Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 56 de 105

Páginas do PDF

Ultra Carnem

Capítulo 4

Quando Marcos engatou a ré a fim de estacionar o carro na rua Carneiro Justo e olhou para alguns pedestres que transitavam pelo calçamento, pensou: Estou na Índia… Em seguida, em um esforço terrível para um dia quente como aquele, terminou de estacionar o Fiat e voltou a conferir o endereço. Infelizmente era ali mesmo: rua Carneiro Justo, número 71. À sua direita, havia uma loja ridiculamente pequena. Na entrada, um toldo vermelho e desbotado fazia sombra sobre portas abertas. Um pouco acima do toldo, uma plaquinha vermelha sinalizava: “O ESTRANHO E O MÁGICO: PRODUTOS RAROS ”.

Nem pensar em um ar-condicionado. A única sorte até ali foi conseguir estacionar o carro bem em frente à loja. Com o suor escorrendo em bicas, Marcos parou mal pra caramba, todo torto. Mas era algo que não o faria dar outra partida no carro — naquele bairro, as multas deviam ter saído de cena na época do governo Collor. Bairro perigoso; dava pra ver. Gente nervosa, carros velhos, crianças com peso adulto nos olhos. O ABC basicão dos subúrbios.

Antes de descer, Marcos precisou de algum tempo dentro do carro para apanhar suas ferramentas. O calor úmido tentava jogá-lo para fora. Naquele pedaço da cidade, já tinha chovido o suficiente. Os poucos carros na rua estavam molhados e embaçados por dentro. Agora o sol se vingava.

Com a caixa de ferramentas em mãos, Marcos abriu a porta barulhenta do Fiat e botou o pé esquerdo para fora.

— Puta merda!

O pé estava engolfado em uma poça d’água que escondia um buraco enorme. Sua canela gritou na hora em que levou um corte.

Puto da vida, Marcos ignorou o ferimento e continuou seu caminho. A raiva tem dessas coisas boas: anestesia. Agora o sapato de couro parecia um sapo, coaxando a cada pisada. Em segundos, a meia fina e molhada começou a assar os pés contra o couro do calçado. Em uma situação normal, o dia dificilmente conseguiria ficar pior. Mas difícil não era impossível se tratando daquele lugar — e se tratando de Marcos Cantão. Ele respirou fundo, passou as mãos sobre os cabelos finos e atravessou a porta.