Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 14 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 14

 

Giordano continuou desembrulhando a herança de Lester e a cada descoberta mais arfadas de receio o acometiam. Não havia dúvidas de que o garoto era especial, um verdadeiro prodígio, daqueles que nascem por um descuido dos anjos. Entretanto, as obras e suas cores vívidas, luxuriosas , traziam consigo um agouro inexplicável. O padre já estava respirando profundamente quando chegou ao terceiro dos cinco pacotes.

— Padre? Está tudo bem?

— É só cansaço. Mas se puder me trazer um pouco d’água…

Suzana saiu da sala, apressada, para fazer o que ele pedia. Nunca tinha visto Giordano tão atordoado. Mesmo seu rosto, quase sempre calmo, assumia as cores de um tomate maduro. O capelão continuou com Lester: — Estávamos preocupados com você, filho. Fico feliz que não esteja consumido em revolta depois do que aconteceu.

Ah, mas Lester estava consumido… Suas mãos curiosas, o movimento rápido dos olhos, o medo de que o padre danificasse alguma das peças em uma manobra descuidada. Sua herança não era somente gesso, papel e tinta, aquelas coisas eram parte de sua alma, como eles logo descobririam.

Lester continuou atento até que a última moldura estivesse livre da proteção dos papéis pardos. Havia um monte de lixo no chão e sobre a mesa. Papéis, barbantes, pedaços de paina — um tipo de algodão um pouco mais grosso. Também algum gesso da estátua devolvida à mesa, sobre a madeira e sobre a batina negra do padre. Suzana estava entrando na sala outra vez, trazia um jarro de barro com água e uma caneca. Giordano apanhou a caneca de alumínio abastecida pela freira e a virou em dois goles. Tornou a enchê-la e mais uma vez bebeu seu conteúdo rapidamente.

— Filho, preciso de alguns minutos com a madre Suzana.

— O que vão fazer com os meus quadros? Com a minha estátua? Isso é meu, não podem ficar com eles ou esconder de mim! — Lester correu até a mesa e tornou a apanhar a estatueta, colou-a contra seu peito com força, entrelaçando os braços.

— Ninguém vai fazer isso. Mas se você nos desobedecer e nos enfrentar como um menino egoísta e mesquinho, podemos mudar de ideia.

O garoto continuou como estava.

— Entregue para o padre, Lester. Nós só queremos conversar e decidir a melhor maneira de agir.

— Eu não vou sair daqui! — disse ele. Quase um rugido felino.

A fim de contê-lo, Suzana deixou o jarro sobre e mesa e deu dois passos firmes em sua direção. Ela estava com os punhos fechados, as pupilas dos olhos contraídas ao máximo. Giordano tomou sua frente.

— Não.

— Padre! Ele…

— Tivemos uma conversa dura, madre. Estamos todos nervosos — disse. Encarou firme Suzana, de modo que ela bufou e recuou um passo. Mas a mulher continuou de braços cruzados. Giordano retornou sua atenção para o menino. — Lester, o que você acha de ficar do outro lado da porta? Não precisa ir para o seu quarto agora, prometo que daqui a pouquinho falaremos com você.

— Não vai destruir minhas coisas? — perguntou. Seu rosto também estava vermelho. Os braços tremiam um pouco, se esforçando para segurar a estatueta de gesso por mais tempo. Os olhos não desviavam de Suzana, ela era o risco agora. Ela era Sarah, Iolanda, Maria e todas as mulheres desconfiadas do mundo.

Ainda contrariado, Lester avançou até a mesa. Apanhou um pouco de papel do chão e colocou sobre a escrivaninha, a estátua ainda em seu controle, desafiando os músculos jovens do menino. Ele a pousou suavemente sobre as folhas, como se fosse um bebezinho. Depois saiu da sala. A porta se fechou e as costas de Lester fizeram um ruído seco sobre a madeira que a compunha.

— Nunca vi uma criança tão teimosa!

— Precisamos ter paciência, madre. O menino está assustado.

— Ele não é o único — disse Suzana.

Giordano caminhou até a janela, era o mais longe possível da porta onde Lester os aguardava. Abriu as persianas e deixou que um vento mais fresco resfriasse o suor da pele.

— Não está pensando em deixar essas coisas horríveis com ele, está? — Suzana perguntou.

Giordano apanhou algo do bolso que começava a deixá-lo maluco. Um cigarro artesanal que ele só fumava dentro daquela sala, sempre em frente à janela aberta.

— O senhor não tinha parado de se envenenar?

— Um homem precisa ter um vício, madre. Esse é um dos poucos que não perturbam minha fé.

O dia lá fora estava calado de novo. Duas carolas passaram pela frente do casarão e se benzeram quando notaram a silhueta do padre. Ele as abençoou com uma das mãos e manteve o cigarro abaixado na outra.

— Não podemos tirar a herança de Lester. As pinturas são a vida do menino. Você mesma viu suas reações, o que aconteceria se tomássemos tudo dele?

— Padre… — Suzana se afastou outra vez e retrocedeu até a mesa. Olhou nauseada para a estatueta da cigana. Ela tinha tantas curvas e voluptuosidade. Tinha até seios! Devassidão e decadência, mesmo aos olhos de uma criança. Porém, optou por apanhar outra peça — talvez para não precisar tocar na estatueta imunda. Ela ergueu um dos quadros, de modo que Giordano pudesse vê-lo de onde estava. Uma pintura realista. Uma mulher de uns setenta anos segurando um gato rajado em seu colo, atrás dela havia outro quadro, com outra mulher segurando outro gato. Pelas roupas da mulher, a cena era atual, mas algo o fazia parecer mais antigo. A mulher no plano principal estava toda de preto, havia uma escrivaninha ao lado, ligeiramente recuada. Sobre a escrivaninha, meia dúzia de rosas brancas.

— O senhor pode dizer com certeza que essa é uma obra de Deus?

Giordano tragou o cigarro e soltou a fumaça para o lado de fora da janela.

— Essa é a obra de um menino cigano. É a maneira que ele vê o mundo e o representa. Madre… Até homens brilhantes como Leonardo da Vinci e Michelangelo pintaram quadros estranhos. E precisamos reconhecer que ele tem talento. Daqui de onde estou, o quadro parece uma fotografia. É um pouco sombrio e triste, concordo, mas seria justo privarmos o menino de um talento tão grande? Um talento dado por Deus?

— E os outros garotos? Eles vão se assustar com essas coisas. Ou pior: vão torturar Lester com apelidos que ele nem conhece.

— Tenho uma solução para isso. — Giordano lançou o cigarro pela janela e voltou a se aproximar da freira. Apanhou o quadro das mãos dela e o devolveu à mesa. Depois tomou as mãos da mulher dentro das suas. — Cuidamos desses coitadinhos há muito tempo, nos conhecemos há muito tempo. Peço que tenha confiança em meu julgamento mais uma vez.

— Padre…

A voz era quase um suspiro. O coração acelerado dentro do peito, um ou dois pensamentos que deveriam ser rechaçados. As mãos de Suzana ficaram oleosas depressa, ela as tomou de volta e se afastou um pouco.

— Podemos usar o quarto de hóspedes — sugeriu Giordano. — Ele está vago desde que Lester o deixou. O menino pode trabalhar lá dentro. Deixaremos tudo no mesmo lugar, e tenho certeza que Lester não fará questão nenhuma de que os outros vejam suas obras. Eu fiz um acordo com ele, estou lhe devendo material de pintura. Madre… É nítido que esse menino possui um talento extraordinário, podemos orientá-lo, agenciá-lo, quem sabe instruí-lo para que produza algo mais adequado à nossa casa. Faríamos um favor a ele. O garoto não deixará de pintar porque eu e a senhora não gostamos dos seus quadros.

Suzana voltou a olhar para a estatueta. Suas curvas, seu busto, sua volúpia, sua fertilidade.

— Ela é horrível.