Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 71 de 105

Páginas do PDF

Ultra Carnem

Capítulo 19

Marcos chegou bem cedo na manhã de quinta-feira. Deixou o café de Odeta de lado, acelerou pelas ruas e checou se o escritório estava seguro e limpo de novas surpresas antes de fechar a porta. Carol chegou uma hora depois, no horário de sempre, cantarolando algo de Enrique Iglesias sem se preocupar com a pronúncia. Marcos estava trancado em sua sala e, quando a ouviu, a chamou pelo telefone.

— Carolina? Estava esperando você chegar — disse quando ela decidiu atender.

— Tá mais calmo hoje? — ela perguntou. Olhava para a porta de Marcos sem a menor vontade de passar por ela, nada satisfeita com o dia anterior e em ser chamada tão cedo pelo nome sem a contração.

— Dá um pulinho na minha sala — pediu ele mesmo assim.

Carol deixou a bolsa em cima da mesa e foi até lá. Marcos abriu a porta para que ela entrasse. Antes de concordar, Carol olhou bem para ele, para sua aparência de veterano de guerra desempregado.

— Tá tudo bem com você?

— Espero que sim — ele respondeu e voltou a fechar a porta.

Naquela manhã, ele deixou o computador desligado. Marcos tinha assuntos importantes a tratar e a internet sempre roubava seu dia. Enquanto Carol se aproximava da mesa, ele caminhou até o refrigerador pequeno, sem muita certeza se queria voltar a abri-lo. Mesmo depois de conferi-lo mais cedo, precisou respirar fundo antes de puxar a porta.

Dessa vez estava vazio; ou quase. Além da vodca, uma Coca-Cola pequena esperava na porta, junto com um pedaço de chocolate mordido pela metade. Seus dois vícios preferidos. Mas claro que havia outros. Um deles esperava suas perguntas, exalando um perfume adocicado.

— Olha aqui, Marcos, se for o que anda me devendo, hoje não vai rolar.

— Não é nada disso, Carol. Senta um pouquinho.

Carol puxou a cadeira de rodinhas e deixou seu corpo deslizar sobre ela. Ficou deslizando de um lado para o outro, feito criança. Mascava um novo chiclete com a boca aberta de sempre. À frente da mesa, Marcos pigarreava, tentando encontrar um modo de perguntar a ela sobre suas encomendas. Não podia simplesmente dizer: “Ei, você conhece esse cara que anda estripando as pessoas? É seu amigo? Pede para ele parar de colocar pedaços de gente morta nas minhas coisas, por favor?”.

Precisava de tato. Carol era um campo minado. Culpadas ou não, amantes sempre são campos minados.

— Diz logo, Marcos. Tô cheia de coisa pra fazer.

— Nós estamos… Numa boa?

Foi idiota, mas foi o melhor que pôde pensar. E era um bom começo. Nada de acusações, nada de acuações , só uma pergunta de um cara casado, preocupado com a secretária gostosa (por acaso, sobrinha de seu superior) que transa com ele.

— Como assim? Você está estranho… Tá escondendo o quê, Marcos?

— Estou um pouco tenso. Só quero ter certeza de que as pessoas que eu gosto estão bem.

— E desde quando você se preocupa comigo?

— Não faz assim. Claro que eu me preocupo. Com você, com a Odeta, com o Randy. Com todo mundo.

— Por que está me dizendo isso agora, Marcos? Você sempre é tão frio…

— A vida nos deixa frio. Mas chamei você aqui por outros motivos.

Ele virou de costas e olhou para o lado de fora, por sua grande janela de vidro blindado. Porque certas coisas são impronunciáveis cara a cara. Quando se casou e teve que dizer o “sim” que o amarraria para sempre a Odeta, entendeu porque noivos ficam de lado em boa parte da cerimônia. Se tivesse que encará-la o tempo todo, provavelmente diria algo como: “Talvez; sei lá; quem sabe no ano que vem; quer mesmo fazer isso?”. Diria qualquer bobagem que o afastasse do altar. Olhos podem até não ser as janelas da alma, mas são um detector de mentiras e tanto.

— Ando preocupado com esse maníaco — disse.

— Tá falando do quê, Marcos? Que maníaco?

— O cara que anda arrancando pedaços das pessoas. Falamos sobre ele ontem, lembra?

Claro que lembra. Ela está se fazendo de besta.

— O Açougueiro?

— O próprio. O que sabe a respeito desse cara?

— Que pergunta, Marcos… Sei o que eu falei ontem. Por que isso agora? E por que você está de costas pra mim?

— Desculpe — disse, voltando-se para ela. Carol estava esticada sobre a cadeira, as mãos unidas no colo.

Marcos não tinha certeza se a causa da irritação dela eram suas perguntas ou se ela tinha mesmo algum envolvimento com aqueles presentinhos . Poderia aprofundar-se mais, mencionar detalhes, contar do suco de sangue que encontrou no frigobar. Mas isso poderia afugentá-la . Nada bom. Carol conhecia suas amantes e, porra, ela mesma era uma delas. E Carol também conhecia alguns desvios de grana da empresa. Nada que conseguissem provar, mas poderia atrasar sua carreira, ninguém gosta de merda voando no ventilador.

— Carol… Existe alguém… Veja que não estou te acusando, mas… — Ele a viu baixar os olhos. — Existe alguma chance de você conhecer esse cara? Esse Açougueiro?

Ela pareceu pensar. Ele também.

Demorou demais pra responder. Ela sabe de alguma coisa.

— Pode ser — Carol respondeu.

Pode ser?! Aquele Pode ser roubou sua respiração. Pode ser era quase uma confissão. Mais duas ou três perguntas bem colocadas e sairia com uma carta assinada da sala. O Açougueiro poderia mesmo ser a porra de um gênio maluco, mas Carol? Ela era só uma garota idiota com a bunda mais redonda da cidade, alguém que deslizaria na própria cagada antes de limpar o chão. Era só uma questão de pressioná-la agora.

— Esse cara pode ser qualquer um, Marcos. Você mesmo pode conhecê-lo. O que eu não entendo é por que me chamou na sua sala tão cedo, com todo esse ar de detetive, pra me perguntar sobre um doido varrido.

— Como sabe que ele é doido?

— Marcos! — ela gritou. — Tô com uma TPM filha da mãe, sangrando onde você costuma brincar, estou toda inchada, puta da vida de ter que trabalhar num calor desses e ainda tenho que ouvir essa porcaria toda, sem saber o motivo?

Carol estava de pé, espalmando as mãos contra a mesa de madeira.

— Agora me diz: onde pretende chegar com isso?

— Tá bom, Carol. Foi mal…

— Tá bom o quê, Marcos Cantão? Desembucha!

— O chefe aqui sou eu, Carolina.

— Vai se foder, Marcos. Ou desenrola essa língua e para de me chamar de Carolina , ou peço as contas e marco uma reunião com a Odeta!

— Ei! Não precisa chegar a esse ponto. Pelo amor de Deus, se acalme um pouco antes que tenha um derrame vaginal. Vou contar tudo, certo?

E contou mesmo. Falou sobre os presentes horríveis e de sua suspeita que ela tivesse participado daquilo. Carol pareceu entender e querer ajudá-lo. Definitivamente, ela não tinha participação nas chantagens do Açougueiro. Ela não era tão boa atriz — ou tão esperta — a ponto de enganá-lo. Quando Marcos terminou — e depois de um pouco de água para retomar o fôlego —, Carol sugeriu: — Você precisa chamar a polícia.

— Não! Sem polícia.

— Como assim? Esse cara tem acesso à sua casa, ao escritório e…

— Por isso mesmo — interrompeu Marcos. — Não percebe? Se eu abrir a boca, ele pode acabar com a gente. Pode machucar você, ou a Odeta. E o que esse animal faria com o pobrezinho do Randy?

— Sem a polícia, o que pretende fazer?

— Ainda não sei. Talvez esperar pelo próximo passo desse animal. Quem sabe ele não se esquece de mim?

Carol pensou por três ou quatro segundos antes de responder.

— Eu tenho outra ideia.

Marcos concordou em ouvi-la. Não a achava muito inteligente, mas com sorte, Carol seria daquelas pessoas que se saem bem sob pressão. E um pouco de ajuda não faria mal a ele.

— Eu — ela disse.

— Como é?

— Eu, Marcos. Euzinha . Ele conhece você, deve me conhecer também, mas não acho que esteja de olho em mim. Não vou dizer que me importo com aquele pneu recauchutado da sua esposa, mas gosto de você e do Randy. Eu posso fazer o contato com a polícia por você, entendeu? Como ele vai saber?

Marcos coçou o lóbulo da orelha esquerda.

— Talvez funcione. Mas preciso pensar sobre isso.

Carol cruzou os braços, erguendo os seios e aumentando seu poder de convencimento.

— Admita. Sou sua melhor saída, Marcos.