Ultra Carnem
Capítulo 16
Três Rios ficava encravada no interior de São Paulo, no centro-oeste do estado, onde é mais quente e mais seco quase o ano todo — a despeito da chuva e do frio que atingiam a região perto do mês de agosto. Próximo a Três Rios, havia meia dúzia de cidades sem expressão alguma. Uma delas, provavelmente a única a aparecer nos jornais desde a sua fundação, se chamava Acácias. A cidadezinha só se fez notar cerca de quatro anos atrás, em um suposto caso de exorcismo. O que Nôa encontrou no rodapé do diário de Giordano não tinha o nome da cidade, mas tinha o nome da única igreja de São Matias da região. Nôa conhecia o santo graças à sua mãe, que fazia questão de entupir suas veias de catolicismo.
Perto das sete da manhã, depois de uma noite de estudos, pesadelos e dúvidas, Nôa estava a um quilômetro do trevo de Três Rios, contando com a sorte quase impossível de conseguir uma carona. Teria pedido o carro de Liza, se Liza não fosse Liza, mas, na atual situação, tudo o que não queria era uma mulher rejeitada e furiosa em seu encalço.
O chão ainda umedecido pelo sereno da noite distraía o calor que logo lamberia seu corpo. Para ajudá-lo ainda mais, o tráfego estava perto de desaparecer. Desde que Nôa chegara, meia hora atrás, sua melhor opção de carona foi um caminhão que transportava porcos. O motorista chegou a parar, inclusive, mas sem saber quando seria seu próximo banho, Nôa decidiu declinar da oferta. Algo de que começava a se arrepender. O céu rugia, prometendo mais água.
— Dane-se… — Nôa disse. Atirou uma pedra sobre o asfalto, observando-a girar a esmo, sem destino definido, como seu lançador.
A estrada era longa, os carros poucos, mas sair daquele bairro fedido era uma boa notícia. E quanto mais longe ficasse de Liza, do mosteiro e da loja onde “conseguiu” os seus primeiros manuscritos, melhor.
— Finalmente — Nôa resmungou e deixou o pneu encardido que usava como assento. Colocou a mochila nas costas e usou seu dedo polegar. O Fusion desacelerou um pouco, e Nôa felicitou sua própria inteligência. Viajaria com estilo agora. Nada de sujeira, pobreza ou porcos. O carro estava bem perto de Nôa quando o cara no banco do carona atirou uma lata de Coca-Cola vazia em sua direção.
— Vagabundo de merda! Volta para onde veio! — o rapaz gritou. Antes que Nôa conseguisse erguer o dedo da educação, o idiota fez isso. Nôa repetiu o sinal mesmo assim.
— Filho da puta! — gritou.
O motorista acionou a luz de freio em seguida. Nôa olhou ao redor. Se tivesse mexido com o cara errado, poderia contar os dentes no asfalto antes de conseguir qualquer ajuda, a próxima marca de civilização ficava a dezenas de metros atrás de onde estava agora, em um posto de gasolina onde o deixariam apanhar do mesmo jeito.
Nôa girou o corpo se preparando para correr. Dessa vez teve sorte. O carro queimou os pneus e desapareceu na distância.
Se o jeito era esperar, melhor seria fazer isso de boca fechada.
Sem nada melhor para fazer, Nôa voltou ao pneu e sacou algumas páginas da mochila. Já havia lido cada uma delas pelo menos três vezes, mas ainda se perguntava se o nome de uma igreja escrito em uma nota de rodapé do diário de um padre morto tinha alguma importância. Provavelmente não, e Nôa teria aceitado isso se não fosse aquela velha história de exorcismo. Deus e o Diabo deviam ter algum interesse naquela bosta de cidade, não fosse isso, por qual motivo travariam outra guerrinha bem ali? Poderiam ter escolhido São Paulo, Nova York, Londres, até a porra de Tóquio ou o estado bizarro do Vaticano, mas não… Preferiram uma cidadezinha que beirava a insignificância.
Nôa não tinha dormido muito nos últimos dias, e suas pernas sabiam disso. Elas pareciam frágeis como gravetos. Ele também tinha emagrecido um bocado desde que começou a pensar no menino cigano e desprezar sua própria habilidade de pintar quadros. Parecia que estava sendo sugado de dentro para fora. De vida, de vontade, até de esperanças. O relacionamento em ruínas, a família que praticamente não sabia dele. Nôa era como aquela estrada: um grande nada que não daria em lugar nenhum. Pensava nisso quando foi surpreendido pelo ronco selvagem de um motor.
Tornou a se levantar do banco improvisado, guardou os papéis na mochila com alguma pressa e esticou seu dedo outra vez. O carro preto continuou seu caminho. Nôa logo reconheceu o modelo. Um Maverick. Rebaixado, vidros escurecidos, o rádio tocava AC /DC deixando um pouco do som escapar. O motorista passou por Nôa e só então pisou no freio e esticou o braço pelo vidro. Fez sinal para que ele se aproximasse. Nôa obedeceu com medo de ser surpreendido por uma arma apontada para ele. Mavericks não são carros de vovôs e pais de família, eles são a mais pura expressão automobilística da catástrofe.
— Ah, cara… Isso é algum tipo de piada? — Nôa perguntou. — Desde quando você tá na minha cola?
— Meu amigo… Se pretende arranjar uma carona desse jeito, vai mofar nesse asfalto — disse o motorista. Era Lúcio, o mesmo rapaz que Nôa encontrou na padaria xexelenta perto de onde estava hospedado. A mesma jaqueta, o mesmo cheiro, o sorriso de vendedor ainda estampado no rosto. — Tá indo para onde?
— Acácias.
— Aquele chiqueiro? Vai perder seu tempo naquela cidade. Acácias parou de evoluir nos anos 1920, e não tinha nem começado. Eu estou indo até Nova Enoque, tenho negócios por lá. Mas se quiser insistir em Acácias, deixo você na entrada.
Nôa não perdeu muito tempo estudando sua sorte. Enquanto conversava com o cara de jaqueta, alguns pingos de chuva caíram do céu. Também ouviu alguns trovões, dizendo que era só o começo.
— Ei, cara. Eu não mordo. Relaxa. Só estou de passagem e gosto de uma boa conversa. Mas eu já disse isso a você.
Nôa deu a volta no carro e tocou a maçaneta. Não a puxou imediatamente. Pensava outra vez naquele caminhão de porcos. O cheiro era ruim, mas os porcos não ficam puxando conversa com estranhos. Sua decisão final só veio mesmo quando Bon Scott gritou alguma coisa no rádio. Nenhum cuzão ouve AC /DC antes das oito da manhã.