Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 13 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 13

— Primeiro você — disse Giordano, mantendo a porta aberta. Suzana estava atrás do menino, preocupada em deixar as outras crianças sozinhas por muito tempo. Desde a chegada de Lester, eles pareciam animais selvagens. Todo dia alguém discutia, brigava e sangrava.

— O que eu fiz de errado?

— Calma, Lester. Só queremos conversar um pouco.

Lester esperou os olhos se acostumarem com a sala escurecida e entrou. Sentiu o cheiro da madeira dos móveis e, ao mesmo tempo, saudade da casa que costumava ter. Sentiu falta principalmente da liberdade de antes que agora parecia tão consistente quanto à sinceridade de Giordano. O padre respirava um pouco depressa demais e também transpirava na testa.

Antes de chegar à sua mesa, Giordano cochichou alguma coisa com madre Suzana. Lester não se importou, o que tomava toda sua atenção eram alguns objetos recostados à parede. Enfim, a conversa entre Lester e aquele pobre homem poderia trazer algo útil. Suzana ficou de pé, ao lado de Giordano. O padre ocupou a cadeira à frente da mesa de cerejeira. Ele abriu a primeira gaveta e retirou de lá um envelope surrado pelo manuseio.

— E então? Como vai a sua estadia em nossa casa? Os meninos ainda estão implicando? A madre me contou que andaram provocando você no pátio, quer me contar o que aconteceu?

Lester estava de costas, passando as mãos sobre o carvalho do armário e olhando com o canto dos olhos para os objetos recostados à parede.

— Os meninos não me conhecem direito. Eles estão fazendo o que todo mundo faz quando tem medo de alguma coisa, estão testando minha força.

— E você é bem forte, suponho?

— Todo cigano é. Aprendemos isso desde que nascemos: ou você fica forte, ou o mundo acaba com você.

Giordano cedeu um risinho torto a Suzana. Ela não retribuiu. Estava com a boca fechada e os ombros retesados, um dos pés ritmava contra o chão da sala. Ficaria mais tranquila com o fim daquela conversa.

— Muito bem, se está tudo certo entre você e os meninos, podemos continuar. — Giordano caminhou até a mesa a apanhou um envelope. Retirou o conteúdo e selecionou uma das páginas amarelas.

— Aqui diz que você é um artista.

— De onde veio isso? — Lester perguntou. Girou o corpo para que ficasse de frente para a mesa. Continuou afastado, suas costas tocavam a madeira do armário e as fazia trepidar.

— Esse é o outro ponto da nossa conversa. Lester, eu não sei como dizer, mas…

— O que fala aí? O que está escrito nesse papel velho?

Suzana estranhou o jeito do menino. Geralmente ele falava de maneira calma, mas agora, a despeito de sua aparência de doze anos — e de ele ter alegado essa mesma idade —, Lester aparentava a perspicácia e inteligência dos quinze. Mesmo sua voz estava mais grossa e potente.

— Está escrito que você é um prodígio. Quem o escreveu foi uma mulher chamada Sarah. Pelo que soubemos, ela era uma espécie de conselheira. A mulher mais velha da tribo, estou certo?

Lester acenou que sim. Lançou os olhos para a porta entreaberta, também para a janela fechada em uma das persianas. O dia estava carrancudo outra vez, como era comum nos agostos daquele país quente e úmido.

— Eu me pergunto o que causou toda a discórdia que veio depois. Pelo que pude entender, sua tribo o tratava como um herói. Ela também fala sobre seu pai, alguém chamado Juan.

— Meu pai era um feiticeiro. Mas no seu mundo ele seria chamado de… padre.

Giordano pigarreou, mas não respondeu com a agressividade que gostaria. Seria uma conversa dura, melhor poupar o espírito.

— E Sarah nem conheceu ele direito. Eu conhecia meu pai, conhecia de verdade!

— Calma, Lester. Nós só queremos saber mais sobre você.

— É só me perguntar — ele disse, não com raiva, mas distante de estar tranquilo. — A sra. Sarah estava perdendo o juízo, todo mundo do acampamento sabia disso, ela falava bobagens o dia inteiro e às vezes ficava gritando, até que alguém entrasse em sua casa e a trouxesse de volta para a terra. Eu não sei o que ela escreveu nesse papel, mas o senhor devia jogar fora. Sabe o que dizem sobre gente louca? Que se a gente conversar muito tempo com eles, acaba ficando igual.

— Tudo bem, Lester. Você venceu. Não vou mais ler uma linha desses papéis. — Giordano tornou a guardar as folhas no envelope, fechou o pacotinho e abriu a gaveta.

— Pode me dar? São do meu povo, não são?

— Boa tentativa, mas o envelope fica comigo.

Os ombros do menino subiram e desceram, negando a importância que seus dedos enovelados nas palmas das mãos davam àquelas folhas.

— Você se recorda que sua família estava de saída da cidade quando o trouxeram para cá? Naquela noite de chuva?

— Mais ou menos. Foi um dia estranho.

— Pois bem, filho, eles estavam. A mulher que dizia ser sua irmã me falou isso e depois outra pessoa confirmou a história. — Giordano girou o pescoço na direção de Suzana e ela deixou o posto ao lado da mesa. Foi para perto de Lester e apanhou sua mão. O menino olhou para cima. A freira pediu que ele fosse forte.

— Recebemos a visita de um agente da lei alguns dias atrás. Ele trazia más notícias. Notícias sobre o seu povo.

— Tá tudo bem com eles?

— Não, filho. Não está. Lester, antes que eu continue, você precisa entender que Deus nosso Senhor sempre sabe o que faz. Às vezes, ele nos coloca à prova e nem sempre entendemos quando acontece alguma coisa terrível e…

— Eles…

— Estão mortos, Lester. Um terrível acidente se abateu sobre a caravana. O oficial me contou que eles caíram de um desfiladeiro. Ainda não sabemos como aconteceu, mas parece que houve um incêndio e…

— Eu estou sozinho no mundo? É isso?

Notando a irritação na voz do menino, Suzana se abaixou até que fizesse contato com seus olhos.

— Você não está sozinho. Nunca ficará sozinho de novo. Nós somos sua nova família. Eu, o padre e as outras crianças. E você pode chorar se sentir vontade, faz bem colocar a tristeza para fora.

O garoto continuou encarando a freira, mas nada de umidade em seus olhos. O que ele fez foi permitir um abraço para em seguida dizer: — Eu já estava sozinho. Eles me deixaram para trás e foram amaldiçoados pelos deuses. Não vou chorar por causa disso.

— Filho… toda essa revolta…

— É só isso, padre? Posso voltar para o quarto?

Suzana e Giordano se entreolharam de novo. Poderia ser choque, surpresa ou ódio puro mascarado com desprezo. O fato é que o menino não parecia incomodado como deveria estar.

O padre tornou a limpar a garganta.

— Daqui a pouco você vai estar livre de nós dois. — Ele deixou a mesa de cerejeira e caminhou até a parede onde estavam apoiados os objetos que não paravam de chamar por Lester. O menino já sabia do que se tratava antes mesmo que o padre abrisse a boca. Giordano aproveitou que o quadro de Jesus estava bem acima dos pacotes e disse baixinho: — Tende piedade do menino. — Depois prosseguiu: — Tudo o que restou do incêndio foram essas peças.

Lester correu em direção a ele. Suzana tentou segurá-lo para que não corresse dentro da sala, era uma regra de ouro no orfanato. As crianças só podiam correr do lado de fora, no pátio. Giordano consentiu, e ela largou o menino.

Antes que Lester tocasse os embrulhos, o padre apanhou o menor deles, que parecia proteger uma coluna, algo roliço de cerca de um metro. Colocou-o em cima da mesa. Lester entendeu o recado, ele não tocou nos outros embrulhos. O padre gostou disso, era um sinal de respeito e confiança. Calado, continuou colocando as peças sobre a mesa. Terminado o trabalho, escolheu o primeiro embrulho e começou a desempacotar.

— Precisamos saber do que se trata antes de dar a você.

Lester parecia andar sem se mover. Suas pernas tremiam, uma mão segurava a outra em frente a elas. A boca não fechava.

Depois do papel pardo, um monte de jornais. Giordano também não havia visto o conteúdo dos embrulhos, mesmo com a insistência do oficial para que ele o fizesse. Segundo o homem — que contou superficialmente o que eles guardavam —, ele e outros oficiais abriram alguns embrulhos e deram uma olhada antes de levá-los ao orfanato, ele disse que nenhum dos artefatos fora tocado pelo fogo, ou mesmo pela água, ou pelo sereno da noite. Estavam intactos, embaixo da única lona que não pegou fogo. Apenas um quadro ficou com o agente, o que mostrava a queda de uma caravana. Giordano disse a Lucano que Lester contou sobre uma lenda cigana na qual muitas pessoas morriam depois de terem roubado uma grande tribo do Norte e matado seu governante. O oficial fingiu que acreditou e encerrou mais um caso. De qualquer forma, ninguém de Três Rios se importava muito com um bando de ciganos mortos.

Os papéis foram enchendo a mesa, Giordano começou a desembrulhar mais depressa. Suzana, que havia se aproximado, não tirava os olhos das próprias mãos. De repente, o padre parecia mais curioso que o menino.

— O que é? — ela perguntou ao vê-lo desnudar a peça.

— Uma estátua? — Giordano perguntou a si mesmo.

Lester se esticou todo e estendeu as mãos. Giordano manteve a estatueta consigo, estudando suas curvas e sorvendo a sensação tentadora que a peça começava a causar nele. O menino insistiu, dando a volta na mesa e puxando a batina do padre.

— Entregue a ele — Suzana disse.

Bem devagar, Giordano fez isso. Depois, sacudiu a cabeça como quem chama o juízo de volta. Lester vasculhava a estatueta a girando entre as mãos. Suzana notou um rasgo na parte de trás, como se a peça esperasse algo que ainda seria colocado dentro dela. Lester abraçou a estatueta depois de avaliá-la, foi sua primeira emoção genuína desde que entrou na sala.

— Minha Ciganinha, santa Ciganinha! — ele disse e deslizou os dedos pequenos sobre a peça.

— Blasfêmia — disse Suzana, e se benzeu.