Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 87 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 10

Lucrécia sentia cheiro de flores. O mofo das paredes, a escuridão, os gemidos que nunca cessavam haviam ficado para trás. Não estavam mais em um corredor, mas no que parecia uma sala de conferências. O lugar era o segundo andar de alguma estrutura. Abaixo deles, Lucrécia encontrou dezenas de cadeiras vermelhas e um palco, iluminado pela luz que a cegou quando abriram a porta do primeiro nível.

— Estamos esperando alguém? — ela perguntou, quando não suportou mais ouvir a respiração pesada de Aim.

— Esse lugar é minha base de operações. Você vai passar algum tempo por aqui, para aprender a treinar Damaleds.

— Sabe, Aim, eu estou cansada de não entender metade do que você diz. Também estou cansada desse vestido brega e dessa bengala vagabunda.

— Podemos providenciar tudo, mas antes preciso falar com o chefe. Não é muito inteligente inovar no Inferno. Lá em cima, o livre-arbítrio é a lei, mas por aqui? Se quer um conselho, faça exatamente o que lhe mandam.

Lucrécia manteve a revolta dentro da garganta. Aim decidiu explicar-se.

— Um Damaled é um demônio que não nasceu demônio. Todos nós somos transformados quando perdemos as graças dos Céus, e dez por cento do Inferno, rigorosamente dez por cento, se torna Damaled. Sua função é atormentar os homens, ajudá-los a escolher o caminho descendente. Quando você começou a discutir lá em cima, impressionou todo mundo. O chefe está procurando alguém com a sua… perspicácia.

— Para trazer mais gente para cá? — perguntou Lucrécia, se apoiando no parapeito.

— Vou explicar de uma maneira bem simples. Você tem a Terra, o que existe em cima e o que existe embaixo. No fundo, tudo se divide em uma guerra entre os reinos. Estamos nos preparando para uma decisão há muito tempo. O exército de cima manda seus soldados, mas eles são arrogantes, metidos, se acham a parte mais importante da criação, e você sabe que ninguém na Terra gosta de um espertalhão. Eles são intransigentes, são uns imbecis. Nós, por outro lado, somos divertidos, espertos, e se você seguir as regras terá um pós-morte melhor do que sua antiga vida. O problema todo reside na propaganda que foi feita do chefe e da nossa gente. Pense bem, quem correria o risco de queimar para todo o sempre e ter suas tripas arrancadas do ventre noite após noite? É só isso o que falam sobre o Inferno. Eles se esquecem das orgias, das bebedeiras, das noites que passamos apreciando o melhor que a Terra tem a oferecer. Mesmo o trabalho aqui embaixo é divertido. Diga para mim, existe algo mais divertido que sacanear os outros?

Lucrécia também não respondeu a essa pergunta. Na verdade, ela tinha outra pergunta em mente, uma que jamais faria. Enquanto Aim se glorificava daquele local, Lucrécia imaginava quantos Damaleds estiveram em seu encalço. Forçando suas decisões erradas, seu desprezo pela vida, a influenciando para que aceitasse viver como uma ratazana faminta. Talvez fosse deles a culpa pelo que aconteceu entre ela e o pai tarado. A pergunta que decidiu fazer veio maquiada, mas no fundo tinha a mesma essência.

— Podemos influenciar qualquer um?

— Qualquer um que nos dê a chave para seus tormentos — Aim respondeu. — Eu caminhei sobre a Terra antes do Nazareno nascer, três séculos antes. Desde então, encontramos resistência de uma ou duas dezenas de pessoas. São o que chamam nas igrejas de santos. — Terminou fazendo uma careta. Em seguida, Lucrécia ouviu sons de passos vindos do andar de baixo e se esticou sobre o parapeito para enxergar quem se aproximava.

— Vamos — disse Aim. — Tenho ordens para que você conheça alguém.