Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 25 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 5

Não foi uma noite fácil. Quando Nôa releu o suficiente das páginas em seu poder para confirmar onde estava se metendo, um novo cliente ocupou o quarto ao lado. Os gemidos começaram dez minutos depois. Em outros dois minutos, a porta se abriu novamente para um terceiro visitante. Então, os gritos começaram. Pelo que Nôa conseguiu entender eram dois homens e uma mulher. Meia hora depois de se iniciar o ménage , ele levantou da cama e colou os ouvidos na parede, pensando que o sexo tinha ficado de lado. No entanto, a garota berrava, urrava, pedia clemência, mas ao mesmo tempo, implorava que colocassem mais fundo. A coisa toda durou mais de uma hora e quando finalmente terminaram, Nôa ouviu um disparo do lado de fora. Pensou em rojões, mas quando foi até a janela viu duas viaturas de polícia rasgando à frente do hotel. Ele só conseguiu dormir depois de tomar um comprimido de Valium que afanou de Liza antes de sair de casa.

O relógio do celular marcava sete e quinze da manhã quando acordou. Não havia nenhuma nova chamada perdida, o que deixava claro o humor de Liza ao ler seu bilhete de despedida.

Pelo brilho dentro do quarto, o tempo continuava cinzento. Nôa bocejou e esticou os pés para fora da cama, deu uma boa olhada antes de tocar o chão — para não pisotear os ratos e as baratas que porventura estivessem fazendo hora extra no expediente diurno. Sentiu a bexiga reclamando um pouco. Estava de calça jeans, então tudo o que Nôa precisou fazer antes de deixar o quarto foi vestir a camiseta preta e devolver o livro à mochila da Adidas. Também precisou devolver a cama ao lugar original.

Banheiros coletivos não costumam cheirar bem, mas o banheiro do October era praticamente o esgoto. Havia merda na parede, o cesto vazado cuspia papéis manchados para fora, o chão estava melecado de urina. Nôa quase teve pena de arrancar seu tímido amigo de dentro das calças e obrigá-lo a usar o vaso. Mais aliviado, usou a pia para escovar os dentes. Deixou um monte d’água correr antes de usar a torneira, para que todo o encardido grosso da louça fosse embora. Ainda assim, o metal tinha um cheiro estranho, como o de água parada. Umedeceu os cabelos e passou os dedos sobre os fios, usou a câmera do celular como espelho. Quando deixou o terceiro andar, estava mais certo do seu propósito — ele não arriscaria passar mais de uma semana em um lugar daqueles, muito menos o resto da vida.

— Você precisa fazer o acerto agora, regras da gerência — disse o mesmo cara simpático da noite anterior. Nôa parou em frente ao balcão e vasculhou os bolsos. Tirou uma nota de vinte e entregou ao homem.

— Vai ficar mais um dia? — ele perguntou.

— Ainda não sei. Tenho que resolver uns lances por aí. Se quiser alugar para outra pessoa, tudo bem.

O homem riu e balançou a cabeça, fazendo a fumaça do cigarro se agitar um pouco. Depois aumentou o volume da TV como se Nôa tivesse deixado de existir.

— Bom dia para você também — Nôa disse, pouco antes de cruzar a porta.

Os mendigos da noite anterior estavam do outro lado da rua, onde havia um coreto abandonado. Pelo chão, um monte de jornais, cobertores velhos e papelões. Os homens estavam enterrados neles.