Ultra Carnem
Capítulo 11
Lester chegou ao pátio dez minutos depois. Encarou sem muito ânimo os meninos que pareciam babuínos nervosos. O que chamavam de Buba-Baleia — não por acaso — estava sentado, devorando alguma coisa de cor bege. Pela sua expressão estava delicioso, e pela boca aberta e olhos úmidos do menino ao seu lado, aquele doce tinha outro dono cinco minutos atrás. A freira com olhos esbugalhados fiscalizava algumas meninas que pulavam corda. Os outros não eram importantes. Quem domina os grupos sempre são homens fortes e mulheres bonitas, não importa o que digam sobre a inteligência.
Tentou se aproximar sem ser notado, apenas para cumprir sua parte do acordo com o homem que usava saia. Um cigano jamais colocaria um vestido preto a menos que alguém o pagasse para isso. Talvez o padre fizesse isso pelo mesmo motivo. As pessoas fazem absurdos por um pouco de dinheiro.
Havia um canto quase esquecido no pátio, ficava atrás do maior dos pés de romã. Se ele conseguisse chegar até ali, escaparia do moleque gordo que provavelmente tinha nascido como uma espinha nasce na bunda.
Lester caminhou até se refugiar na sombra da árvore. Gostava da natureza, da liberdade, do cheiro jovem das folhas.
Em segurança, observava Buba-Baleia implicando com outro garoto, um de óculos fundo de garrafa que possivelmente ficaria cego sem eles. Na tribo, a única pessoa a ter uma lente daquelas era Madame Sarah, só que ela não usava no rosto, usava para acender o fogo. O menino de óculos se afastou e olhou em direção à freira, Buba sacudiu a cabeça e chamou pelo menino de olhos puxados. Ciganos também não gostavam deles, dos japoneses. Romena, sua mãe, sempre dizia que nunca se sabe quando um japonês sorri de verdade, dizia que os olhos deles são mentirosos. Lester tateou o bolso dianteiro direito e apanhou um envelhecido caderninho com capa de couro, presente da mesma mulher que o colocara no mundo. Dentro dele havia um desenho de Romena. Lester acariciou o retrato com a ponta dos dedos. Sua mãe estava vestida para o casamento — que sepultaria sua vida dez anos depois. O tecido do vestido devia ser vermelho, mas podia ser rosa — o retrato só mostrava tonalidades mortas. Lester acabou retirando as mãos do caderno quando um cheiro diferente irritou seu nariz.
— Tá fazendo o que aí, filho do diabo? Chorando de saudade da mamãezinha, é?
Lester ergueu os olhos e encarou o garoto gordo com marcas escuras embaixo dos sovacos. Essa não era a única sujeira de sua camisa caqui. Ele também tinha comida perto do umbigo, e algo que poderia ser baba ou suor no colarinho. Aproveitando que o outro não desviaria o olhar primeiro, fechou o caderninho.
— Perguntei o que você tá fazendo.
— Nada.
Buba sorriu, mas foi quase uma careta.
— Você e seu povo fedido se acham melhores que a gente. É por isso que vivem em bandos, longe da cidade. Ou então porque são selvagens.
— Não somos selvagens.
Buba olhou ao redor. Fez isso em todas as direções. Lester fez o mesmo e constatou que a pessoa mais próxima não serviria para muita coisa. Era um garotinho com as pernas ruins. Lester o havia visto quando entrou no pátio, o coitado tentava chutar uma bola, enquanto os outros meninos riam. Ele tinha os pés curvados para dentro.
— Você tem que me dar alguma coisa.
— Eu não tenho que fazer nada. Você não é o dono desse lugar.
— Sou mais dono que você. Anda, me dá alguma coisa, todo mundo precisa pagar quando chega nessa merda de casa.
— O padre e a mulher esquisita dão comida e cama para a gente, por que você quer meu dinheiro?
Buba não respondeu de imediato. Ele deu às costas sem se afastar totalmente e assoviou metendo os dedos na boca. Não demorou nada até que o garoto de cabeça vermelha e o menino japonês chegassem; os dois riram quando viram Lester acuado.
— Ele quer saber por que precisa dar alguma coisa para gente — disse Buba.
— Para um cigano, você é bem burro… — disse Vermelho. — É simples, coisa feia, você paga a gente para não se machucar. Essa casa parece um bom lugar, eu sei que o padre Giordano contou para você que todo mundo aqui é uma família e um monte de lorotas. A verdade é que esse lugar é perigoso. Você pode cair de cabeça no chão encerado do banheiro, acabar preso no porão… Uma vez, um menino até despencou de cima do telhado. — Ele olhou para o garoto com as pernas curvadas. — Um acidente horrível…
— Eu não tenho medo de vocês.
Lester não teve tempo de reagir quando Buba o socou no rosto. Ele rolou pelo chão, seu olho direito queimava, enquanto os garotos riam. O menino gordo ainda o surrou com dois chutes na barriga.
— O que estão esperando? Procurem nos bolsos!
Lester rolou no chão, era tudo que podia fazer. Ainda estava meio tonto com a pancada.
— Eu entrego! Eu tenho uma coisa para vocês! — gritou. Começou a chutar Japonês e Vermelho para que eles não o tocassem. Buba estava afastado, procurando por algum adulto intrometido.
— Ele parece um peixe! — disse o ruivo.
— Você é um pamonha, Vermelho! É só tirar a casca de sujeira e agarrar ele! — Japonês disse em seguida. O ruivo começou a olhar feio para ele, e Buba intercedeu.
— Chega dessa lambança, ele já disse que vai pagar. — Chegou mais perto e puxou a camisa de Japonês para que ele ficasse com o posto de vigia. — O que você tem aí, bicho feio?
Lester pousou a mão sobre o bolso esquerdo, apenas para garantir que o tubinho estava inteiro. Depois levou-a ao bolso direito, de onde tirou o caderninho. Estendeu a mão trêmula a Buba. Seus dentes estavam cerrados e Lester sangrava um pouco no lábio superior.
— O que é essa porcaria?
— É antigo, mas vale dinheiro se encontrar o comprador certo. A capa é de couro.
— Eu não me importo com a merda da capa. O que você acha, Vermelho?
— Isso não paga o serviço… Mas dá para usar para limpar a bunda se acabar o papel.
Buba apanhou o caderninho e o folheou, as páginas farfalhando em suas mãos. Um papel solto acabou se desprendendo e caindo no chão. Lester tentou ser rápido, mas Vermelho pisoteou o dorso de sua mão.
— O que é isso aqui? — Buba perguntou. Japonês apanhou o retrato e o entregou a ele. O menino gordo arregalou um pouco os olhos, parecia gostar do que via. — Quem é a vagabunda?
— Ninguém — respondeu Lester. Me devolve, o retrato é meu. Eu já dei o que você queria! Pode ficar com o caderno.
— Se não é ninguém, não tem problema eu ficar com a foto. E você, sua besta, pode ficar sossegado, vou guardar em um lugar onde ninguém vai mexer. — Buba puxou a calça e a cueca para a frente. Enfiou o retrato ali. Lester acabou arranhando o chão enquanto via aquilo.
— Ela tá vindo! — Japonês avisou.
Buba confirmou com os próprios olhos e avançou na direção de Lester. O garoto cigano recuou, mas o outro o agarrou pelo colarinho da camisa.
— Isso aqui serve por enquanto, fedido. Se você não quiser perder os dentes, fica de boca fechada. Se andar na linha, pode conseguir dormir sem apanhar todo dia.
Japonês já estava no meio do pátio, roubando a boneca de Júlia para atrasar Suzana. Quando ele notou Buba e Vermelho se aproximando, deixou o brinquedo e correu em direção a outras duas crianças que chutavam uma bola de meia. Logo as duas estavam chorando, e os outros três, juntos. Eles tinham um caderninho, uma foto e uma bola de meia para chutar.