Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 67 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 15

Marcos não fazia ideia de como ossos humanos eram duros. As orelhas, ele fatiou fácil — o pouco que sobrou, ficou parecendo tirinhas de bacon. Ninguém diria que aquilo eram orelhas. Já os dedos… Quase fatiou os próprios até perceber que a melhor maneira não era fatiá-los, e sim, descascá-los. Marcos fez isso e por último cuidou da peça de carne maior; que se parecia muito com um pedaço de fígado. Recendia a ferro aquela porcaria marrom. Mas foi fácil de fatiar. Fez muita sujeira, mas foi fácil.

Terminado o trabalho mais difícil, Marcos voltou para dar uma última olhada na geladeira. Nervoso como estava — e como não estaria? — a probabilidade de ter esquecido algum respingo de sangue na parte de dentro era bem alta. E ninguém gostaria que Carol abrisse aquela merda e encontrasse sangue, não é mesmo?

Não acredito, pensou e perdeu novamente a cor do rosto.

Marcos não encontrou respingos no branco imaculado da geladeira, mas havia algo bem pior escondido nos fundos do congelador. Ele apanhou o embrulho que usava o mesmo papel pardo do anterior, e levou direto ao banheiro. Fechou a porta e desembrulhou a peça, esperando que a criatividade daquele bastardo o fizesse finalmente devolver o almoço.

— Uma tripa?

Marcos não conhecia conscientemente nada de anatomia. Não podia discernir um pedaço de intestino de um pênis de cavalo, então podia supor que fosse qualquer coisa. Ele só confirmou realmente o que era quando começou a fatiar a coisa.

— Ahhh! Deus!

Depois de deslizar a faca contra a peça, um cheiro terrível tomou conta do universo. Nada no mundo fede tanto quanto um intestino cheio, ainda mais um humano. A nojeira estava cuidadosamente amarrada, como uma linguiça. Tão bem embrulhada que podia ser um lanche para aquele maluco. Mas comer merda? Do que esse cara é feito?

Marcos conteve os acessos de vômito e só terminou a “operação carne moída” dez minutos depois. Atirou os restos na privada e, antes de puxar a descarga, urinou por cima da mistura. Estava orgulhoso com seu feito, tinha conseguido se livrar das porcarias e nada melhor que um pouco de urina para celebrar uma batalha vencida.

Sua cabeça queimava. No dia seguinte, daria uma prensa em Carol. Não muito, porque se ela fosse inocente, não seria bom que se tornasse uma rival. E ela tinha o endereço do tal site, do conhecido da polícia.

Além de Carol, sua mente também pensava em Odeta. O que alguém como o Açougueiro faria com ela? Ou pior: com Randy? Não, antes que ele os tocasse, Marcos descobriria sua identidade e o que ele queria com seu frigobar.

Acelerado como estava, não demorou nada para que sua cabeça chegasse a outro lugar.

Algum chantagista.

Alguém daquela loja esquisita, é claro.

O safado me viu e resolveu me apavorar .

Mas depois de três meses? E qual o interesse daquela gente pé na cova em prejudicá-lo? Dinheiro? E como souberam que ele estava bem de vida? Quando visitou O ESTRANHO E O MÁGICO , meses antes, ninguém nesse mundo trocaria de vida com ele. Não, não fazia sentido.

Marcos ainda pensava na lojinha bizarra — e em dezenas de possibilidades mais indigestas — quando seu celular o trouxe de volta. O iPhone trotou pela mesa, Marcos o apanhou na corrida. Assim que reconheceu a chamada, precisou respirar bem fundo.

— Pronto?

— Fala, meu gênio da informática!

— Opa, como vai, seu Orlando? Sobre os relatórios pendentes, eu…

— Fica frio, Marcão. Não gastei meus bônus para falar dessas porcarias. Liguei porque você está em outra agora.

— Como assim? — Olhou para o frigobar. — Está me dispensando?

— Sem essa, Marcão! Acha mesmo que eu queimaria você, pulando de felicidade como um cabrito? Marcos, meu grande amigo, agora você é supervisor regional! Supervisor, tá me ouvindo? Vai ter que viajar mais, comprar uns ternos novos…

— Supervisor? Poxa. Eu nem sei o que dizer, seu Orlando.

— Não diga nada. Nós é que estamos em débito. Junto com o seu zero a mais no holerite, veio o da equipe inteira. O homem quer te conhecer, Marcão! O chefão. Ele disse que precisa saber quem é o cara que está levantando esse defunto.

— Como é? — Marcos colou o telefone na orelha, teria doído se toda sua atenção não estivesse voltada para a conversa dentro do aparelho.

— É! O defunto! Nossa região, pombas! O Centro-Oeste de São Paulo era um defunto pesado aqui na empresa, um pé tamanho 46 no saco do pessoal lá de cima. Marcão… Eu não quero inflar o seu ego ainda mais, mas desde que você chegou, faturamos duas vezes o que a porcaria do pessoal do Sul consegue. Mas faz o seguinte, tira o resto do dia de folga. Quero você tranquilo. Aqueles relatórios, deixa pra semana que vem; faz sem pressa. Ou manda a idiota da minha sobrinha fazer pra você.

— Tudo bem, Orlando… Estou meio sem palavras aqui.

— Vai pra casa, Marcão. Descanse, tome umas cervejas. Amanhã, a gente conversa melhor.

— Farei isso.

— E não esquece de mandar um abraço pra Odeta e pro seu menino.

— Obrigado — Marcos disse com um fio de voz. Depois desligou o celular, bem devagar.

Outra promoção. Sucesso. Glórias.

E claro… assassinatos.