Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 96 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 19

Os incontáveis pesadelos de Lucrécia não foram suficientes para acordá-la — e qualquer Deus ou Demônio sabia que seu coração pedia o oposto. No primeiro deles, ela revisitara a primeira investida do pai desgraçado que a trouxe ao mundo. Sentiu o cheiro de seu suor e o bafo de aguardente. Sentiu coisas bem piores. No segundo, Lucrécia despertou dentro de um caixão. Conseguia ouvir as pessoas do lado de fora, todas dizendo como aquela infeliz viveu uma vida miserável, como ela devia estar contente agora que se libertara dos suplícios da vida. Mas Lucrécia não estava morta. Ela sentia a escassez do oxigênio, as unhas perdidas tentando escavar a madeira; chegou a sentir um ou dois vermes invadindo a pele macia de seu bumbum. Mas o pior de todos os pesadelos foi o último e com maior duração. Nele, Lucrécia precisaria escolher entre sua mãe e a si mesma. Depois de conhecer a morte dentro de um caixão, não foi uma tarefa fácil. Entretanto, mamãe não morreria de câncer como de fato aconteceu. Naquele sonho nefasto, sua mãe teria a pele escaldada por chumbo quente. Lucrécia fez sua escolha e presenciou a segunda morte da pobre mulher. Enquanto viveu, sua mãe gritou por clemência. Em seu último suspiro, absolveu Lucrécia, dizendo que a amava. Tamanho horror fez o corpo de Lucrécia entrar em colapso. Suas pernas tremiam, sua pulsação estava disparada, sua língua estava mais seca que as paredes do quarto.

Foi quando alguém a sacudiu pelos ombros.

— Lucrécia, abra seus olhos. Estamos atrasados — Aim disse. Depois a golpeou na barriga com sua própria bengala.

Demorou algum tempo para Lucrécia reconhecer que estava acordada. Antes, checou as paredes do quarto esperando encontrar novos embustes. Passou a mão sobre o rosto e retirou um pouco do suor acumulado durante a noite. Olhou para suas roupas. Ainda usava o terno vermelho que escolhera no dia anterior. O tecido continuava perfeitamente alinhado, ao contrário de seu manequim.

— Estou acordada? — ela perguntou.

— Você precisa dar um jeito nesse rosto. Parece que foi atropelada.

— E eu fui — ela disse e saiu da cama.

Colocou a perna dolorida para fora e a forçou contra o chão. Parecia um pouco melhor, mas ela só teria certeza depois que andasse até o banheiro. Foi o que fez.

Em vez da bengala, Lucrécia preferiu se apoiar nas paredes. Recostou a porta e deu uma olhada no espelho. Os olhos estavam bastante inchados, uma parte do rosto sulcada pelo travesseiro, os cabelos não eram melhores que um novelo de lã nas mãos de um gato. Nada que um pouco de maquiagem não resolvesse.

Tudo bem, deu certo com o vestido , ela pensou e fechou os olhos. Imaginou um conjunto completo de maquiagem, daqueles que as vagabundas do Turco levavam em suas bolsas caras quando iam transar com ele e retocavam o rosto no Vagão.

O que apareceu em cima da pia de granito foi algo saído de uma loja de R$ 1,99.

— Vai ter que servir — ela disse a si mesma, se sentindo mais idiota que o menino mágico que morava embaixo da escada.