Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 37 de 105

Páginas do PDF

Ultra Carnem

Capítulo 17

Enquanto Nôa se agarrava à sua mochila, o homem ao volante testava o acelerador. A estrada era reta na maior parte do caminho, mas na segunda curva Nôa não aguentou e disse: — Cara, dá pra ir mais devagar? Eu só tenho essa vida, sabe?

Lúcio não diminuiu a velocidade ao limite da rodovia, mas pelo menos manteve em cento e vinte.

— Qual é? Um pouco de emoção nunca matou ninguém. Quantos anos você tem, cara? Oitenta?

— Menos de trinta. E pretendo chegar aos trinta.

Lúcio riu. Em seguida, acendeu um cigarro, tirando as duas mãos do volante para fazer isso. Nôa conteve a vontade de assumir a direção antes que os dois morressem.

— Sabe — continuou o rapaz —, essa coisa de uma vida só é uma tremenda bobagem. Conheci muita gente, Nôa, gente que sabe o que diz, e nenhuma delas acredita que o caixão seja o ponto final da história. E você não precisa acreditar em mim ou em todas elas, basta pensar um pouco. Ninguém perderia tanto tempo com um animal feito o homem se não tivesse planos maiores.

Nôa deu de ombros, tentando fazer com que o rapaz mantivesse a concentração na estrada. O volume do rádio estava mais baixo, graças ao bom Deus, o que diminuía um pouco a aceleração do Mavéco .

— Mas aí, o que vai ver em Acácias? Namorada do colégio? Seus pais?

— Tenho assuntos pendentes. Não é nada de mais, eu só preciso ver uma pessoa e voltar para casa.

Lúcio tragou o cigarro e bateu as cinzas na janela. Nôa não pôde conter a vontade de olhar para o cigarro. Não fumava desde que começou com Liza, mas não se lembrava de ter sentido tanta vontade antes. Talvez tivesse pedido um trago se Lúcio não tivesse dito: — Sabe o que me deixa mais curioso? Quando nos encontramos pela primeira vez, você estava exatamente como agora. Quer dizer, tirando a cerveja em suas mãos. Essa mesma mochila estava na frente do seu peito e você se agarrava a ela como se fosse um filho doente. Não quer mesmo me dizer o que tem aí dentro? De repente eu posso ajudá-lo. E nós já somos amigos, não é?

Antes que ele pudesse responder, uma nova curva sugou sua respiração. O Maverick deslizou para a esquerda, mas, com um puxão mais forte no volante, Lúcio o trouxe de volta.

— Puta merda, cara! Desse jeito vai matar a gente!

— Relaxa, Nôa. Eu não arriscaria a sua vida — disse Lúcio e tocou o joelho esquerdo do outro, um toque mais longo. Nôa se afastou, seguindo a programação básica de seu DNA heterossexual. Girou o pescoço na direção do rapaz.

— Eu não sou um estuprador, tá certo? E se te deixa mais tranquilo, eu nem gosto de homens. Não para fazer, você sabe… aquilo. Mas falávamos sobre o que tem escondido na mochila. Não quer mesmo dividir esse fardo? E, por favor, aquela história de seu avô morrendo em um incêndio não deu para engolir de jeito nenhum.

Outra curva na estrada se aproximava. Nôa abraçou a mochila mais forte e também se agarrou à tiara de couro logo acima do vidro — que seu pai costumava chamar de “puta que pariu” — e juntou os joelhos. Contrariando a expectativa de Nôa, Lúcio não abusou do acelerador. Fez a curva como uma velhinha. Nôa sentiu-se encorajado em contar um pouco sobre a mochila.

— Tenho um punhado de sonhos aqui dentro — disse ele, batendo sobre a mochila. — Eu diria que é o meu futuro, mas você não entenderia. Nem minha mulher entendeu.

— Elas não sabem de nada. Quer saber o que alguém esperto me disse uma vez sobre os sonhos?

Nôa fez que sim com a cabeça.

— Sonhos são milagres que escaparam do céu. Vou dizer uma coisa, meu amigo, alguém que não sonha, que não abusa da sorte e não se arrisca, não deveria estar vivo. Eu mesmo já arrumei todo tipo de confusão por causa de um sonho. Mas não vou dizer qual foi, também tenho meus segredos. Só que quando eu realizá-lo, meu maior sonho, ah, Nôa… Eu vou virar o mundo do avesso.

Enfim uma placa surgiu na estrada, dizia que Acácias estava a menos de dois quilômetros. Nôa resolveu esticar um pouco o assunto. Se continuasse falando, quem sabe Lúcio maneirasse no acelerador?

— Conhece bem Acácias? — perguntou.

— Estive por lá há alguns anos. Não é grande coisa. A cidade inteira gira em torno de uma fábrica. Pessoas nascem e morrem, seus filhos herdam o emprego de merda dos pais e perpetuam a desgraça da família. A melhor coisa da cidade é o Starlight, um puteiro. Meninas novas e sem muitas doenças. É nisso que está interessado?

— Você tem um sério problema com mulheres.

Lúcio sorriu com o lado direito do rosto, de um jeito meio esquisito.

— As mulheres são a melhor invenção dos céus. Mas você já sabe disso, hã? Me diz, Nôa, o que você quer saber sobre Acácias?

— Preciso chegar a uma igreja. Não tenho o endereço comigo, mas é a igreja de São Matias. Não deve ter muitas delas por aqui.

— Matias… Você sabia que ele foi o apóstolo escolhido para substituir o sacana do Judas?

— Não curto muito esse negócio de religião.

— Ninguém gosta delas até precisar de um favor. Mas eu falava sobre São Matias. Imagina só, Nôa, de repente você está por aí, pregando a porra do evangelho de um maluco da Galileia, e mais de repente ainda, alguém tem a ideia de colocar você no time. Cara! E no lugar do maior filho da puta da Bíblia! Deve ter sido uma viagem e tanto. Não é à toa que o homem virou santo.

— Conhece a igreja ou não? — Nôa reforçou. Já conseguia ver a entrada da cidade. Um trevo mixuruca, com letras de concreto meio desbotadas e um símbolo do Rotary Club logo ao lado. Lúcio começou a diminuir a velocidade.

— Eu não gosto de igrejas — respondeu.

Duzentos metros depois, o carro diminuiu a velocidade até que parasse de vez. O motor continuou ligado.

— O lugar que procura fica no centro. Eu levaria você até lá, mas estou em cima da hora. Quando conheci a igreja, ela estava caindo aos pedaços. Você vai entrar por essa avenida — apontou o que havia logo depois do trevo — e andar cerca de um quilômetro. Quando chegar a um posto de gasolina com a estátua de um índio, não tem como errar, você vira para a esquerda. Vai andar mais uns quinhentos metros. A igreja de São Matias fica depois da igreja matriz. E eu não falaria com o pessoal daqui sobre o segredo que você tem aí. O povo daqui é ranzinza, detesta forasteiros. Ainda mais alguém que traz sonhos na mochila.

— Tá certo — Nôa disse e levou a mão à maçaneta. — Valeu pela carona.

Desceu do carro. Já ia seguindo seu caminho quando Lúcio o chamou de volta.

— Lembra daquela cerveja? — perguntou a ele.

— Claro.

— Você ainda me deve.

Lúcio engatilhou os dedos como um revólver e fez um clique estalado com a boca. Em seguida, o Maverick voltou a emborrachar o asfalto. Nôa acenou, agradecendo pelo carro desaparecer tão rápido. Olhou para o céu que parecia mais calmo e seco e tomou a longa avenida que precisaria vencer. Lúcio era meio estranho, mas sua carona foi uma surpresa boa — as pernas de Nôa pareciam novas em folha.