Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 72 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 20

 

Logo que entraram em acordo — ou quase, já que Marcos não estava muito disposto a acionar a polícia —, Carol deixou a sala. Ele tomou metade de um alprazolam e ligou o computador, para ver as notícias sobre seu mais novo amigo.

A primeira página do jornal mais sensacionalista da cidade trazia um novo ataque. Mas a polícia desconfiava que esse novo crime não fosse obra do Açougueiro e sim de um imitador. Marcos não tinha essa esperança… Era ação do original mesmo. Talvez a polícia estivesse dizendo aquilo para disfarçar alguma nova pista ou estivesse mesmo confusa, mas o modo como os corpos foram estripados, a sofisticação das mortes, tudo apontava para o bom e velho Açougueiro. Marcos duvidava muito que alguém da polícia soubesse dos detalhes que ele sabia. Quem teria visto o que ele viu? Não que gostasse ou se orgulhasse disso, é claro.

A foto da reportagem tomou toda a atenção de Marcos. Era uma garota.

Essa você escolheu bem , pensou.

Havia um corpo no chão. Um lençol cobria cabeça, todo encharcado de sangue. Na reportagem, diziam que o tal imitador tinha inovado e enfiado uma abóbora entre as pernas da vítima. O tórax teria sido aberto e também recheado com iguarias .

Involuntariamente, Marcos tocou a tela. Ao mesmo tempo, o telefone do escritório tocou, testando de novo seu coração. Apesar da vontade de arremessar o aparelho longe, ele resistiu. O número era do mercadinho do Nakura. Ele não os via há mais de uma semana, então… foda-se . Não iria mesmo atender àquela chamada. Só que o aparelho insistiu, morreu e tornou a berrar por outras duas vezes. Carol também ignorava o telefone. Talvez estivesse trocando o absorvente… Como todo homem que tem uma mulher menstruada perto dele, Marcos pensava que qualquer evento relacionado a Carol naquele dia seria culpa das “regras”.

Entretanto, a luz da chamada fixa parou de piscar.

Ah não, Carol. Não me chame, não me chame, por favor, não me chame.

Toc-toc…

— Marcos?

— Tá aberta, Carol.

— É o seu Nakura.

— E o que o Nacional Kid quer comigo? Não passamos a conta do mercado pro Ney?

— Passamos, mas ele quer falar com você .

Marcos bufou.

— Que seja. Manda ele pra mim de uma vez.

Era hora de respirar fundo, afrouxar o colarinho da camisa e encarar a invenção preferida de Satã. Marcos segurou o plástico frio e o empurrou contra a orelha. Resgatou a velha falsidade que o colocou acima do subúrbio e atendeu: — Como vão as coisas, seu Nakura?

— Nada bom!

— Problemas com o computador?

— Não computador!

— O que é, então? A nova máquina de cartões?

— Non!

— Seu Nakura, se o senhor não me disser o que quer, não posso ajudá-lo — disse, destilando gotas infinitesimais de paciência. O aparelho do outro lado fez algum barulho, trocando de mãos.

— Alô? Seu Marcos? Desculpe o jeito de Yoshiro. Ele está muito nervoso.

— Quem fala?

— É Berenice, mulher dele.

— Ô, dona Berenice, desculpe não reconhecer sua voz. O que posso fazer por vocês? Seu Nakura não falou muita coisa e…

— A Catarina está sumida desde ontem — disse ela, a voz com aquele carregado sotaque baiano que nunca a deixaria.

— Não imagino onde ela esteja, dona Berenice. Por que ligaram para mim?

Ela passou a falar mais baixo depois disso.

— Eu não nasci ontem, seu Marcos. Sei do que anda acontecendo entre você e a minha filha. Apesar de ela negar, conheço a menina que botei no mundo. Sabe onde ela está ou não?

Fodido, fodido e meio. Não adiantaria negar…

— Não faço ideia, dona Berenice. Ela simplesmente sumiu? Vocês não tiveram nenhuma discussão ou algo do tipo? Sei lá, algum encontro às escondidas… Ela é jovem e…

— Não. Ela saiu como sai todos os dias. Pegou a bolsa cara que o senhor deu pra ela e saiu.

— Tentou o celular?

— Umas vinte vezes. Cai direto na caixa postal. Ou a bateria está descarregada, ou ela desligou.

— Também não está na casa de nenhum familiar de vocês? Avós?

— Nós não temos parentes por aqui, seu Marcos… Ainda falta tentar duas ou três amigas, mas se o senhor souber de alguma coisa, pelo amor de Deus, me liga.

— Claro que sim. E a senhora faz o mesmo.

— E outra coisa, seu Marcos. Quanto a essa putaria de vocês dois, não vou mais aceitar isso.

Marcos ficou com o barulho do telefone apitando em sua orelha, demorando alguns segundos até desligá-lo. Sua cabeça estava mais preocupada com Berenice sabendo de tudo do que propriamente com o sumiço de Cat. Se Nakura soubesse daquilo, arrancaria seu pênis, prepararia um sushi e depois faria uma visita a Odeta para dividir o prato. Com certeza a única coisa que prendia a língua de Berenice era o medo da reação do japa. Mas por quanto tempo?

Abstraído como estava, voltou à tela do notebook. Só então conjecturou algo que o encheu de terror.

Será que…

Não.

Desencana, Marcão.

Mesmo assim, olhou mais de perto. Também puxou o zoom da tela, para ter certeza. Não levou dez segundos para levar a mão ao telefone. Dessa vez, Carol atendeu mais depressa (depois de cinco toques, apesar de estar a centímetros do aparelho).

— Manda pra mim o tal site que tem fotos da polícia. O do seu amigo. Preciso tirar uma dúvida.

— Fotos do Açougueiro? Quer que eu vá até aí e digite o endereço?

— Não, Carol. Pode mandar pela intranet mesmo. Eu espero. É coisa à toa, encanação idiota minha.

— Tô mandando.

Dez minutos tensos depois e o “txt” apareceu na tela. E é claro que o tal endereço pertencia a um dos esqueletos escondidos da Deep Web. Sem problemas para ele. Marcos tinha o programa certo para acessar as profundezas. Mesmo sem acreditar, antes de seguir em frente, ele fez uma prece silenciosa, para que não tivesse certo em suas suposições.

Já na tela principal, uma surpresa. Em vez da seta do mouse, Marcos via uma pequena mão descarnada. Após clicar no link, a mesma mão foi golpeada, mantendo o pequeno punhal que a atingiu em seu lugar. Em seguida, um grito agonizante de mulher obrigou Marcos a baixar o volume do notebook. Então, uma cascata de links bizarros surgiu na tela negra à sua frente. Marcos leu dois ou três deles e não resistiu, antes de buscar o que procurava exploraria um pouco mais daquele site.

As opções variavam entre o bizarro e o doentio. Marcos escolheu um vídeo chamado: “Quero ver roubar de novo”. Clicou no link e um som metálico iniciou a reprodução.

Um homem baixinho apareceu na tela. Parecia pertencer a alguma tribo ou coisa assim — ele usava uma tanga de couro, sem sapatos e sem camisa. Estava em um descampado, no meio de uma floresta. Ao seu lado, um homem bem alto com um facão na mão direita o obrigava a colocar o braço sobre um tronco de madeira. O baixinho já não tinha uma das mãos. Ele coloca e depois tira a mão, duas ou três vezes. E chora. Dava para sentir a ansiedade do homenzinho através da tela. O horror de perder a única mão que lhe restava no fio de um facão. O homem do facão então grita de novo e convence o rapazinho a deixar o braço quieto (deve ter ameaçado matar alguém da família dele, castrá-lo, sabe-se lá). O baixinho faz o que ele manda e vira o rosto, o facão sobe e ganha um impulso para baixo.

Minha nossa.

Não era um truque. Marcos reconheceria uma fraude a dez metros da tela.

O facão desce e arranca a mão do homenzinho. Ele sai pulando e gritando, feito um macaco mordido, espalhando sangue pela terra seca. O homem levanta o facão sobre a cabeça e sorri. Aparece mais gente na cena, comemorando.

Marcos deixou aquela atrocidade quando outro homenzinho e uma criança foram arrastados para a mesma clareira. Pensou em seu amigo Açougueiro. Depois de sonhar com ele, decapitações perderam toda a graça.

Continuou estudando alguns links e se decidiu por dois ou três com conteúdos sexuais — que quase sempre eram fakes. Mas eles conseguiram ser ainda piores. Ele assistiu dois estupros, descritos como reais, antes de clicar onde precisava. O último dos vídeos, vindo da Malásia, mostrava uma garota amarrada sendo sodomizada por seis homens. O sangue escorrendo por suas pernas brancas. Perto do fim, eles a violentaram com um pedaço de madeira enorme; encerraram com outro facão. Marcos acompanhou sem piscar; apavorado e, admitisse ou não, excitado. Mas não era uma boa hora para ereções.

O link em que precisava clicar estava logo abaixo, e apesar de pertencer à obscura Deep Web, insistia em alertar cardíacos, hipertensos ou pessoas impressionáveis a não o acessarem. Marcos mal leu o aviso, estava contaminado pelo terror. Depois de bisbilhotar pelos links anteriores, ver as fotos do Açougueiro tornou-se bem mais que uma obrigação desgastante. Marcos queria ver aquilo. Esperava mais daquele horror e nutria o apetite que, no fundo, todo o humano tem. Curiosidade, saber do que somos capazes, comprovar se somos mesmo os dedos do Demônio na Terra.

Marcos clicou sobre o botão “Crimes Locais” e, depois de um novo grito da máquina — dessa vez mais longo que os anteriores —, outra página se abriu. Eles tinham criado uma sessão inteira só para o Açougueiro. Uma homenagem aos seus dotes artísticos.

Doentes . Primeira observação de Marcos.

A segunda foi: A polícia está escondendo muita coisa…

Pelas fotos (obtidas do arquivo da própria polícia), o Açougueiro matara bem mais que as supostas três vítimas anunciadas na imprensa. Aquela que Marcos vira no jornal on-line atribuída a um imitador era a décima quinta.

Suas mãos estavam suadas, a cabeça doía um pouco. Em minutos, o nervosismo fez com que Marcos retomasse uma antiga amizade, com alguém guardado em sua escrivaninha. Sempre tinha um maço de cigarros por lá, à espera do fim do mundo. Ele acendeu o Marlboro e o tragou profundamente. Depois da tosse e da tontura — foram meses sem fumar —, o mundo se acalmou e ele conseguiu ver o restante das imagens. Como sabia, o Açougueiro decapitava todas as suas vítimas. A novidade é que de algumas cabeças, ele também arrancava os olhos. Um dos corpos fotografados passou por isso e também teve os braços e as pernas arrancados, invertidos e recosturados. Em outro, o Açougueiro implantou braços extras, compondo uma deusa indiana ensanguentada. Um dos piores retratos mostrava uma cabeça costurada entre as virilhas de uma vítima.

Aquilo passara dos limites. Marcos não conseguia mais ver as imagens. Mas a verdade é que tampouco conseguia parar de olhar. Porque gostava. A moralidade ordenava que desligasse depressa aquela obscenidade, que parasse de se comportar como um monstro ainda pior que o assassino — o Açougueiro pelo menos não devia ficar admirando as fotos do próprio trabalho em um site vagabundo. Enfim, a consciência falou mais alto e Marcos deixou os outros corpos para ver o único capaz de espantar um demônio de seus ombros. Ele precisava descobrir um detalhe naquele último corpo encontrado.

Depois de outras três fotos, encontrou a mesma imagem que tinha visto no jornal sangrento da cidade. “Sem cortes e em alta definição”, dizia o link que a protegia. Marcos clicou e quando a tela se abriu, seu corpo ameaçou escorrer pela cadeira. Foi como cair de um sonho, um salto no ar. Sua coluna imediatamente travou com uma punção dolorida que se alastrou castigando todo o seu ser.

Seu desgraçado! , pensou e apertou a mão direita sobre a mesa.

Três estrelinhas no ombro esquerdo e uma sentença de morte para sua amante adolescente. Era ela. E Cat estava estripada como uma vaca no curtume. Todo aquele sangue… Mal dava para ver as malditas estrelinhas, mas Marcos sabia exatamente onde procurá-la, três estrelinhas subindo e descendo, subindo e descendo… Bombeando sua pelve. Não dava para esquecer.

O açougueiro havia destrinchado Cat.

Ela estava com o tórax aberto, edemaciada, principalmente no rosto. Mas o que a foto da imprensa nobre não mostrara era a quantidade de coisas dentro dela. O site não pecou nisso.

Ele a usou como lata de lixo, santo Deus!

O tórax era mantido separado por uma trava de volante. Lá dentro, havia papel, latas de cerveja e guimbas de cigarros. O Açougueiro até defecou dentro dela.

A cabeça e o estômago de Marcos o forçavam a parar, mas ele resistia.

Como disseram no jornal, havia uma abóbora inserida em sua vagina. A distensão era enorme, a pele esticada e partida em todo o contorno. O corpo estava sem a cabeça. Esta foi posicionada sobre uma pequena mesa de centro, com duas canetas fincadas nos olhos, como se a cabeça de Cat fosse um tinteiro. Marcos tapou a própria boca com mais força. Se ao menos restasse alguma dúvida sobre a identidade da garota morta… Era Cat mesmo. Em carnes dilaceradas e ossos.

Deixou definitivamente a tela depois de três batidas rápidas à porta.

— Marcos? Conseguiu acessar?

Por sorte, ele havia recostado a porta antes de explorar o site. Assim teve tempo para fechar tudo e devolver a tela à intranet insípida da empresa que comandava.

— Sim. E você podia se lembrar de como se usa o telefone, né?

— Posso entrar?

— Não é uma boa hora, Carol. — Não com todo aquele vômito tentando sair.

— Tô entrando.

Marcos secou o suor da testa e engoliu de volta o que tentava sair do estômago.

— Encontrou o que procurava?

— Acho que sim.

— Ei, olha pra mim. Tô preocupada com você.

— O que quer dizer?

— Não sei se devia tocar nesse assunto…

— Qual assunto, Carol? Agora que começou, termina. Ou minha cara de espanto é tão engraçada pra você?

Carol ameaçou voltar de onde veio.

— Ei, não é culpa sua — ele disse. — Eu ando nervoso, Carol… E sem tempo pra joguinhos. Se você tem alguma coisa para me dizer, por favor, faça isso logo.

— Tá bom… — ela disse lentamente, como uma criança. — É sobre a história da lojinha esquisita que você me contou.

— Da velha cigana tarada?

— É, mas não é com a velha que eu me preocupo. O problema é quando você diz que sua vida mudou completamente depois daquilo. Nada é de graça nesse mundo, Marcos. E Deus nunca faz favores. Isso é coisa do inimigo .

— Credo, Carol. Tá parecendo crente!

— Não sou crente, mas não ponho minha alma à venda.

— Perdeu o juízo, garota? Eu não vendi nada. A velha é que trocou favores comigo para não ficar na pindaíba. Fui até muito honesto com ela, podia muito bem ter voltado lá e dito que o pedido não funcionou, e que eu queria o dobro, como foi combinado. Ainda é uma ideia danada de boa, não acha?

— Ir até lá não me parece má ideia. Eu vou com você, se quiser.

Marcos a encarou e deu um tempo a si mesmo. As imagens de Cat ainda serpenteando em cada pedacinho inteligente de seu cérebro.

— Acha mesmo possível que a velha tenha alguma participação nessa história toda?

— Bom… Que não seja ela . Mas em uma loja de malucos como você disse que era aquele lugar, quem garante que não pegaram seu endereço? Esse negócio de magia negra passa de um para o outro, às vezes. Se eu fosse você, dava uma conferida.

— Passa de um para o outro?

— É, Marcos. Feito uma doença — explicou. Chegou mais perto e ocupou a cadeira, afastando-a da mesa. Em seguida, deu uma cruzada de pernas à la Sharon Stone. Marcos olhou para a fenda, esquecendo que era dia de chuva.

— Pode parar, Marcos. Você já viu sangue demais por hoje.

— Carol, isso é jeito de falar?

— TPM , benzinho, TPM — ela disse.