Ultra Carnem
Capítulo 7
A esperança de encontrar uma cigana arrependida à sua porta logo foi desfeita. Quem estava do outro lado era um homem alto, cuja expressão dizia bem mais que o distintivo que logo seria apresentado. O sujeito esguio usava terno, gravata e camisa branca por baixo. No rosto, um bigode rigorosamente aparado. O chapéu inclinado, um pouco umedecido pela garoa fina, cobria parte dos olhos miúdos.
— Bom dia. Em que posso ajudar?
— O senhor é o dono desse local?
Giordano deixou um pouco dos dentes amarelados pelo café aparecerem no centro da boca.
— Não sou dono de nada. Sou apenas o homem que toma conta das crianças. — Apanhou a identificação estendida pelo homem e a avaliou. — Sr. Lucano… Vamos entrar, sim? Não quero que o senhor apanhe um resfriado tomando essa chuvinha fina.
O homem tocou a aba do chapéu e acompanhou o padre até o interior do casarão.
— Vamos até a minha sala, as crianças podem ficar agitadas com a presença de um estranho tão cedo. Deus sabe que elas têm se agitado com qualquer coisa ultimamente.
Lucano acompanhou Giordano até a porta indicada. Ficava logo depois da entrada de portas duplas, à esquerda. Ele olhava para o chão, tentando supor a idade daqueles pisos — pareciam tão velhos quanto a cidade. Datados sim, mas de bom gosto. Um enorme mosaico de cimento vermelho e branco, formando cruzes e losangos. Nas paredes, uma foto do papa Leão XIII e de outros religiosos que não mudariam a sorte de nenhum ser humano.
O nariz de Lucano logo se irritou com o cheiro um pouco viciado da sala de Giordano. Havia parafina, um odor suave de hortelã — o mesmo que o rosto do padre exalava — e um pouco de verniz das madeiras do forro recentemente instalado naquele ponto do casarão.
— Vejo que vocês não têm energia aqui.
— Ainda não. Preferimos manter tudo como antigamente. A luz das velas não é ruim e, além disso, conseguimos economizar algum dinheiro. Sobrevivemos com o pouco que recebemos da paróquia e doações, e o senhor conhece as pessoas, ninguém está podendo gastar dinheiro com o filho dos outros. — Giordano puxou uma cadeira para o visitante e sentou-se em uma ao lado desta, não tomando o assento na vanguarda da mesa. — Aceita um café?
— Não, padre. Agradeço, mas prefiro ir direto ao assunto.
Giordano não tornou a abrir a boca e deixou seu peso cair sobre a cadeira. O oficial da lei sacou um envelope da parte de dentro do terno e o colocou sobre a mesa. O papel estava um pouco deformado pelos pingos de chuva. Lucano não o abriu em um primeiro momento.
— Por volta das três da manhã, fomos informados de um acidente horrível na estrada que leva a Moinhos.
— Santo Deus — Giordano disse em um reflexo.
— Parece que Deus estava distraído quando aconteceu. Me diga, padre: o senhor tem algum contato com a ciganada que morava na Fazenda do Retiro?
— Até ontem à noite não, mas… Por que não me conta logo o que foi que aconteceu?
— Estão mortos, padre. Estavam em caravana e todos, todos eles , caíram na Serrinha, o senhor deve conhecer o lugar.
— Todo mundo conhece. É um trecho perigoso de estrada. Mas ainda assim, uma caravana inteira? De quantas pessoas estamos falando?
— Quarenta e duas. Mas ainda estão encontrando corpos. Mais de dez carroças, padre. Todas incendiadas. Eles transportavam querosene e vinho, mas não me parece possível que só isso tenha causado o holocausto que encontramos. É como se eles tivessem se atirado uns sobre os outros e ficado quietos enquanto seus corpos derretiam no fogo.
— Deus tenha piedade. Vou orar por essa gente, faremos uma missa na catedral da cidade. É uma tragédia, sr. Lucano, uma tragédia sem precedentes em nossa cidade.
Giordano já estava com um terço nas mãos, orando mentalmente enquanto conversava com o homem. A presença no refeitório na noite passada não era fruto de sua imaginação, afinal. Era um aviso. A entidade era um emissário.
— Padre?
— Perdão, sr. Lucano. Estou tentando assimilar o que me contou. E também… O que eu e as minhas crianças temos a ver com o que aconteceu?
— O senhor sabe melhor do que eu, padre.
Giordano depositou o terço sobre a mesa, ao lado do envelope. Respirou profundamente trazendo um pouco mais de oxigênio para o cérebro.
— Eu me expressei mal. Quis dizer que não tivemos relação com o que aconteceu. Ontem à noite, por volta das oito, tivemos uma visita pouco comum. O senhor deve conhecer os ciganos e sua relação com a igreja e com os ensinamentos de Jesus Cristo.
— Na verdade, não conheço; por que não me explica?
O homem tirou o chapéu e o pendurou no encosto da cadeira. O padre estava se levantando para colocar a peça em um cabideiro que havia na sala, ao lado de um armário de carvalho, mas o oficial acenou que ele não precisava fazer isso.
— Não existe tal relação, sr. Lucano. Os ciganos têm suas próprias regras e crenças. Alguns deles creem no cristianismo, outros são muçulmanos, ateus — benzeu-se — e agnósticos. O que quero dizer é que eles não se misturam com os outros povos, com o nosso povo , principalmente. Quando uma cigana apareceu na minha porta trazendo uma criança, eu não consegui acreditar. Ela nos disse que o menino foi rejeitado pela tribo.
— Ela revelou o motivo?
Giordano buscou o retrato de Jesus Cristo que havia na parede, à direita de onde estava o oficial.
— Não. A mulher cigana só pediu que ficássemos com a criança.
— Posso falar com esse menino?
— Receio que não, sr. Lucano. O pobrezinho acabou de ser abandonado, hoje é o seu primeiro dia conosco. Entendo que o senhor tem poderes para exigir um depoimento do menino, mas peço de coração que não faça isso. Ele é só um garotinho. Está assustado e confuso, acabou de ser lançado entre pessoas que não conhece em um mundo que não conhece.
— Eu também tenho filhos, padre. Um menino e uma menina. Não pretendo complicar ainda mais a vida desse infeliz. Ainda assim… É o meu trabalho. De quanto tempo precisa para prepará-lo?
— Me dê alguns dias. Três dias serão o bastante para eu conversar com ele e explicar o que aconteceu. Depois, o senhor pode fazer suas perguntas. — Giordano olhou para o envelope sobre a mesa.
— Cheguei até sua instituição por causa deste envelope. Ele contém páginas do diário de uma mulher chamada Sarah. Ela diz que o seu menino deveria ser banido da tribo. Em outro trecho, escreveu que seu coração estava em paz agora que o djin estava longe do seu povo. Ela também menciona que o menino recebia poderes de Beng . Eu descobri que esse último é como o Diabo para eles.
— Não mencione esse nome aqui dentro, por favor. Estamos em uma casa de Deus, é uma ofensa trazer Seu oponente para essa conversa. — Giordano juntou as mãos e as pressionou com força sobre o colo. — O que mais há no envelope?
— Apenas algumas páginas. Os papéis são quase tudo que restou do incêndio.
Lucano calou-se e olhou para a sala, averiguando o espaço e pensando em algo que não compartilhara até aquele momento.
— Vai me dizer no que está pensando?
— Algumas pinturas se salvaram, padre. Quadros. Esse é o outro motivo pelo qual preciso falar com a criança cigana o mais rápido possível. Uma dessas pinturas mostra carroças despencando em um desfiladeiro. Eu vi os três quadros, padre. Com meus próprios olhos. Não me lembro de ter visto uma pintura mais realista na minha vida.