Ultra Carnem
Capítulo 19
Atrás de outra porta daquele mesmo corredor, no dormitório, Giordano se esforçava para controlar as crianças. Depois da saída de Ágata, seguida por Suzana, elas ficaram malucas. Mas entre as mais agitadas, três garotos mantinham-se isolados e conversando apenas entre si. O padre não gostou disso e os chamou de volta para que acompanhassem a leitura da Bíblia. Buba e seus comparsas não gostavam de ouvir sermões antes de dormir, mas se aquela era a única garantia que o Tinhoso não perturbasse seu sono, que assim fosse feito.
— Então por que Jesus não volta logo e liberta todo mundo do sofrimento? Por que o inimigo pode fazer o que ele quer com as pessoas? — perguntou Rita, uma das meninas mais caladas do orfanato. Quando falava, ela dizia que queria ser freira, igual à madre Suzana.
— Não é bem assim — explicou Giordano. — Você já ouviu falar em livre-arbítrio?
A menina acenou que não, mesmo tendo ouvido a palavra uma ou duas vezes. Ela não queria parecer uma espertalhona. Outros meninos que se interessaram chegaram mais perto de Giordano, se amontoando no chão e nas camas mais próximas. O padre estava sentado na cama que pertencia a Wladimir Lester — a com o colchão mais fino.
— O Senhor nos dá a liberdade de escolher nosso caminho. Ele não impõe que sejamos bons ou ruins, ricos ou pobres, vagabundos ou nobres. Deus nos dá a escolha.
— Servir ao Diabo não deveria ser uma escolha — Rita disse. Sacudiu a cabeça para os lados, embalando as tranças que pendiam das laterais da cabeça.
— Imaginem uma disputa muito antiga. Quando os oponentes têm verdadeiro interesse em saber quem é o melhor, eles tentam não trapacear, certo? E Deus de maneira nenhuma é um trapaceiro.
— E o outro? — Buba se interessou.
— Esse eu não conheço. Não sei ou desejo saber de seus planos. Mas pelo que vejo desde que tinha o tamanho de vocês, o outro sempre está tentando um caminho mais curto de vencer a disputa. — Giordano olhou para a porta tão logo terminou a frase. Os meninos fizeram o mesmo. Alguns riram.
— Lester? Meu Deus do Céu, o que aconteceu com você? — perguntou, levantando da cama. Tentou caminhar até a porta, mas o amontoado de crianças o impediu. — Onde está a madre Suzana e Ágata? Elas tentaram encontrá-lo para rezarmos juntos.
— Estão no meu quarto, elas querem falar com você, Buba. A madre mandou chamar você e seus dois amigos.
O menino gordo arregalou os olhos e os espremeu em seguida. Japonês cochichou alguma coisa nos ouvidos de Vermelho.
— Peça para que venham até aqui. Já é tarde, filho. E você precisa de um banho, um de água em vez da tinta que está no seu rosto. Amanhã teremos um dia cheio com os preparativos. Por que está todo pintado desse jeito?
Lester estava com um pedaço de papel na mão. Uns cinco centímetros. Estava rasgado e perfurado.
— A madre sabe o que aconteceu. É por isso que ela quer falar com eles.
Não demorou um segundo para que Lester, pintado como um rascunho, acabasse com o sono frágil das crianças. Uma delas ficou de pé sobre a cama e começou a pular. “Vai ter confusão! Vai ter confusão!”, cantarolou. Outra perto dela, o menino com os pés torcidos, a incentivava batendo palmas. Logo havia três ou quatro fazendo o mesmo, enquanto Giordano, ilhado entre Rita, Lúcia e outras duas crianças, decidia o que fazer.
— Que seja rápido. E vocês, parem já com essa balbúrdia! — disse mais alto. A menina que saltava sobre a cama voltou a sentar-se, levou uma cotovelada de um amiguinho e ficou calada. — Leonardo, Ernesto e Emílio, vão ver o que a madre quer com vocês. Diga a ela que tem cinco minutos, nem um segundo a mais! E você, Lester, por favor, tome um banho. Está parecendo um selvagem.
O menino cigano esperou que os três atravessassem e fechou a porta. Sacou uma chave que geralmente ficava com Suzana e a girou na fechadura.
— Ei! Por que trancou eles? — Japonês perguntou.
Ele não respondeu. E com a agitação das crianças lá dentro, o padre nem chegou a ouvir a porta. Lester adiantou-se em frente aos outros três e, em silêncio, seguiu pelo corredor. Do quarto oito, para onde parecia caminhar, uma luz mortiça escapava. O resto do corredor estava escuro; as velas das arandelas, apagadas. O quarteto chegava à metade do caminho quando Vermelho perguntou: — Ele vai ferrar a gente, não vai? Ele contou tudo para a madre. Que merda, Buba, a gente vai ficar de castigo e perder a festa.
— Cala a boca — Buba disse. — Vamos ver o que ela quer sem piorar tudo no caminho. Somos três contra um, ela não vai acreditar nele. O nojento é um cigano, ciganos mentem o tempo inteiro. E também… — O garoto sacou o canivete que estava sempre dentro de sua cueca, na parte de trás. Acabou o derrubando enquanto preparava a lâmina. O som alto fez com que Lester olhasse para trás. Enquanto estendia a mão para pegar o canivete de volta, Buba aproveitou para dizer: — Ele sabe que vai custar caro se fizer gracinhas.
Lester já estava à frente do quarto. Ele não entrou até que os outros três o alcançassem. Do lado de dentro, um cheiro ácido e apodrecido tentava escapar pelo vão da porta. Dos três, Buba era o único que permanecia com o rosto descarregado. Ele era bom em assustar os outros, em causar o medo que mantinha os oponentes no cabresto. Claro que aquele cigano de merda tentava fazer a mesma coisa. Talvez com a ajuda da freira.
— O que tem do lado de dentro? — ele perguntou a Lester.
— É! — Vermelho se encheu de coragem. — E que cheiro é esse?
— Eu não quero entrar aí, tem coisa errada! — disse Japonês.
Os três não moveram seus pés e suas pernas.
Se havia um veneno mais poderoso que a estricnina usada para matar ratos, seu nome era curiosidade. O elemento circulava pelas veias dos três, tomava corações para si, controlava as terminações nervosas para que a fuga fosse evitada. Além disso, nenhum deles, mesmo o japonês acovardado que se mantinha atrás dos outros, deixaria que Lester os vencesse pelo medo. Ele era apenas um cigano, certo? Não passava de uma criança esquisita, rejeitada por sua própria gente.
Em vez de ficar onde estava, Buba foi até Lester. Passou por Vermelho e Japonês com o canivete na mão direita, que tremia um pouco, propulsada pelo braço suado.
— Você primeiro. Eu não estou vendo a freira ou Ágata. Seu fedido nojento, eu juro por Deus que se estiver aprontando alguma, furo você com isso — Ele estocou o canivete à frente.
— Elas estão dentro do quarto. E por que você está com essa faca na mão? Tá com medo de mim, Buba? Ou delas? Das mulheres?
— Não tenho medo de nada — disse ele, indo para trás de Lester. Espetou suas costas, provando que não estava brincando. — Vai andando.
— Ele tá esquisito — Japonês disse a Vermelho. — Viu o rosto? Todo sujo de tinta? E aquele negócio na camisa dele? Parece sangue, sangue!
— Cala essa boca antes que o Buba use o canivete em você.
Os dois esperaram Lester abrir a porta e seguiram Buba para dentro do quarto.