Ultra Carnem
Capítulo 12
Assim que atravessou, Lucrécia tentou abrir a porta que atravessou, claro que faria isso, tinha pavor de lugares fechados desde que fora violentada pelo segundo homem de sua vida. Pensou se seria ele, o italiano, quem a estaria esperando.
— Tem alguém aí? — perguntou à penumbra. — Que fique bem claro que eu fui convidada!
Ninguém respondeu de volta, o que a fez agir com a inteligência da velha Lucrécia: — Nem tente uma gracinha, moço. Eu conheço o dono desse lugar e, se você tocar um dedinho em mim, vai queimar para sempre em Genala .
— O nome certo é Geenna — disse uma voz masculina. Vinha de trás de um suporte com múltiplas fileiras de velas, parecido com o que existe nas igrejas (exceto que eram vermelhas e alaranjadas). Do modo como o fogo iluminava o espaço à frente do homem, Lucrécia não conseguia ver seu rosto recuado. O que ela via da sala eram as velas e uma mesa no centro do lugar, redonda e toda pintada com letras cuneiformes. As paredes também tinham coisas escritas, mas escuro como estava, ela não via mais do que rabiscos.
Antes de voltar a falar, Lucrécia deixou a bengala preparada. Quem será o próximo idiota que vai perder um olho ?
— Mostre-se. Eu tenho uma arma aqui, não duvide que acerto seu saco!
Lucrécia ouviu um sorriso tímido, porém verdadeiro. O homem saiu de onde estava em seguida. Seus sapatos guincharam como se estivessem molhados. O estranho parou perto da mesa e colocou as mãos sobre o encosto de uma das cadeiras de veludo vermelho. O terno dava a ele algum respeito, a gravata afrouxada contribuía para que parecesse sexy. Seus pés realmente estavam molhados, um pedaço das pernas também, abaixo dos joelhos.
— Não vou lhe fazer mal. Seu nome é Lucrécia, correto? Moça, alguém dos andares inferiores deve gostar mesmo de você, pois, desde que cheguei aqui, essa é a primeira vez que me deixam usar uma das salas de conferência.
— E você quem é? Vice-presidente do coisa-ruim?
— Bem que eu gostaria… Estou aqui para colocá-la a par de uma situação indigesta que tem se prolongado por muito tempo.
O homem puxou a cadeira destinada a Lucrécia e esperou. Ela não se moveu. Antes queria dar uma boa olhada nele.
Em um primeiro momento, Lucrécia enxergou somente um rosto cheio de cicatrizes, mas, tão logo firmou seu olhar, a pele se restabeleceu.
— Pode vir até aqui. Eu não mordo.
— Sorte sua, você morreria se comesse um pedaço meu — mentiu. Mas ela supunha que o homem à frente não soubesse disso. Estavam no Inferno, cercados por demônios e tormentos, dizer aquilo era como assumir aids em um presídio dos anos 1990, uma pequena chance de não perder o pouco que restou de dignidade.
O homem era alto, mas não parecia perigoso. Lucrécia decidiu se aproximar. Colocou a bengala à frente e sentiu sua perna ferida fisgar outra vez. Era um incômodo e tanto, mas não chegava nem perto da fome. Seu estômago queimava, contraído, apertado como um gomo desidratado. Ela aceitou a cadeira escolhida e o homem fez a gentileza de ajudá-la a se sentar.
O estranho sentou-se de frente para ela, estendeu a mão e se apresentou: — Meu nome é Marcos, Marcos Cantão.
Não é muito comum isso de sentir arrepios no Inferno, mas Lucrécia sentiu cada poro de seu corpo contrair-se. O que ela tinha a ver com aquele cara? Além de Trinta, se lembrava, claro, da última vez que ouvira o nome dele na Terra. Não foi em um noticiário ou em uma conversa com sua melhor amiga manicure, o nome daquele homem saiu diretamente da boca do Demônio.
— Já ouvi falar de você, moço. Dizem que você é a última vítima do Açougueiro, certo? O que está fazendo aqui? — perguntou, suprimindo a parte da tinta e dos ciganos. Chegaria nesse ponto mais tarde.
— Longa história, Lucrécia. Digamos que eu tinha uma ligação muito próxima com o assassino.
Ela afastou um pouco a cadeira e firmou o punho na bengala que estava ao seu lado, sobre a mesa — apenas por precaução. Ele não tinha lá muita cara de assassino. Na verdade, era um homem até bonito para a idade. Também tinha olhos miúdos e sacanas, Lucrécia reconhecia um tarado a quilômetros de distância. E tudo bem com isso, desde que ele mantivesse sua arma dentro das calças.
— O que eu estou fazendo aqui? Com você?
— Estou aqui para explicar sua nova missão. Você já deve saber que o chefe tem planos para você e que tem um monte de demônios revoltados com isso. A verdade, Lucrécia, é que o chefe não dá ponto sem nó. Para não gerar mais atritos desnecessários com o resto do pessoal, ele quer que você conclua um projeto.
Marcos notou que ela estava um pouco pálida. Também notou o motivo, quando as mãos de Lucrécia desceram, demorando demais para retornar.
— Está se sentindo mal? — perguntou. Ele já sabia do que se tratava.
— Estou morrendo de fome, não tem nada para comer aqui?
— Infelizmente, não. Esse é um dos problemas do Inferno. Quando cheguei aqui, meses atrás, sentia que meu estômago deixaria de existir. Ele ainda dói às vezes, mas a gente se acostuma. É um tipo de regra aqui embaixo, se acostumar com a dor.
— O que exatamente você faz aqui? Fica recebendo garçonetes e jogando conversa fora?
Marcos sorriu. Lucrécia era espirituosa, também era bonita por baixo daqueles cabelos desgrenhados e de sua roupa engordurada. Mulheres arredias são as melhores, ele apostaria que ela era um arraso na cama.
— Vai responder à minha pergunta? — ela insistiu.
— Eu ainda sou técnico em informática.
Lucrécia não conteve o riso.
— Tá certo, e eu ainda sou garçonete. Mas não foi isso o que eu perguntei, quero saber sobre seu novo trabalho, o que você faz na terra dos demônios.
— Vou tentar explicar. — Marcos olhou para as mãos unidas sobre a mesa, massageou o pescoço que sempre incomodava quando ele precisava falar por mais de dez minutos. Ele ainda sentia como se a carne estivesse partida, e seu pescoço — decapitado em vida —, prestes a cair no chão. Logo que chegou, alguém disse que ele também se acostumaria com isso, Marcos começava a duvidar. Ele continuou: — Você já deve ter percebido que o Inferno não é exatamente o que pintam nos quadros. Não é tão lotado, não tem aquela temperatura escaldante em todos os níveis, você não ouve choro e ranger de dentes, a não ser que explore o Tártaro. Você acharia estranho se eu dissesse que existem computadores aqui embaixo?
— Não tenho tempo para estranhar coisa alguma. Acabei de ver meu pai que estava morto há dez anos e um homem com uma corda no pescoço chamado Judas. Ah, e agora estou tendo uma conversa amigável com um cadáver. Mas me conte sobre os computadores do Inferno, qual a utilidade deles por aqui? Catalogar os condenados?
— Essa parte o chefe faz de cabeça. Ele conhece cada pecador daqui. Também sabe nossas ambições, nossos pontos fracos, antes mesmo que você tenha um pensamento, ele já esteve dentro da sua cabeça. Os computadores servem para outra coisa. Já deve ter percebido o interesse do pessoal em expandir esse reino, não?
— Parece que esse é o único objetivo deles.
— Os computadores servem para isso. O chefe quer interagir com a tecnologia terrena sem precisar abanar as asas e subir até a superfície.
— Ele me pareceu bem à vontade lá em cima.
— Não, minha querida. Ele detesta. Nosso cheiro, o cheiro da Terra, a maneira como precisamos abrir nossas bocas para falar, ele odeia até mesmo o modo como caminhamos. Mas de tudo o que ele mais detesta, em primeiro lugar fica a esperança. Não existe esse sentimento por aqui, sabe? No Inferno tudo é matemática, tudo é fechado e cíclico. Já ouviu falar em transcomunicação?
— Sou uma garçonete, mas não sou burra, Marcos. Também assisto TV e acesso a internet. Claro que já ouvi falar. É como nós falamos com os espíritos usando rádio, televisão, telefone ou outra porcaria qualquer.
— Aqui nós chamamos outra porcaria qualquer de computador. É esse o meu trabalho, arrumar meios para que o Inferno fique conectado com a Terra, intermitentemente.
— Mais ainda?
— Eu não estou falando de pornografia e assassinatos desfocados, Lucrécia. O chefe está bem além desse lixo. O que estamos trabalhando é uma linha direta com o Inferno. Mas estamos começando. E o que me trouxe aqui para essa nossa conversa foi outro motivo.
— Minha missão? — ela perguntou, quase gemendo. Levou novamente as mãos ao estômago, dessa vez abaixou a cabeça até que tocasse a madeira desenhada da mesa. Marcos procurou algo em seu bolso. Quando Lucrécia ergueu o rosto havia um cigarro perto de sua boca.
— Cigarro sempre ajuda.
Ela esticou a boca até alcançá-lo e Marcos o acendeu com um isqueiro prateado. A mulher tragou com vontade, esperançosa que a fumaça amenizasse seu apetite.
— Melhor? — Marcos perguntou.
Lucrécia respondeu soltando a fumaça bem devagar e rodopiando os olhos. Marcos explicou em seguida o que com certeza ela perguntaria.
— Podemos fumar aqui embaixo. Vícios são liberados quando ele — apontou para baixo — permite.
Ela fumou mais um pouco. Só quando o rato em seu estômago — parecia mesmo haver um, talvez houvesse — parou de morder, continuou com as perguntas.
— Quer dizer que você vai ligar o Inferno aos computadores da Terra?
— Eu? Quem me dera. Eu vou só soldar os cabos. Voltei a ser um técnico de computação como expliquei, creio que seja meu Inferno atenuado pelo que fiz lá em cima, antes de destruírem meu rosto e cortarem meu pescoço. Mas essa parte fica para a próxima, não estou aqui para falar de mim mesmo. Ah, Lucrécia, este lugar pode ser muito, muito ruim. O que você vê é só uma pontinha dos tormentos. Existem vários níveis de Inferno. Gelados, incandescentes, infernos cheios de demônios e desabitados. Infernos que corroem sua carne como ácido de bateria. Nós fomos privilegiados, temos aqui o que o outro nos negou.
— Deu… — ela começou a falar. Marcos golpeou a mesa antes que ela concluísse.
— Nunca diga o nome que comanda os Céus aqui embaixo. Jamais! O chefe é onipresente por aqui, nesse exato momento, ele ouve cada sussurro da nossa conversa.
Lucrécia estava assustada, e outra vez estava com a bengala entre os dedos.
— Você aprendeu um bocado sobre esse lugar em bem pouco tempo. Como sabe de tudo isso?
— O tempo corre diferente por aqui. Uma eternidade no Inferno é um dia lá em cima. Assim que cheguei, os capangas de Lu me deram um curso intensivo. É basicamente o que estamos tentando fazer com você.
Lucrécia terminou seu cigarro e procurou onde apagá-lo. Marcos estendeu a mão e o apanhou. Colocou ainda aceso dentro da palma, fechou a mão e, quando tornou a abri-la, o tubinho reduzido não estava mais lá.
— Mágica — ele disse e sorriu.
— Você disse que eu tinha uma missão. Quero saber do que se trata.
— Antes, eu tenho uma pergunta. Já ouviu falar de Wladimir Lester?
— Com esse nome ele é o quê? Algum tipo de vampiro?
— Não, diabos, claro que não. Wladimir nasceu há muito tempo, mas não creio que vai viver para sempre. Não lá em cima. Vou tentar resumir a história, certo? Como foi que você chegou aqui embaixo? Do que se lembra?
Lucrécia precisou se esforçar bastante. Sua mente não tinha a mesma agilidade terrena naquele lugar. Mais tarde, Aim explicaria a ela que esse é um dos problemas com os níveis mais rasos do Inferno, eles limitam sua inteligência.
— Depois da conversa com os três homens esquisitos, eu escolhi acompanhar seu chefe, quer dizer, nosso chefe. O cara das nuvens nunca tinha me dado a menor chance, então… Você precisa escolher um lado, não é?
Marcos assentiu, pensando que, às vezes, é o lado quem escolhe você. No entanto, não disse isso a ela.
— Depois, eu molhei a língua em um negócio vermelho, uma tinta amarga e doce ao mesmo tempo. Ainda sinto o gosto na boca.
— Essa tinta é a principal contribuição de Lester para este lugar. Pelo que me contaram ninguém conseguiu produzir uma gota daquilo desde o menino cigano, nada que fosse sequer parecido. O chefe em pessoa tentou produzi-la, mas tudo o que conseguiu foi uma diluição. Sabe, Lucrécia; Lu tem milhares de métodos para fazer um espírito descer as escadas, mas por algum motivo, ele dá extremo valor aos pactos. Penso que é para expandir os negócios, conseguir aliados… Diga-me, quando você ouviu falar pela primeira vez sobre pactos com o demônio? Sim, é o que está pensando, Lucrécia. Os pactos tiveram um avanço e tanto com Lester. Artistas, políticos, apresentadoras de TV . E o próprio Lester era um artista. Ele produziu muitas obras, mas poucas dedicadas ao Inferno. E todas continham traços dessa mesma tinta. Começou quando era uma criança, Wladimir Lester flagelou os próprios pais e quem ousou se meter em seu caminho. Mas então, um belo dia, ele desapareceu. Lu enviou suas tropas para a superfície, elas varreram a terra, e quando eu digo a terra, não me limito ao Brasil. Eles vasculharam cada pedacinho de chão.
— E agora querem que uma garçonete solteirona encontre o cigano?
— Não, Lucrécia. Wladimir Lester foi encontrado há algum tempo. O que Lúcifer deseja é que ele assuma seu posto neste lugar. Ele crê que suas obras têm o poder de mover exércitos ao seu favor. O que eu posso dizer por experiência própria é que o que o menino produz pode ser bastante persuasivo…
— E por que ele mesmo não vai falar com esse tal de Lester?
— Eles tiveram um desentendimento. O que o menino queria ia bem além do que Lúcifer estava disposto a oferecer. Lester se reclusou desde então. Se refugiou para longe dos olhos do Céu ou do Inferno. Mesmo que o chefe quisesse ir até ele, não seria possível. Existe uma trégua entre o Céu e o Inferno, entre os reis dos dois reinos. Há milênios nenhum deles pode apanhar um descrente com as próprias mãos. Foi isso que Lester se tornou. Encontrar a sua localização foi quase um acaso. Um dos recém-chegados o reconheceu na Terra e o descreveu ao seu demônio guia, um dos Damaleds de Aim. Desde então, o Demônio tem procurado uma alma que convença o cigano a descer. Sua alma, Lucrécia.