Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 93 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 16

O tempo desacelerou tão logo Lucrécia deu o primeiro passo. A pele do rosto foi a primeira a notar a ausência de tato, algo que logo tomou o corpo todo. Os ouvidos captavam sons distorcidos, embaralhados e desacelerados. Gemidos, uma turbina de avião, uma matilha de cães disputando território. De todos os sentidos, somente o olfato tornou-se mais apurado. Lucrécia captou um perfume adocicado, depois cheiro de parafina queimada e, por fim, sentiu um odor tão intenso que a fuligem se alojou em sua garganta. Não conseguia respirar direito. Sobre as pálpebras, escuridão e luz se alternavam. Os olhos se movimentavam a esmo, lutando contra a vontade que o cérebro tinha de abri-los. Onde estaria agora? No que era descrito como limbo?

Desdenhando de sua ansiedade, Aim seguia em frente, a passos curtos e comedidos. Nas poucas vezes que as mãos de Lucrécia ameaçaram escapar de seus ombros, ele contrariou a vontade de abandoná-la e diminuiu ainda mais sua marcha. A mulher era um brinquedo de Lúcifer e não poderia ser tocada enquanto ele não ordenasse.

Depois de dez passos, um vento gelado a lembrou que estava viva. Os lábios de Lucrécia perceberam depressa e trincaram em alguns pontos. Os ossos doíam; sobretudo a fratura mal consolidada da perna. O ferimento queimava por dentro, doía tanto que ela precisou parar duas vezes. O vento gelado persistiu até que a mulher o vencesse com as próprias pernas. Em seguida, lufadas de outro vento, esse quente e cheio de poeira, a atingiram. Mesmo sem abrir os olhos, Lucrécia reconheceu o fedor da superfície. Também reconheceu o som de um veículo que passou por eles deixando um rastro de poeira. Aim deu um passo mais longo e a deixou desamparada. Ficou olhando para aquela mulher rodopiando sobre si mesma com os braços estendidos, mostrando toda sua incapacidade. Ainda se perguntava o que Lúcifer havia visto nela.

— Aim? Aim, você está aí?

— Pode abrir os olhos, mulher. Estamos em segurança.