tentou rastrear a voz do visitante, mesmo sabendo que não devia ter ninguém ali. Ainda mais um homem adulto.
— Quem é você? O que faz aqui? — Com o susto, o padre se levantou. No silêncio da cozinha, conseguia ouvir uma respiração riscada, um pouco carregada na garganta.
Ninguém respondeu, o que o obrigou a deixar seu chocolate batizado sobre a mesa. Depois de apanhar o candeeiro, Giordano caminhou até a metade do refeitório sem encontrar o dono daquela voz. As pernas vacilavam um pouco, o que o fez parar na terceira mesa. A mão direita logo alcançou uma cadeira que serviria como arma caso fosse necessário. Giordano esticou o braço esquerdo que segurava a luminária e lançou o feixe de luz em outras direções.
— Já é tarde, não temos dinheiro — disse.
A presença riu baixinho. O som chegava de todas as direções, se alternando por cada canto escuro, resvalado na madeira das mesas.
— Estou armado, não me obrigue a machucá-lo — alertou o padre.
Dessa vez, nada de risos ou qualquer outro som audível. Trotando de cadeira em cadeira, o padre deu alguns passos lentos em direção à porta de entrada. Caminhar à luz de uma vela não era exatamente encorajador, o que o fez andar mais depressa a despeito das pernas, que queriam o oposto. A luz atingiu a entrada alguns passos depois. Continuava fechada. Ninguém teria entrado por lá sem que ele tivesse ouvido, era uma porta velha, suas dobradiças reclamavam o tempo todo.
Então, um riso o trouxe de volta. Giordano girou o corpo a tempo de ver sua caneca se chocando contra o chão. Com o susto, por muito pouco não derrubou a luminária. O padre conseguiu mantê-la na mão direita e correu em direção à cozinha. Se era um jogo de gato e rato o que o homem queria, Giordano seria o gato. Andou o mais depressa que pôde, mas sua coragem acabou tão logo a luz fraca da vela iluminou a abertura da porta.
Havia alguém ali. A figura conseguia ser mais negra que a noite. Era alta, ocupava toda a altura do vão da porta. A coisa também tinha olhos. Eram intensos, brilhavam como brasa. Notando o padre mais perto, o visitante recuou um passo para fugir da luz. Apesar do medo que sentia, do coração aos pulos dentro do peito, Giordano avançou em sua direção.
— O que faz aqui? — perguntou. Esticou o braço iluminado para a frente. O estranho não reagiu e tampouco foi afetado pela luz. O feixe amarelado pareceu ser absorvido pela entidade, de uma maneira jamais vista pelo sacerdote. Aos pés do visitante, o leite derramado era perfeitamente visível.
Outro som tomou o silêncio do refeitório, de novo às costas do padre. Ele olhou em direção à distante porta que começava a se abrir, sem coragem de manter os olhos nessa posição por muito tempo. A figura enegrecida ainda estava na cozinha, era para lá que deveria olhar.
— Padre? O que está fazendo acordado?
— Não entre aqui, Suzana. Está tudo bem, mas não entre aqui até eu chamá-la.
— Padre, eu…
— Já falei! Preciso de uns minutos.
Antes de continuar, Giordano esperou que os passos de Suzana invadissem o salão. Ela era uma boa freira, mas mantinha a teimosia de toda mulher. Dessa vez, contudo, ela decidiu ouvi-lo.
A chama da luminária tremia embalada pelo seu condutor. O padre ainda conseguia ver os olhos do visitante. Duas fagulhas aos fundos da cozinha, embaixo de uma pequena abertura para a saída de ar. Por sorte, a mesma abertura também trazia um pouco do luar. A figura negra continuou onde estava; absorvendo a luz para dentro de si e mantendo a escuridão que adornava seu corpo.
— Que Deus me ajude — o padre disse e avançou.
Assim que entrou na cozinha, a figura esmoreceu diante de seus olhos. O brilho fátuo que era a única parte visível do visitante empalideceu e o deixou em paz. Em seu lugar, um cheiro podre tomou conta de tudo.
— Deus! — exclamou Giordano. Cruzou o peito com o sinal da cruz e deu os passos que precisava até os fundos da cozinha.
No local onde a criatura estava recuada, notou marcas no chão. Giordano se ajoelhou e deixou que a luz da luminária chegasse bem perto. Havia alguma fumaça se erguendo da madeira do piso. Ele tocou o lugar com a mão esquerda e retirou em seguida, com medo de queimar os dedos. Poderia ser algo que saiu dos fogões ou o leite, mas ora essa… Não havia nada naquele ponto, nada a não ser as marcas. Olhou para a abertura acima. Ela era pequena demais para alguém daquele tamanho atravessar. Pela porta ele não havia saído, não havia espaço suficiente para passar sem que esbarrasse no padre. E Suzana teria gritado por socorro.
Voltou às marcas no chão. Ainda estavam quentes, mas não bem delineadas. Parecia loucura, mas seriam cascos? Sua mente vagava depressa, esbarrando em cada história horrível que já ouvira em confissões. Talvez fosse um inimigo, um demônio. Não era incomum que os servos do maior rival de Deus visitassem os soldados oponentes, sobretudo os que levavam a sério os mandamentos do Senhor. E em se tratando do inimigo, o melhor era desprezá-lo. Giordano caminhou até a pia, apanhou um pano de prato e limpou o chão até que as marcas ficassem praticamente invisíveis. Quando terminou, ouviu os passos de Suzana se apressando na direção dele — um pouco da realidade do mundo tomando sua vida de volta.
Graças a Deus.