Ultra Carnem
Capítulo 15
Uma coisa Lester sabia do mundo adulto: se você quer alguma coisa, precisa dar algo em troca. Assim, ele concordou em pintar, juntamente com seus quadros, algumas obras sacras que Dom Giordano poderia vender para angariar fundos para a sua casa de órfãos.
Lester passava a maior parte do tempo com os garotos, mas após as quatro da tarde, ele se recolhia ao quarto transformado em ateliê; só o deixava quando o jantar estava servido. O quarto agora tinha dois cavaletes, três conjuntos de tintas e pincéis, e alguns aparados — cinzéis, espátulas e lixas de diversos tamanhos e grãos — para que ele pudesse esculpir sua única e detestável obra em gesso. Lester dedicava muita atenção a ela. Suzana, apesar de odiar olhar para a peça, às vezes o fazia. Não era raro que seu corpo se arrepiasse; olhar para aquela coisa horrenda era bem próximo de encarar uma mulher em miniatura.
A data era 7 de outubro e todos estavam empenhados para a quermesse em homenagem a Nossa Senhora. Giordano quase não parava no orfanato, e Suzana usava a força e a disposição das crianças para ajudá-la na cozinha. O dia nasceu ensolarado, Deus parecia estar feliz com os homens de novo. Foi nesse dia que Buba-Baleia e seus comparsas se lembraram do pequeno cigano com mais afinco. Não que eles o tivessem esquecido completamente, mas com toda a atenção que o padre dava a Lester, não era exatamente fácil pegá-lo de surpresa.
Conversas sempre enchiam o dormitório à noite. Ágata, que se tornara a amiga mais chegada do menino, foi pressionada várias vezes a contar o que tanto ele fazia no quarto. Ela disse a verdade de que não sabia de nada, mas mesmo assim sua boneca preferida — uma réplica de bebê chamada Branquinha — teve os dois olhos e o pezinho esquerdo arrancados. Contudo, ela se manteve fiel a Lester, conseguindo na maior parte do tempo não pressioná-lo a contar seus segredos.
Naquele mesmo dia, logo depois de o sol brilhante se pôr no horizonte, Lester estava com os olhos revirados. Seu corpo padecia em transpirações, os pincéis se moviam freneticamente, como se ele não precisasse pensar para comandá-los. A camisa um pouco desgrenhada e aberta no colarinho estava toda respingada de tinta vermelha. A Ciganinha — quase finalizada — o observava no ponto mais alto do quarto. Lester conseguiu convencer o padre a deixá-lo colocar a estatueta em um oratório, dividindo o espaço com São Miguel e o arcanjo Gabriel. Mas eles não estavam mais naquele lugar. Lester os colocara embaixo da cama, dentro de uma caixa de sapatos.
Já pintava há algum tempo quando sua concentração exagerada foi tomada por batidas rudes à porta. Quando ouviu o ruído, o menino não tinha certeza de quanto tempo estava sendo chamado. Deixou o pincel trêmulo sobre o aparador do cavalete e caminhou até a porta.
Era Japonês. Quando o viu, Lester diminuiu a abertura e colocou o pé escorando o rodapé da porta, para que o garoto não forçasse a entrada.
— O que você quer?
— Nós pegamos a sua amiga. Ela está com o Buba no banheiro dos meninos. Se não me deixar entrar, ele vai ficar nervoso.
— Não tem nada para você aqui dentro. E podem fazer o que quiserem com ela, eu não ligo.
— Pensei que diria isso. Mas olha só, o Buba ainda tem aquele desenho da sua mãe. E ele disse que vai rasgar.
Lester relaxou um pouco as mãos. Os pés continuaram onde estavam.
— Por que não me deixam em paz? Eu não fiz nada pra vocês.
— Eu só quero dar uma olhada, tá certo? Ninguém nunca ganhou um quarto ou os favores do padre. Não é justo que um fedido como você chegue aqui e mude nossas regras. E se não tem nada de errado, por que não posso ver?
Lester lançou os olhos para trás, primeiro para a estátua suspensa, depois para o quadro que estava produzindo.
— Você me devolve o retrato? Consegue fazer o gordo me devolver?
Ernesto sorriu com seus dentes japoneses e levantou a mão direita espalmada.
— Juro pela minha mãe.
Foram necessários mais alguns segundos até que Lester se decidisse.
— Só uma olhada, depois você vai embora. E quero que solte a Ágata e me devolva o retrato.
A porta cedeu um pouco. Lester continuou na abertura, sem abri-la totalmente. Então seu corpo foi arremessado para o meio do quarto.
— Anda! Fecha essa porcaria antes que chegue alguém — disse Buba, se desencostando da parede externa e entrando no quarto. Atrás dele, Vermelho fez o mesmo. Eles não paravam de rir.