Ultra Carnem
Capítulo 22
A pensão Dolores ficava perto, a dois quarteirões da igreja. Nôa só conseguiu convencer a dona — também chamada Dolores — a deixá-lo entrar depois de mostrar um cartão do padre Justino. Mesmo assim, ela pediu pagamento adiantado.
Após tomar seu banho, fazer a barba, ganhar alguma dignidade com roupas limpas e comer um pouco, Nôa estava de volta às ruas de Acácias. Tomou um segundo ônibus e, graças à sua nova aparência, passou praticamente despercebido. A única pessoa a falar com ele — além do cobrador do ônibus — foi uma menininha de cabelos crespos e cheios de personalidade. Ela perguntou por que Nôa estava triste. Ele sacudiu seus cabelos, sorriu para a senhora que acompanhava a criança e disse que não era nada. Não era verdade. Nôa estava cabisbaixo porque recebera uma mensagem de Liza. Ela disse que estava indo para casa da mãe, que ficaria duas semanas em São Paulo e que, quando voltasse, não queria sentir nem o cheiro de Nôa no apartamento. Ele a conhecia o suficiente para acreditar que era verdade. Uma vez, em 2013, Liza disse que se Nôa saísse com seus amigos derrotados para encher a cara, ela manteria as pernas fechadas por uma semana. O castigo durou o mês de setembro inteiro.
O percurso no primeiro ônibus demorou pouco mais de vinte minutos. Depois, Nôa tomou um segundo, que o levou para as portas da empresa chamada Concor Diagnoses — a tal empresa que mantinha Acácias no mapa —, para em seguida partir em direção à casa de recuperação e repouso citada pelo padre Justino. O caminho até lá era mais bonito que o restante da cidade conhecida por Nôa até então. Arborizado, sinuoso, o ar era leve e fresco. Nôa aproveitou para abrir a janela e respirar aquele ar puro.
Depois de outras duas paradas do ônibus, avistou um casarão cercado por altos alambrados. Atrás das cercas, havia um jardim, com caminhos de tijolos entre eles e, aos fundos, dois conjuntos de habitações. Duas pessoas estavam no jardim, sentadas em bancos. Elas eram observadas por um enfermeiro. O lugar não parecia ruim, visto que era mantido com dinheiro público. Nôa puxou a cordinha, desceu do ônibus e se despediu do único homem que o acompanhava nos assentos. O velho de chapéu-panamá não respondeu.
Os alambrados eram divididos por um grande portão de ferro, cheio de entalhes coloniais. Nôa procurou por uma campainha ou interfone, mas o enfermeiro que estava nos jardins acionou outra pessoa com o rádio que trazia na cintura assim que notou o rapaz. Nôa espalmou a mão direita e agradeceu. Em dois minutos, uma enfermeira chegou perto do portão de entrada.
— Pois não? — perguntou.
— Oi, boa tarde. — Sua mãe sempre dizia que cumprimentar com decência era meio caminho andado. — Vim visitar um hóspede da clínica. Quem me passou o endereço foi o padre Justino, da igreja de São Matias. O nome do paciente é…
— João Paulo Portas — a mulher disse, baixando o pescoço e o encarando por sobre os pequenos óculos quadrados.
Nôa arregalou os olhos. Ela explicou:
— Ele é o único paciente que chegou aqui através do padre Justino. O padre me ligou agora há pouco, disse que viria alguém procurar pelo Jota. É assim que chamamos ele. Uma letra foi uma das poucas coisas que o coitado conseguiu antes de decidir ficar mudo para sempre.
— Posso vê-lo? — Nôa perguntou.
A enfermeira respondeu apertando uma tecla em um controle remoto. Logo, um dos portões se abriu e Nôa passou por ele. Precisou acelerar o passo para alcançar a enfermeira que escalava a estradinha de tijolos. Ela era baixinha, tinha pernas curtas mas andava depressa, provavelmente para deixar Nôa — e o trabalho que ele daria com aquela visita — o mais desconfortável possível. Passaram pelo primeiro paciente sem que fossem notados. Quando passaram pelo segundo, o homem começou a bater contra a própria cabeça e gritar. Nôa parou de andar por um instante.
— Não se sinta homenageado — disse a enfermeira, também parando de caminhar. — Ele faz isso o tempo todo.