Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 57 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 5

— Cuidado aí! — disse um homem velho tão logo Marcos passou pela porta. Era a criatura mais feia que ele já tinha visto. Dentes encurvados e amarelados de tártaro, a pele do rosto descascando toda. Parecia uma doença, como psoríase. Na cabeça calva era pior. Dava para ver as casquinhas desprendidas com um pouco de pus seco as agarrando. O velho tinha uma gaiola nas mãos. Foi ela que acertou em cheio o peito de Marcos. Dentro da gaiola apertada havia um galo, todo ferrado. Já estava cego de um olho e sem um dedo na pata direita. O bicho tentava acertar Marcos e esbarrava nos arames.

Depois de se reequilibrar, o velho corcunda sorriu, mostrando mais de sua boca desagradável. Os lábios trincados e murchos se distenderam.

— Calma aí, vovô! Segura essa galinha!

— É um galo de briga. E tem mais coragem que você… Deixa pra lá. Tô com pressa. Sai da frente.

A ave encarou Marcos com seu olho bom até que ele e seu dono dobrassem a porta para a esquerda.

— Jesus…

Livre do segundo incidente em menos de dez minutos, Marcos girou o corpo e se deparou com um corredor enorme e iluminado por uma luz vermelha. Decidiu segui-la.

Cinco passos depois, sentiu um cheiro bom que não conseguiu identificar. Em dez passos, encontrou o foco daquela luz. Estava sobre um altar.

O aparador ficava atrás de um balcão de vidro, no alto e preso à parede. Sobre o altar havia uma santa. Não uma santa qualquer. Na verdade, era uma caveira envolvida com um manto. Dentes arregalados e uma inexplicável expressão de compaixão. Aos pés da estátua havia flores, mel e um pacote de cigarros Eight. Marcos chegou mais perto e inalou um pouco do ar. O incenso que perfumava a loja queimava naquele altar, e se Marcos não estava enganado, o que saía do palito tinha um quêzinho de maconha. Ele fechou os olhos e respirou mais fundo.

— É a Santa Morte — explicou-lhe uma voz de mulher.

Marcos sentiu as pernas fraquejarem.

— Meu Deus! Quer me matar de susto? — perguntou, encarando a velha.

A mulher à sua frente não tinha mais de um metro e meio de altura. Usava um vestidinho rodado bem escuro e uma blusinha de seda preta que a deixavam ainda menor. No rosto rugoso, duas coisas chamavam atenção: uma verruga nojenta no canto superior direito da boca e fios grossos e brancos espalhados pelo queixo fino. Em alguns lugares estavam raspados. Isso o fez pensar que sempre havia algo pior na casa do vizinho, pior que Odeta e sua barriga cheia de estrias. Perto daquela velha, Odeta era uma princesa asteca. Talvez princesa fosse exagero, mas Deta era melhor que a tal velha.

— Quem se assusta com pouco, deve muito — ela disse, e sorriu. Acima dos dentes, o rosa falsificado das dentaduras brilhava. — Tá procurando alguma coisa especial, fio ?

Marcos continuou quieto, espantado com a mulher e mais ainda com a loja. Havia muita coisa ali que não se vê todo dia. Caveiras, cristais, miniaturas de demônios, velas, pergaminhos, pequenos animais empalhados… Até entrar ali, parecia impensável que alguém perderia seu tempo empalhando uma ratazana. Ela parecia viva para Marcos. Os pelos sarnentos, a boca arreganhada com enormes dentes pontudos. A coisa tinha olhos vermelhos de vidro, mas, nossa, pareciam reais.

Por dentro, a loja era bem maior do que a fachada mostrava. Parecia atravessar, com o corredor comprido, toda a extensão do quarteirão. Balcões de vidro imundos tentavam organizar as bizarrices, mas também havia muita coisa pendurada ou recostada às paredes. O local lembrava um santuário. Marcos notou alguma semelhança com a sala de milagres de Aparecida do Norte, que também era assustadora demais para esquecer com todas aquelas próteses, exames, tumores dentro de vidros de maionese, ataduras e cadeiras de roda.

— Procurando? Não… Só estou curioso — Marcos respondeu. — Nunca tinha ouvido falar de uma loja dessas aqui em Três Rios.

— Nossos clientes são discretos. E a gente não vende nada que se anuncia no jornal — respondeu a mulher, tentando sorrir outra vez. Dava quase para ouvir o estalar das mandíbulas que não estavam acostumadas ao movimento.

— O que são todas essas coisas?

— Ingredientes — ela respondeu.

A expressão sonsa de Marcos a fez explicar melhor.

— Bruxaria, rezas, trabalhos e promessas. E tem algumas peças pra esse pessoal do rock. Eles gostam daqui. De vez em quando, vendemos umas cabeças para eles. Pessoal bom, paga à vista.

— Cabeças de verdade? — perguntou Marcos. Tomou nas mãos um crânio pequeno que estava sobre o balcão.

— Algumas. Mas isso fica entre nós — piscou. — Esse aí na sua mão é o Rodolfo.

— Puta merda, tia — disse Marcos, colocando o osso de volta. — A senhora dá nome para essas coisas?

— Claro. Esse aí foi meu primeiro filho. Morreu cedo. Eu tinha uma doença do sexo , peguei do safado do pai dele. O Rodolfo nasceu só pra sofrer. — Tomou o osso pra si e o acariciou. — Hoje, ele não sofre mais. Se você quiser comprar, eu vendo.

— Acho que não. Eu vim por causa do computador.

— Ah, você é o moço que arruma aquela droga…

— Sou, sim — respondeu Marcos, sorrindo. Chamar um computador de “droga” naquele lugar soou curioso. — Onde fica a máquina?

— No meio da loja. É só me seguir. Atanásio! — gritou depois de dois passos. — Vem vigiar a frente da loja.

Dos fundos, emergiu um velho de 180 anos se arrastando em cima de um andador. Carregava um fedor de urina com ele, que chegava antes dele. Atanásio vestia um roupão bordô e, apesar da expectativa de Marcos de ele demorar meia hora para chegar até a frente, sua habilidade com o andador provou o contrário.

— Oi — cumprimentou Marcos. O velho olhou para ele e continuou seu caminho sem dizer nada.

— Ele está mal-humorado. Foi ver o doutor da próstata ontem — disse a velha, estendendo o dedo médio e mexendo para a frente e para trás, como se cutucasse alguém.

— Coitado.

— Bem-feito pra ele. O Atanásio não me satisfaz há vinte anos. Homem que não satisfaz a mulher não serve pra nada melhor que uma dedada no… Você sabe onde.

Difícil conter os músculos do rosto e não fazer uma careta. Marcos imaginou o sexo bizarro dos dois, a dedada… Sentiu nojo do próprio cérebro depois disso.

— Meu nome é Sofia. Você é o tal do Marcos? Com quem eu falei por telefone?

— Eu mesmo.

— Não liga pra essas besteiras que eu falo. Gosto de me divertir. Gostava muito de me divertir com o Atanásio quando ele ainda funcionava.

— O que aconteceu com o computador? — perguntou Marcos, tentando fugir do assunto preferido da velha.

— Estava bom e então começou a travar. Funcionava umas três horas e parava. Faz uns dois dias que parou de vez. Agora fica com uma tela azul com uns troço escrito. Eu não entendo muita coisa, e o Atanásio não entende nem o jornal da TV . Eu preciso dessa porcaria para o pessoal que paga com cartão. Hoje, até o diabo tá aceitando cartão — disse enquanto seguiam pelo corredor.

Caminharam mais cinco passos e Sofia parou de andar.

— Taí a porcaria que não funciona… — apontou para um balcão pouca coisa mais limpo que o restante da loja. A máquina estava sobre ele. Em cima dela, uns vinte anos de poeira. Devia ser o primeiro filho do PC 486.

— Vou abrir para olhar melhor.

— Pode abrir o que você quiser, mocinho — sorriu. A dentadura brilhou de novo. Marcos fincou os olhos no computador e passou para o lado de dentro do balcão. — Eu vou ajudar o Atanásio antes que ele se mije todo. Depois de velho, ele parece um cachorro feliz. Se precisar de alguma coisa, é só chamar.

— Posso arrumar direto ou a senhora prefere um orçamento antes?

— Pode arrumar. Depois a gente acerta .

Sofia se afastou e Marcos ficou na posição clássica dos técnicos de computador: cócoras. Sacou a chave de fenda, desrosqueou os parafusos que precisava e puxou a tampa em forma de U invertido.

Devia ter ouvido minha mãe e me especializado em saúde. Eu andaria mais limpo. Mas não… Eu tinha que tentar ser a porra do Steve Jobs.

Havia muita sujeira, como sempre, mas não só isso. Algo grudento estava por todo o interior do aparelho. Sobre os circuitos, nos fios. Apesar do aspecto horrível, Marcos logo viu que o defeito não era esse. O problema era um cabo solto na fonte de energia. Mas a curiosidade o fez puxar um pouco daquela gosma. Com a chave de fenda, levou para perto do nariz. Cheirava um pouco a ferrugem. Era melhor dar logo um jeito naquilo e garantir seu dia, e Sofia não precisava saber sobre a fonte, obviamente .

Depois de uma hora limpando, Marcos tinha um diagnóstico mais conveniente.

— Dona?

Sofia estava mais à frente, espanando uma cúpula de vidro que albergava um macaco empalhado.

— Já acabou, mocinho?

— Queria que a senhora desse uma olhada.

Sofia foi até onde ele estava e franziu a testa.

— Sumiu a tela azul?

— Sem tela azul. Preciso perguntar outra coisa para a senhora — ele disse. — Ela apertou os olhos, parecia saber que não daria aquela resposta mesmo antes de conhecer a pergunta. Marcos continuou mesmo assim: — Tinha uma gosma grudenta dentro dele, espalhada por toda a placa. Você lembra se alguma coisa caiu no computador?

Ela relaxou os ombros.

— Ah, meu filho. Essa loja faz coisas estranhas.

— A loja ?

— Deixa pra lá. Deve ter sido o Atanásio que derrubou groselha. Ele anda meio descoordenado com as mãos. Tá parando de funcionar, igual o computador.

— Olha só, eu limpei toda a sujeira, troquei a memória que estava fraca, instalei outro HD e reprogramei tudo — mentiu.

— Era esse agardê o problema?

— É bem comum. O que estava na máquina tinha uns dez ou doze anos. Agora tá redondinho.

Sofia ficou quieta. Marcos também. Ambos esperando o próximo movimento. O vácuo pareceu durar para sempre até que o técnico em informática resolveu falar.

— A senhora me deve… Deixa eu ver… Peças, mais serviço… Mais a quilometragem… Acho que oitocentos pagam tudo.

Sofia arregalou os olhos.

— Não é muito não, fio ?

— Veja bem, dona Sofia. Se a senhora chamasse outro técnico, ele nem ia querer consertar. Eu limpei tudo, perdi umas duas horas fazendo isso. Troquei peças. E estou sem almoço. Acho que é bem justo.

— Temos um problema… Eu e você — ela disse. Marcos suspirou.

Rodou os olhos e encontrou um manequim todo perfurado, possivelmente com facas. A coisa parecia um boneco de cera, perfeito demais para ter pele de PVC . Mesmo com olhos de vidro, aquilo parecia gente… Marcos voltou para Sofia.

— Qual é o problema, dona?

— Só tenho trezentos.

— Isso não paga nem as peças. Faço em duas vezes para a senhora…

— A gente está vendendo pouco, fio … Sempre fica assim quando a economia melhora. Essa loja funciona melhor quando o povo está ferrado… Não pode esperar até o corte de funcionários da fábrica? Acerto com você no dia seguinte. O povo sempre procura ajuda na macumba.

— Que fábrica?

— A de alumínio. Eles vão cortar pessoal e a peãozada vai bater aqui. Eles sempre vêm para cá quando a comida foge da mesa.

— E como sabe sobre os cortes?

Sofia cruzou os braços.

— Isso é assunto meu. Mas se você me der esses quatro meses, eu pago tudo.

— Dona Sofia, não posso fazer isso. Quero meu dinheiro agora — disse Marcos. Espalmou as mãos sobre o balcão.

— Entendo. Já pensou em receber de outro jeito? — sugeriu ela, baixando um pouco a blusinha.

Minha Nossa Senhora!

— Quero apenas o dinheiro, dona Sofia. Só isso. E em notas de cem, se possível.

— Humm — ela resmungou, coçando os pelos grossos e brancos do queixo. — O que acha de trezentos agora e uma coisa que vale muito mais no lugar dos outros quinhentos? Uma troca ?

Marcos olhou para cima, para os lados, para todos os lados. Não havia nada naquela espelunca que fosse capaz de desejar. Era só um monte de esquisitices e ideias desagradáveis. Mesmo assim, fez um adendo à contraproposta — e trezentos era melhor que nada, e bem melhor que os cem que deveria ter cobrado pelo serviço.

— Olha só, dona Sofia… Eu vou aceitar, mas tenho uma condição.

Sofia estalou a dentadura e estendeu os trezentos mangos para ele: — Pode pedir, fio.

— Se eu não encontrar nada que eu queira, ou se esse tal presente não me interessar, a senhora me paga o dobro dos quinhentos que faltam daqui a quatro meses. Milão no total.

Sofia sorriu mostrando novas rugas.

— Mocinho… Todo mundo quer o que eu vou oferecer pra você. Conheço gente que venderia a alma por isso. Você vai gostar, sim, garanto que vai.

Marcos não se animou, mas seguiu Sofia até os fundos da loja. Atanásio trocou de lugar com ela, ficando outra vez com o posto de vendedor.

Quanto mais entravam na loja, mais horrores tingiam as paredes. Cabeças de animais, vidros de conserva com fetos humanos. Um casal de urubus, empalhados com as asas abertas, chamou a atenção de Marcos. O mesmo aconteceu com o que havia embaixo deles; outro balcão de vidro com ervas em pequenas colmeias de madeira — deviam ser os tais ingredientes para bruxaria. Também havia livros mofados, estatuetas malignas. A loja era um túnel do terror.

Alguns metros antes do fim do corredor chegaram a duas interseções que formavam uma encruzilhada. Na verdade, formavam mais que isso, e Marcos veria uma cruz invertida se pudesse olhar a loja de alguma altura, algo que não faria. Tudo o que via ali, no plano onde estava, era uma pequena estátua no braço esquerdo da cruz, que foi para onde Sofia o levou. Do outro lado, somente um esqueleto, daqueles usados em aulas de ciências. Provavelmente a coisa mais bonita daquela latrina.

— Essa aqui é a Ciganinha — disse Sofia, já perto da estatueta. Ela se aproximou com muita reverência, parecia ter muito respeito por aquela coisinha de gesso. Ou quem sabe fosse medo.

— E o que isso aí vai fazer por mim? — Marcos perguntou, notando a estátua em um relance e devolvendo a atenção a Sofia.

— Cuidado como fala, rapaz. Uma moça bonita não gosta de ser subestimada.

Depois de bufar um bocado, ele prestou mais atenção à estatueta. Para dizer a verdade, era uma peça bem esquisita, principalmente os olhos. Eles pareciam segui-lo, por mais estranho ou impossível que parecesse. Marcos testou a hipótese duas vezes, se afastando para a direita e retornando em seguida.

Se tivesse que arriscar, daria quase um metro para a estátua. A Ciganinha ficava em um balcão suspenso, de mármore branco, enterrado na parede. Estava iluminada por uma luz vermelha, parecida com a da Santa Morte do começo da loja. Marcos também notou que suas oferendas eram diferentes. Algumas moedas que pareciam ser de ouro e outras que não pagariam um pão francês se empilhavam dentro de um potinho de vidro. Ao lado, havia uma garrafa de rum pela metade, e um prato cheio de papeizinhos dobrados ou enrolados.

— O que são esses papéis?

— Pedidos. A Ciganinha costuma atendê-los.

O prato branco com os papeizinhos era todo decorado com pontos de interrogação azuis. Era bonito e agourento ao mesmo tempo. Todos aqueles pedidos… O padre que catequizou Marcos costumava dizer que um pedido é um pedacinho de uma alma crente.

— E essa é a minha parte no pagamento? Porque, se for me dar essa estátua, prefiro voltar daqui a quatro meses pra pegar o resto.

— Não, não… Sua parte é boa, mas ninguém sai da minha loja com essa estátua. Vivo ou morto — Sofia completou e o encarou, suspendendo a sobrancelha esquerda. Ela falava sério. — Mas pode ficar tranquilo, moço, eu já falei que você vai receber mais do que vale seu serviço. Provavelmente o que vai ganhar vale mais que nós dois juntos.

— Está na minha hora, dona Sofia. Vamos agilizar por aqui?

— Muito bem, senhor apressadinho. A partir de agora, faz tudo o que eu mandar.

Marcos não gostou, mas concordou. Tinha lido em algum lugar que doidos varridos não gostam de ser contrariados. A velha começou com as instruções.

— Junte as mãos como se fosse rezar, mas não reze. Só repete o que eu disser. E ajoelha quando eu me ajoelhar — ordenou. Foi chegando mais perto da estátua e terminou se abaixando, com uma facilidade que contrastava com suas rugas.

Marcos ficou onde estava, gastando o sapato contra o chão e tomado por um pensamento singelo. Puta que pariu… Não acredito nisso.

Mas por que não? A escolha, afinal, era embolsar uma miséria ou arriscar o dobro e salvar dois meses de despesas com Randy. Talvez não ouvisse os delírios de uma cigana velha para salvar a própria bunda, mas por seu filho? Marcos iria até o Inferno por causa dele.

Sentindo-se um completo idiota, ele foi até o altar e dobrou os joelhos, ao lado de Sofia.

Ante sua obediência, ela respirou profundamente, por três vezes, e disse: — Minha Santa Ciganinha.

Depois de uma cotovelada, Marcos repetiu ao seu lado: — Minha Santa Ciganinha .

— Sei das maldades que fizeram com você. Sei do sangue que encheu seu corpo de dor. Santa Ciganinha, estou aqui pra pedir o que não mereço. Escute as palavras da velha língua. Zac, suáp, condjá. Zac, suáp, condjá.

Marcos continuou repetindo, e a cada palavra estranha, sentia alterações em seu corpo. Suas orelhas queimavam, seus dentes se encontravam sem seu comando. Ele teve uma ereção dolorida e pulsante, como se ganhasse um presente oral ali mesmo, com calça e tudo. Seus olhos reviraram, seu cérebro implorou para que aquilo acabasse. Pensou ter atingido um orgasmo quando disse a última parte da oração. Ao seu lado, Sofia parecia enfraquecida, na mesma proporção que ele ficou mais forte. Algo mágico acontecia naquele braço esquerdo da cruz.

— Agora, levanta — ela disse. — Você não vai escrever um bilhete como os outros fizeram. Quero que cochiche um desejo no ouvido esquerdo da Ciganinha. Qualquer um que seu coração realmente queira. Repita o mesmo desejo por três vezes. Depois, você sai por onde entrou, sem falar uma palavra comigo. Se fizer direito, a Ciganinha vai atender — concluiu Sofia. Seus olhos estavam úmidos e vermelhos. As mãos velhas enterradas entre os seios murchos.

Marcos se levantou, chegou perto do ouvido da estatueta e pediu o que queria. Ao terminar as palavras, estava entorpecido pelo cheiro da Ciganinha. Emergia dela um perfume quente e adocicado. Sentiu vontade de profaná-la, de destruir aquela vagina de gesso escondida sob o vestido. Sua consciência o apunhalou por isso, mas Marcos terminou o que fora combinado. Cochichou seu desejo todas as três vezes. Seu corpo ficou arrepiado, o mundo girou por alguns segundos. E ainda rodava quando ele saiu daquela loucura. Os olhos da Ciganinha o seguiram de novo, entretanto, pareciam diferentes agora… Mais vivos e felizes. Lacrimosos. A sensação ruim continuou até a metade da loja, alguma culpa. Se tivesse acabado de cuspir em uma imagem de Cristo, estaria menos incomodado. Droga, Marcos se sentia cuspindo no próprio Deus!

Ele percorreu todo o caminho e não olhou para trás. Tropeçou nas peças que entulhavam cada canto da loja, sua única parada foi para recolher suas ferramentas. Transpirando horrores, entrou no 147 e decidiu que voltaria o mais depressa possível para casa, nada de oficina. Naquela tarde, o melhor seria encarar a patrulha da banha e evitar a solidão. Inventaria uma boa desculpa para não precisar dar amor a ela e tudo ficaria bem até o dia seguinte. Mas antes… — Marcos olhou para os pingos que desciam pelo toldo vermelho da loja. Teria que enfrentar a chuva que voltava a cair.

Gente maluca. Até daqui a quatro meses, pensou convicto, reorganizando sua mente para que qualquer fato ocorrido na loja tivesse uma explicação lógica.

A volta para casa seria mais rápida. O baixinho e sua trupe de empregados da prefeitura já deviam ter terminado a maquiagem da rua que o impedira mais cedo. O asfalto fino resultante duraria algumas semanas. Com sorte e poucos caminhões, alguns meses. Mas ninguém falaria sobre o serviço porco, não com as pessoas certas.

Marcos tinha razão, mas depois do trecho reformado de asfalto, uma chuva torrencial começou a castigar sua vista cansada. Não bastasse a mecânica confortável do 147, ele ainda precisava dividir o tempo entre dirigir e esfregar o para-brisa, que não parava de embaçar. Já eram anos encarando aquele vidro nojento, fios, componentes xing-ling e a tela fria dos PC s. As telas atuais têm algum cuidado com os olhos, mas nas telas onde Marcos se criou, o derretimento da retina era praxe. Ele precisava de óculos há anos. E não que se recusasse a usá-los, Marcos só não tinha dinheiro para as lentes. A medicação anticonvulsiva de Randy custava caro e era muito mais importante que um par de vidros grossos. Talvez devesse ter pedido os malditos óculos para a Ciganinha. Não enxergava quase nada com a chuva acertando o 147 de jeito.

Passavam quarenta minutos dos vinte que normalmente Marcos gastaria quando o Fiat chegou em casa, pouco depois de Marcos engolir uma coxinha comprada no boteco do Raul, que ficava na esquina. Desligou o motor, desceu e saiu correndo da chuva, deixando as ferramentas atrás do banco do motorista. Com toda aquela água, acabaria estragando alguma coisa se tentasse guardar tudo na garagem-escritório a dois quarteirões dali. E a sorte definitivamente não estava ao seu lado.