Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 46 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 26

— Liza? Minha nossa, como chegou aqui?

— Eu faço as perguntas, Nôa. O que você está fazendo dentro de uma igreja abandonada? — Liza era mal-humorada depois das oito da manhã, mas durante a madrugada era uma vespa. Nôa tentou acalmá-la e não piorar tudo. Chegou mais perto dela. Ela tinha acabado de atravessar a porta e se esforçava para tirar a poeira dos cabelos negros.

— Não encosta a mão em mim! Vim até aqui porque fiquei preocupada. E antes que pergunte, seu celular tem GPS , gênio. Não foi difícil encontrá-lo. Eu quero respostas, Nôa. E se eu não gostar delas, juro por Deus que chamo a polícia!

— Para que isso, Liza?

— Para foder com você. Como acha que eu passei os últimos dias? Você me abandonou, Nôa! Depois de tudo o que eu fiz por você. Eu montei aquela porcaria de ateliê! Com o meu dinheiro! O mínimo que exijo é um pouco de consideração.

— Liza, não é hora nem lugar para uma DR . Eu estou perto, amor. Estou a alguns metros das obras de Wladimir Lester.

— E vai fazer o que depois? Vender no mercado negro?

Nôa sorriu.

— Exatamente. Mas não é só isso. A tinta também está aqui, aquela tinta — disse, dando luz à sua principal suposição. Na verdade, a única que realmente o motivava.

Liza deu alguns passos pela igreja, olhando para o teto e para as paredes cobertas por plástico e náilon. Ela tinha uma lanterna em mãos. Como sempre, estava mais preparada que Nôa. Também estava bem mais bonita, com uma calça de couro mais justa que a vida e uma camiseta do Misfits, cortada na barriga.

— Onde estão os quadros? Já pensou em como vai carregá-los daqui?

— Vou deixar escondido em algum lugar. A reforma está empacada, não tem ninguém trabalhando aqui. O único problema é um padre enxerido, mas eu posso enrolar ele. Vem comigo — chamou.

Caminhou até a parte de cima do altar. Parou em frente à estátua que guardava a entrada do tal alçapão. Liza se manteve a dois metros de distância. Nôa estava pálido, seus olhos se moviam depressa demais. Alguém tão obstinado faz besteiras quando não consegue o que quer.

— Está dentro da estátua?

— Não, Liza. Está embaixo dela. Tem uma abertura no chão.

— E como descobriu isso?

Pense Nôa, pense. Você precisa da ajuda dela. Não vá foder tudo com uma resposta cretina.

— Consegui as plantas da igreja — mentiu. — Como eu consegui as plantas e cheguei até aqui, explico depois. Estamos perto, Liza. Nosso futuro está embaixo desse monte de gesso.

— E você precisa da minha ajuda? Depois de me deixar sozinha e desaparecer por dias? Depois de todo o tempo que passou desaparecido dentro da nossa própria casa? Sabe, Nôa, eu nunca conheci alguém tão sem noção quanto você. E o pior de tudo é que você não tem nenhuma certeza se existe alguma coisa aí embaixo.

— Por favor, Liza. Por nós.

— Não existe nós . — Ela cruzou os braços.

Nôa não se intimidou e voltou ao trabalho. Apanhou o plástico que forrava o confessionário e o puxou com força. Acabou de costas para o chão, segurando dois pedaços rasgados.

— Você não existe… — Liza disse. — Eu vou ajudar, Nôa. Mas metade do que tiver aí embaixo é meu. E ainda estou pensando se empresto meu carro para você levar tudo embora.

— Metade? Depois de eu ter me ralado como um condenado para descobrir tudo isso?

Ela sorriu. Seus dentes brancos contrastaram com a sujeira da velha igreja, um diamante reluziu à luz da lanterna em um deles.

— Chame de compensação. Você me fez sofrer demais nos últimos meses. É pegar ou largar, Nôa. E eu estou menstruada e morrendo de sono.

Ficou mais fácil tomar uma decisão. Nôa voltou a ficar de pé e disse: — Você puxa o plástico e eu empurro essa merda para cima.