Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 53 de 105

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Ultra Carnem

Parte III: O Pagamento

PARTE III

O PAGAMENTO

“Devemos pagar ou podemos nos recusar?”

MARCOS 12:15

1

Sofia não esperava muito de seu dia, como geralmente acontecia em “O ESTRANHO E O MÁGICO: PRODUTOS RAROS ”. Nada incomum para uma loja de artigos religiosos e esquisitos no centro de uma cidade metida a besta como Três Rios. Mas tudo mudou quando um Maverick negro estacionou à sua porta. Uma criança chorou do lado de fora, um vento frio percorreu a loja, a luz diminuiu com o sol coberto por uma nuvem escura. Orlando, seu gato preto, correu para dentro da loja, como se tivesse visto o Diabo lá fora. Sofia esfregou seus braços e fez uma oração silenciosa para a estatueta às suas costas. Santa Morte , uma das poucas santas que merecia sua fé.

Na calçada, alguém abria as portas do carro. Sofia deixou o balcão e foi até o meio do corredor, a fim de ver quem se interessava por seus produtos.

O primeiro a entrar foi um homem negro, alto, que usava o terno mais elegante que ela vira na vida. Ele também era bonito, embora ela jamais fosse admitir. O homem cruzou seu olhar com o dela, colocou três pacotes em cima de um dos balcões de vidro e, sem dizer nada, voltou de onde veio. Em seu lugar apareceu um rapaz jovem. Usava botas, jeans claro e uma jaqueta de couro. O coração velho de Sofia não demorou a alertá-la que havia algo de errado com aquele homem.

Ele também trazia um embrulho. Colocou o pacote ao lado dos outros três deixados pelo homem negro. Em seguida, perguntou: — Sabe quem eu sou? — Tirou os óculos escuros e deixou que Sofia apreciasse seus olhos.

— Não estamos abertos para negócios — ela disse. — Não hoje.

— São presentes, Sofia. Objetos que pertenceram a Wladimir Lester. Tenho certeza de que está familiarizada com o nome.

Sofia recuou um passo. Teria recuado mais se não houvesse outro balcão de vidro atrás dela. Se já não desconfiasse de sua identidade maldita, também teria se perguntado como o estranho sabia o seu nome. Na noite passada, cartas disseram que ele viria. As cartas de uma cigana velha nunca se enganam.

— Wladimir está morto. Deus quis assim e eu não O reprovo.

O rapaz sorriu, mas sua contrariedade era tão perceptível quando o cheiro que deixava seu corpo.

— Vou deixar as peças com você. Considere uma herança.

O homem negro estava de volta, trazia uma mochila encardida com ele. O rapaz mais jovem tomou-a para si e a colocou sobre o balcão.

— Aqui dentro tem algo que foi roubado das suas mãos. Tenha mais cuidado da próxima vez. Quanto ao que trouxemos, é seu dever e seu direito.

— Eu não quero acordo nenhum com você e a sua laia.

— Considere um adiantamento, velha. Ou um presente, se preferir. Pelos préstimos do seu tio-avô.