Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 30 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 10

Dimitri e Nôa fizeram o caminho de volta sem falar muito. O padre porque sentia um pouco de vergonha de ter revelado o pedaço mais triste do antigo orfanato a alguém que não usava uma batina ou se interessava pela palavra de Deus, Nôa porque tentava se recuperar fisicamente do que o sacerdote contou a ele. Sua cabeça estava dolorida, aquele cheiro horrendo parecia confinado aos pulmões. Foi só quando voltaram à sala de Dimitri que tornaram a conversar. O rapaz suava um pouco na testa. Do frio que sentira minutos antes, não havia nem mesmo uma lembrança.

— O que mais vocês sabem sobre o menino? — Nôa perguntou tão logo o padre ocupou sua cadeira à mesa.

— Você é mais esperto que isso, sr. Nôa. Boa parte dessa pergunta já foi respondida no livro que carrega dentro da mochila.

— Ele não fala muito sobre Wladimir. Diz mais sobre o pai, como eu já contei.

— O Cigano… Seu nome verdadeiro era Juan. — disse o padre. Nôa não perguntou como o religioso sabia disso, talvez tenha lido quando folheou o livro. Tampouco se ocupou em ter curiosidade. Se tudo o que a Igreja sabe ganhasse a luz do mundo, arruinaríamos todas as religiões para em seguida construirmos outra (quem sabe melhor…). — Ele era um feiticeiro, um homem que lidava com os espíritos. O menino Lester cresceu assistindo ao pai tocar a campainha do mal; presenciou sua mãe sendo torturada com o próprio consentimento. Pode fazer uma vaga ideia de como uma criança seria influenciada crescendo em um lugar desses? Eu não tenho nada contra os ciganos, sr. Nôa, Deus sabe que não. Mas não gosto de gente que flerta com o inimigo. Não me admira que o menino tenha sido expulso da tribo e acabado aqui. Depois que seus pais morreram, ele acabou tomando os rituais de Juan para si. Pintou seus quadros e fez profecias sombrias, como deve ter lido no material que conseguiu.

— Tem algo errado, padre. O menino não morreu no incêndio. Ele deixou descendentes aqui mesmo em Três Rios. O que eu quero saber é como as autoridades nunca colocaram as mãos nele. O senhor mesmo disse que o menino foi o responsável pelo incêndio, como ele conseguiu escapar? Como conseguiu sobreviver?

Dimitri manteve o silêncio. Estudou a expressão ávida de Nôa com resguardo. Ele não desistiria. Sua pele brilhante mostrava isso, seus olhos arregalados, o modo como falava mais alto quando citava o nome de Lester.

— E o que aconteceu com os quadros? Com as obras?

— Foram vendidos — Dimitri respondeu, rápido demais. — A igreja matriz ficou com a maior parte. E o incêndio não se limitou ao dormitório. O quarto onde o menino pintava, agora o meu quarto, também foi consumido pelo fogo. Sr. Nôa, o que está feito está feito, o que foi consumido não pode ser recomposto. Se o senhor quer mesmo saber mais sobre Lester, deve conversar com seus supostos descendentes, e eu duvido piamente que eles existam. Wladimir se tornou uma mercadoria valiosa na cidade e fora dela, e o senhor deve imaginar quanto um impostor lucraria com seu nome.

Nôa gemeu sua condescendência e pediu para olhar outra vez o álbum de fotografias. Ainda tinha esperanças de encontrar Lester. Não seria difícil reconhecê-lo. Certamente o menino não abandonou todos os hábitos, como os cabelos mal cortados, e as roupas ciganas.

Dimitri o entregou a ele, cansado demais para discutir. Faria o que fosse preciso, desde que aquele homem aficionado o deixasse em paz. O rapaz estava folheando a terceira página, que mostrava a freira chamada Suzana, quando alguém entrou na sala sem bater à porta. Instintivamente, Nôa abraçou-se ao álbum.

— Irmão, precisamos do senhor! Agora!

— O que houve, Carlos? Você está pálido — Dimitri disse ao homem e deixou sua cadeira. O frei esbaforido que irrompia a porta levou as mãos ao estômago tentando recuperar o fôlego. Pareceu a Nôa que ele era aquele primeiro frei que se recusou a abrir o portão.

— O irmão Jonas! Ele está tendo uma convulsão. Eu e outros três irmãos não conseguimos contê-lo, precisamos de ajuda! Ele está gritando e babando, acabou batendo a cabeça no chão e o sangue não quer estancar!

Dimitri girou o corpo em direção a Nôa.

— Nós já terminamos por aqui, sr. Nôa. Estou com um problema mais sério para resolver agora.

— Irmão, vamos! Pelo amor de Deus! — insistiu o outro.

Nôa deixou a cadeira e colocou a mochila nas costas. O álbum de fotografias foi para superfície da mesa de cerejeira.

— Eu sei onde é a saída, padre. Não vou incomodá-los de novo.

— Irmão! — repetiu o frei.

Dimitri saiu em seguida, deixando a porta aberta para que Nôa fizesse o mesmo. Avançou depressa pelo corredor. Em segundos, estava prestes a tomar a abertura à direita que levava ao pátio. Antes, porém, conferiu se Nôa estava realmente saindo do casarão. O rapaz acenou para ele e desapareceu a caminho da antessala que o levaria até a saída.