Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 49 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 29

Estava escuro do lado de dentro do alçapão, mas o local não era desabitado. Quando Nôa suspendeu a portinhola e iluminou algo de metal preso à parede, dois morcegos voaram para cima dele. O primeiro se enroscou nos cabelos de Liza, e ela gritou outra vez, fazendo mais barulho que o necessário. Nôa resolveu a situação golpeando o morcego com o martelo — passando bem perto da cabeça de Liza. O animal ficou alguns segundos atordoado no chão e voltou a voar.

— Que merda, Nôa! Esses bichos têm doenças! Que nojo!

O rapaz torceu os lábios e tomou a lanterna de Liza. Iluminou a parte de baixo, cautelosamente mantendo o corpo distante da saída, esperando por novos morcegos. Eles não apareceram. Tudo o que Nôa notou foi um cheiro terrível de mofo.

— Se tem alguma coisa aí embaixo, já apodreceu faz tempo — disse Liza.

Havia uma escada apoiada no concreto do alçapão. Nôa pediu que Liza o ajudasse mais uma vez enquanto descia. Ela fez isso, apesar da vontade quase sufocante de acompanhá-lo. Aquele desgraçado ainda fazia seu coração bater mais forte. Nôa tinha seus defeitos, mas no fundo era só um homem atormentado pelo próprio fracasso. Quando ela o conheceu, Nôa era diferente. Tinha sonhos tangíveis e acreditava que sua arte era boa o bastante para ganhar o mundo. Liza também acreditava nisso. Os quadros de Nôa tinham vida própria, a marca de sua ambição, os traços determinados de quem abusa da própria personalidade. No entanto, como um veneno que se torna inócuo, seu talento foi se diluindo com o tempo. Ele teve bloqueios de criatividade que não conseguiu superar e, aos poucos, aceitou que, sem a ajuda do impossível, não chegaria a lugar algum. Agora o velho Nôa estava de volta. O brilho dos olhos, a não desistência, a ambição sufocante que arrastava todos para dentro de seu próprio mundo. Liza não confessaria, mas continuava apaixonada por ele.

— Tudo bem aí? — ela perguntou.

— Fica de olho, Liza. Pode chegar alguém.

Nôa não disse outras palavras quando chegou ao fundo. Ele nem poderia. Estava imerso no que seus olhos alcançavam, toda sua atenção estava no foco de luz que varria cada centímetro de escuridão para longe. O lugar onde estava não era somente um alçapão apertado, era todo um porão. Havia uma mesa de madeira no centro da estrutura. Nôa notou um livro aberto sobre ela e se aproximou. Assoprou para que a poeira acumulada fosse embora. Havia um trecho grifado no papel:

— Maldito serás ao entrares, e maldito serás ao saíres.

Sem se importar com que acabara de ler, fechou o livro e continuou sua expedição. Deu dois passos e acabou enroscado em uma enorme teia de aranha. Elas estavam por toda parte; descendo do teto e se esticando pelas paredes, preenchendo cantos escurecidos com sua arte hexagonal. Nôa só não encontrou vestígios da seda sobre aquela Bíblia.

Por todo o porão, havia muito entulho recostado às paredes. Pisos, madeiramento, mármore: tudo aquilo provavelmente restara da concepção inicial da igreja. Nôa já estava ficando impaciente quando lançou a luz da lanterna sobre um armário antigo. Além de poeira, havia um embrulho sobre ele, tubular e deitado. O rapaz foi até lá, já conformado em encontrar algum santo. Colocou a lanterna deitada no armário e começou a desembrulhar o tecido.

— Santo Deus — disse ao olhar para a estatueta.

Nôa reposicionou a lanterna um pouco acima, na segunda prateleira do armário, de modo que a luz incidisse sobre ele. Afastou-se e deu uma nova olhada na peça. A pequena cigana parecia nova em folha. O vestido vermelho, os olhos brilhantes, as curvas de seu busto que tinham o exato tom da pele humana. Não somente o tom, mas também a estranha mágica que faz com que todo homem admire um seio feminino a ponto de sugá-lo.

— Nôa! Vai demorar aí?

— Não, fica de olho na entrada — ele disse. Levou a estatueta para cima da mesa onde também estava a Bíblia e a deixou em segurança.

Ele demorou mais quinze minutos procurando pelos quadros. Abriu o armário, iluminou o teto e o chão, retirou as teias de aranha que formavam cortinas em alguns pontos próximos às paredes. Encontrar a tinta, um pequeno tubinho provavelmente empapado com a poeira dos anos, seria impossível. Já estava a ponto de desistir, suando com a temperatura no porão da igreja e incomodado pelos chamados insistentes de Liza, quando tropeçou em um pedaço de corda. Não a havia visto antes, a poeira do lugar era boa em esconder coisas. Nôa se abaixou e a tomou nas mãos. Viu a longa corda se levantar do chão e levá-lo ao armário, o mesmo onde encontrou a estatueta. Nôa puxou com mais força, o armário se afastou da parede alguns centímetros. Parou de puxar quando o móvel esbarrou em uma das vigas do teto baixo. Nôa deixou a corda e correu até ele. Posicionou o feixe de luz atrás do armário, iluminando a parede.

— Muito esperto, sr. Jota. Mas a sorte está do meu lado essa noite.

Nôa recolheu os pacotes. Havia dois deles, bem menos do que esperava.

O homem doido e estropiado da clínica de repouso fez um bom trabalho. Estavam embrulhados em papel pardo e havia ainda duas camadas de plástico bolha. Nôa levou tudo até a mesa e começou a desembrulhá-los. Seu coração estava disparado. Quanto valeria um original de Wladimir Lester?

— Muito — falou em voz alta.

Sobre a mesa agora havia um monte de papel e plástico. Também uma tela que mostrava uma mulher segurando um gato, com a mesma cena se repetindo em outro quadro dentro dele, a coisa mais esquisita que Nôa já tinha visto. Talvez por esse motivo tenha demorado tanto tempo olhando para ele. Ou talvez porque os olhos da mulher o acompanhavam. O segundo quadro, e desse Nôa não gostou nada, mostrava uma cadeira que parecia um instrumento de tortura. Demorou bem pouco tempo até ele se lembrar dos diários que estavam em sua mochila. Só podia ser o tal Fazedor de Milagres. O mesmo que, segundo havia lido, deu a Lester, através de um ritual satânico, a tal tinta mágica. Porém, não encontrou sinal dela. Nôa revirou todo o armário, cada milímetro dele. Tornou a procurar pelo chão, pelas paredes, por um provável esconderijo no teto. Não havia nada. No entanto, encontrou outro quadro atrás do armário. Não estava recostado à parede como os outros, mas escondido por um fundo falso do armário — Nôa só o encontrou quando tateou a madeira da parte de trás.

Também o levou até a mesa. Os outros quadros, a estátua e a Bíblia ocupavam o espaço que ele precisava para trabalhar. Nôa jogou o livro no chão. Colocou o quadro à sua frente e respirou bem fundo, fechou os olhos e fez uma oração silenciosa aos santos ciganos que jamais conhecera — mas que deviam existir. Esfregou uma mão contra a outra para se livrar da poeira e retirou o plástico bolha e o papel pardo que envolvia o quadro como nos dois anteriores. Antes da moldura, porém, havia um tecido verde e brilhante. E também um bilhete, escrito em um papel ainda branco e bem pouco afetado pelos anos.

“Jamais olhe para este”, dizia o bilhete.

Apesar da vontade de fazer exatamente o oposto, Nôa se lembrou da conversa com João Paulo e tornou a cobrir a obra com o papel pardo. Nada que diminuísse a vontade — ela continuava forte e crescente. Nôa precisou sacudir a cabeça várias vezes para se livrar das vozes que imploravam para que ele desse uma olhada. Devia ser culpa daquele calor improvável e do oxigênio escasso, mas Nôa realmente as ouvia.

— Vou subir os quadros, Liza — disse depois de embrulhar tudo novamente.

— Não podia responder minhas perguntas? Que merda, Nôa! Estou chamando você faz dez minutos! Idiota… — resmungou.

— Sou sim. Mas um idiota muito rico.