Ultra Carnem
Capítulo 20
Do lado de fora, Aim a esperava com a porta do quarto aberta. Como sempre, aquele bastardo estava impecável. Aim era o negro mais bonito que ela conhecera na vida, era um pedação como ela costumava dizer. Quando Lucrécia avançou até o meio do quarto, ele sorriu, provavelmente lendo seus pensamentos.
— Não fique se achando — ela disse. Sem esperar resposta, atravessou a porta.
Tomaram o lance de escadas, Aim perguntou se ela sentia fome. Lucrécia respondeu que não e que vomitaria qualquer coisa que enfiasse na boca. No térreo, Caricatura de Gente assistia a um vídeo pornô. Ele não desligou o aparelho de TV , mas teve a decência de virar a tela para si e reduzir o volume. Aim lhe entregou a chave e nenhum deles disse uma palavra.
Do lado de fora, o clima razoavelmente fresco das sete da manhã dava falsas esperanças sobre o resto do dia.
— Para onde? — Lucrécia perguntou.
— Precisamos ir até a igreja.
Lucrécia já conhecia o caminho e não fez questão de poupar suas pernas. Quanto mais rápido resolvessem o probleminha com aquele cigano, mais depressa retomaria sua carreira no Inferno. Tinha planos em mente. Quem sabe algum dinheiro? Esfregar sua ascensão social na cara do Universo seria maravilhoso. Também dar um jeito naquele cabelo ruim, fazer uma escova progressiva que não se desfizesse na chuva, alisar umas rugas; quem sabe aposentar Milton, o Vibrador, e alugar um amante bem-dotado?
— O gato comeu sua língua? — Aim perguntou.
— Não tive uma noite espetacular, tá bom? Eu só quero encontrar esse cigano e voltar para casa, seja lá onde vocês decidirem que eu more.
As ruas ainda estavam desertas, mesmo os bares que acumulavam a derrota humana ainda estavam vazios. Pelas calçadas, alguns cães dormiam emparelhados, dividindo pulgas e o calor dos corpos.
Assim que alcançaram o topo do aclive, Lucrécia teve outra surpresa. Aim parecia nervoso, mas admirava a catedral que se desenhava à frente. E não era para menos.
A única parte acanhada da estrutura era a cruz em seu ponto mais alto. Abaixo dela, uma estrutura gótica se enaltecia, com estatuetas e adornos em quase todo o contorno. As paredes eram feitas de granito bruto, e Lucrécia não pôde deixar de pensar no pavimento das celas do Inferno. Os vitrais enormes eram vistos à distância, imagens de Jesus, do panteão dos santos, o maior deles mostrava Maria amparando seu filho ensanguentado quando o tiraram da cruz.
Caminharam em silêncio até se aproximarem da igreja. Mais perto, Lucrécia descobriu um jardim viçoso aos fundos, com rosas, margaridas, beijinhos e um punhado de outras flores que ela desconhecia. Uma mulher como ela, nascida e crescida no subúrbio não tinha tempo ou interesse em lidar com a beleza — quando seu estômago ronca, tudo que você aprecia é um prato de comida.
— Chegamos cedo — disse ela, notando a quase esterilidade da frente da igreja.
— Não queremos chamar atenção.
Aim se deteve pouco antes do lance duplo de degraus que os levaria até a catedral. Olhou para cima, talvez para o topo da igreja, provavelmente mais acima, para o ser que diziam ser o dono daquele lugar.
— Não me diga que você não pode entrar em uma igreja?
— Eu apenas não gosto — Aim respondeu e deu um passo. Deixou que Lucrécia desse os dela sozinha.
Havia cerca de seis pessoas dentro da igreja. Três delas usavam xales negros sobre a cabeça e ocupavam os três primeiros bancos em frente ao altar. Elas olharam para trás quando ouviram o ruído da bengala de Lucrécia. Juntas, suas idades beiravam os trezentos anos. As mulheres voltaram a cruzar os dedos e fingir que rezavam quando tiveram certeza de incomodarem os novos visitantes. Lucrécia ouviu um chiado ao seu lado direito. Havia uma pira de água benta ali, que começava a ferver.
— Não vai durar muito. Creio que seja apenas uma mensagem de boas-vindas para nós dois — Aim explicou.
Tomaram a lateral esquerda da igreja, onde não havia bancos para atrapalhar seu caminho ou suportar as bundas magras das bestas. No entanto, existia uma imagem bizarra em um anexo lateral, depois de um pequeno oratório no qual fiéis poderiam se ajoelhar. Na escultura de mármore, um homem de vestes clérigas segurava a própria cabeça decepada. Lucrécia parou para olhar.
— Quem era ele? — perguntou, fazendo com que Aim retrocedesse alguns passos.
— São Dinis. Muitos o conhecem como São Dionísio. Ergueram essa catedral em sua homenagem, uma réplica da que existe na França. Dizem que ele era eloquente e conquistou centenas de pagãos com sua língua afiada. O problema é que os recém-convertidos se recusavam a adorar a César, o Romano. Então, o imperador Décio ordenou que arrancassem sua cabeça.
— Não vejo nada de extraordinário nisso. Cortavam a cabeça de todo mundo naquele tempo. Isso quando não jogavam os coitados para os leões ou partiam suas bundas ao meio com as máquinas de tortura da Inquisição.
Aim sorriu da ignorância da mulher.
— De fato. Mas nenhum outro homem caminhou seis quilômetros pregando as palavras Dele — apontou para cima — com a cabeça decepada entre as mãos. Essa era a distância até o local onde Dinis foi enterrado.
Antes que Lucrécia soltasse outra pérola, uma sombra se projetou pelas costas dos enviados do Inferno. Aim talvez tenha percebido de pronto, mas foi Lucrécia, sempre a curiosa, quem lançou primeiramente os olhos para trás.