Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 80 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 3

— Estão vendo, só? Agora vou ter que matar a humana — disse Lúcio. Lucrécia tentou correr, mas depois de dois passos sentiu seus ossos travarem. O corpo parou em um baque, os cabelos voaram para frente do rosto e sua pele estremeceu em ondas. — Venha cá, mulher — disse o bonitão.

O corpo de Lucrécia obedeceu. Por mais que ela resistisse, obedeceu. Seus pensamentos, interessados nos favores do Diabo, davam a ele o poder sobre seu corpo. As trevas afastam a luz às vezes, assim como o oposto. As trevas do Demônio ainda mais. Contudo Lucrécia era uma filha da mãe teimosa e não se entregaria tão fácil. Não depois de uma vida de violência, abandonos, lágrimas e ódio.

Ela travou a perna direita, focou toda a sua força sobre ela. Lúcio percebeu seu esforço. Então sorriu e, com um rápido girar dos dedos indicador e médio da mão direita, partiu o osso da canela de Lucrécia em dois lugares. Parte do osso da fíbula imediatamente saltou para fora da carne. O som de tecido rasgado era nauseante. Sangue jorrou pela ferida aberta. Pedro sorriu com Aim. Dois velhos amigos, assistindo ao chefe trabalhar direito.

— Que vagabunda teimosa! — disse Pedro.

— Melhor não resistir — aconselhou Aim. — Vai sofrer menos.

Lucrécia, no entanto, continuava se opondo à influência de Lúcio. Gritava a cada impulso dele, travava os dentes, travava a carne.

Não adiantou. Seus passos dolorosos continuaram avançando até que a levassem para frente da mesa sete.

— Gosta de bisbilhotar? — perguntou o bonitão.

Ela não respondeu. Em parte porque fazia tanta força que seus dentes estavam travados.

— O que você ouviu, hein, Lucrécia? — Lúcio insistiu, fazendo incandescer seus olhos. Ela viu algo belo naqueles olhos vermelhos. Havia algo de puro neles. Ainda que fosse a maldade.

— Como sabe o meu nome? — ela preferiu perguntar. A boca cerrada, tentando conter a dor. O corpo paralisado.

— Sei de muitas coisas, mulher. Agora responda à minha pergunta.

— Ouvi tudo, demônio. Cada palavra.

— Bem — disse Lúcio, voltando a ter olhos humanos —, nesse caso vou precisar matá-la. Último desejo?

— Por favor, não me mate — pediu, optando pelo paradoxo. O rosto vermelho ganhou novas lágrimas. Um choro que não era só de dor. Era ódio também. E não era do Demônio. Lucrécia estava odiando a Deus por permitir, depois de uma vida tão desgraçada como a dela, ser morta pelas mãos de Satã. Um sentimento tão forte que causou arrepios de prazer no Príncipe das Trevas.

— Faça um desejo, mulher! Vou matá-la de qualquer jeito — disse Lúcio. A voz não tinha mais o tom jovem e sexy que combinava com sua aparência. Era uma voz saída das profundezas da Terra, onde a morte é considerada um prêmio. Mil vozes em baixa rotação, todas juntas escorregando por sua garganta quente.

— Seu desgraçado, não é à toa que anda tomando ferro dos seus clientes. Pode me matar, seu bosta! Não sou de pedir arrego para macho .

Lúcio se aproximou mais. O cheiro dele a nauseou. O Diabo tomou o pescoço fino em suas mãos e começou a apertá-lo. Depois mais. Quanto mais apertado, mais ira aquela fêmea humana exalava. Um mar de ódio contido em uma mulher tão pequena? Esfregões, cusparadas, prisões, abortos, doenças e humilhações. Um milhão de esqueletos guardados no armário de uma simples garçonete estéril. Ela também parecia gostar daquilo, porque Lucrécia não desafiava o Demônio enquanto resistia, desafiava a Deus, se recusando a pedir Sua ajuda. O Diabo gostou da ideia e apertou ainda mais. Estava em transe, inebriado pela raiva da mulher.

— Acha que ele vai matá-la? — perguntou Pedro.

— É provável — respondeu Aim. Tomou outro gole de cerveja. Estava quente, claro que sim… Não somente os metais se esquentam quando o demônio fica nervoso. Até a água incendeia.

— Pensa que consegue ser melhor do que eu? Do que eles, mulher? — O bonitão perguntou com a voz enrugada de demônio. Apontava para Aim e Pedro.

— É fácil ser melhor que seus lacaios — Lucrécia respondeu, usando o que tinha de ar nos pulmões.

Lúcio a manteve presa e a estudou longamente, como se lesse cada segredo emaranhado em suas rugas. Afrouxou um pouco o pescoço para que ela pudesse respirar. Relaxou a arqueadura dos olhos.

Lucrécia estava tão certa de que morreria que desprezou o medo. De fato, não temia a morte. O que congelava seu coração era a maldita expectativa da vida. Conforme Lúcio tomava seus pensamentos, percebia quanta dor aquela mulher desgraçada já havia suportado. O próprio pai fez com que ela abortasse aos treze, para que ninguém soubesse dos segredos sujos dos dois; ele também a esterilizou. O primeiro estupro no trabalho aos quinze, naquele mesmo bairro, em um restaurante italiano. Lúcio viu o dono mafioso esfregando o rosto adolescente de Lucrécia em uma privada manchada de merda enquanto gritava palavrões e a enrabava. Mesmo assim, Lucrécia permaneceu no bairro. Foi de novo, e de novo, e de novo humilhada, até que o bairro mais podre da cidade passasse à enganosa classificação de “classe média”. O demônio viu em suas memórias o corpo vendido para bancar a vida que, de outra maneira, não teria. Viu Deus abandonando uma ovelha que resistia aos lobos.

E que aprendeu a resistir ao pastor.

Uma ovelha dessas não deve ficar sem pasto , o Demônio pensou.

Pedro, e mesmo um espírito endurecido como Aim, não aguentariam tanto. Aquela esfarrapada entregue em suas mãos sulfurosas conhecia muito do pré-requisito de seus associados. Sofrimento era algo fundamental naquele tipo de negócio. No ancestral pacto com o Demônio.

— Desculpe meus modos, Lucrécia — disse ele e a deixou respirar livremente.

A voz estava jovem de novo. Os olhos se abrandaram definitivamente e o ar tinha um odor fresco. O bonitão das madrugadas estava de volta.

— Precisamos estar atentos em nossa área de atuação. Tem muita gente por aí que prefere fingir que não existimos, mas que faria uma guerra para nos destruir — justificou-se.

— Não sou uma delas — disse Lucrécia, tentando controlar a dor da fratura exposta em sua perna. E claro que conseguiria. Lidava tão bem com a dor quanto com a gordura das panelas.

— Vou explicar um pouco do processo. Pedrão; traz alguma coisa para ela beber.

— Vodca — pediu Lucrécia. — E um guaraná.

Adaptar-se depressa a novas situações, outra especialidade de Lucrécia.

— Você não devia misturar — disse Lúcio. — Estraga a vodca.

— Eu não vou misturar.

Pedro, contrariado, foi atrás do que a moça pediu. A cabeça sacudindo de um lado para o outro atrás do balcão; a calvície, vermelha como um morango.

Todos ficaram quietos até que ele voltasse. Aim a estudava, curioso e interessado na humana destemida à sua frente. Todo demônio de uma categoria razoável sabe apreciar um humano com sangue nos olhos. A última mulher corajosa como aquela que ele vira se chamava Joana. E era escura até no nome se o ouvissem na língua certa — apesar de uns espertalhões por aí não entenderem a piada…

Lucrécia apanhou o guaraná e deu um bom gole; na lata mesmo. A vodca, ela jogou sobre a ferida da perna.

— Merda! — disse quando o álcool pareceu derreter seus tecidos. Pedro vergou o pescoço para não ver aquilo. Lucrécia esticou o braço e apanhou a toalha de uma mesa ao lado. Rasgou-a e apertou forte em um torniquete. — Pode falar, bonitão — continuou, arfando um pouco. — E se me arrumar um cigarro, agradeço.

Aim estalou os dedos e estava com um Marlboro nas mãos.

Há anos ela não fumava. O dinheiro era tão curto que não sobrava para vícios. Lúcio, em um truque de salão que não costumava fazer, produziu uma chama azul, como a de um maçarico, acima de seu indicador. Lucrécia não pareceu se impressionar nem um pouco e acendeu o cigarro. Tragou lentamente, sentindo uma tontura boa.

— O que temos aqui é um negócio como outro qualquer, mas você já deve ter percebido nossas bases. E quem eu sou.

— Acredita em mim, cara, eu não tenho nada contra você. Nadinha — ela disse.

— Pude perceber. Mas falando do nosso negócio, essa parte do pessoal cuida dos novos contratos — apontou para os dois outros homens. — O Pedro é o cara das assinaturas e o Aim cuida da coação aos clientes. Você deve ter ouvido algumas bobagens sobre encruzilhadas e outras crendices, mas a única verdade nisso tudo é a parte do contrato assinado com sangue. O resto é besteira. E também não é só sangue. O que sai das veias é misturado a uma tinta especial que o pessoal recebe, um milagre que tentaram esconder há algum tempo. — sorriu. Aim retirou de seu paletó um tubinho de vidro com a tal tinta. Para Lucrécia pareceu sangue, um pouco mais fino, mas era da cor do sangue. Belíssimo.

— Não entendi muito bem a parte da pressão . Desde quando as pessoas precisam ser pressionadas pra ganhar dinheiro?

— Não é tão simples. A Igreja que nasceu depois que crucificaram o filho do meu antigo chefe complicou tudo. Ficam espalhando essa bobagem de fogo eterno, gemidos e ranger de dentes. Então você deve imaginar que precisamos ter um pouco de perspicácia extra ou simplesmente o negócio não ia funcionar. O pessoal do Aim cuida disso. Não existe essa besteira de paranormal , entende? Existem caras como o Aim. Depois da lapidação deles, os selecionados vêm a nós como moscas na carniça.

— Mas por quê? O que você ganha com isso?

— Eu tive uma discussão com um cara uma vez. E ele me disse que eu não poderia vencê-lo em uma disputa justa. Bom… Tudo se resume a isso. Ele sequestra pelo amor e eu pelo favor; a dor, nós dois usamos. E olha que eu vinha ganhando fácil há muito tempo, mas essa porcaria de internet… Mulher, isso acabou comigo. Agora todo mundo conhece tudo, lê tudo e desacredita em tudo. Nem eu ou Ele — apontou para cima — valemos muita coisa se não acreditarem em nós. Talvez precisemos rever todo esse nosso negócio, mas quer saber? Eu ainda pretendo ganhar essa aposta… E quando ganhar, vou provar quem é quem no mundo.

Aim deu um grande sorriso, Lucrécia olhou para ele. O homem negro estava bem diferente agora. Com chifres — dois na cabeça e vários menores pelo rosto; no queixo, nas maçãs de estivador — e com a pele escarificada.

— Desculpe, mas detesto parecer humano — justificou-se.

— Entendo você — disse Lucrécia. O Diabo sorriu. Ela continuou: — Já percebi o que fazem. E Lúcio, você não vai ganhar do cara lá de cima desse jeito.

— Como é?

— Isso aí, vocês estão jogando errado. Não sabem mais o que as pessoas querem, não estão mais dentro de suas casas. E elas não acreditam mais em você, Lu… Muito menos em Deus, que está pouco se lixando pra elas. Outra coisa: esse negócio de ficar mexendo camas e jogando copos de vidro no chão, isso não assusta nem criancinha. Quanto tempo faz que vocês não vão ao cinema? Assistiram Hellraiser ? Conhecem Freddy Krueger? A Regan de O Exorcista ?

— Esse último, sim. Foi um dos últimos filmes onde fiz uma ponta… — disse o bonitão, um tanto saudosista.

— De medo eu entendo. Pessoal… Vocês não estão nem perto.

Os três se entreolharam. Lucrécia continuou o bombardeio.

— E os desejos? Sabe, as pessoas querem fama, não só dinheiro. Querem gozar o dia inteiro, querem ser astros de Hollywood, querem fãs comprando suas revistas. Querem a porcaria de uma rua com o nome delas! Entenderam?

O Diabo estava interessado. As palavras daquela mulher faziam total sentido.

— O que eu vejo aqui — continuou Lucrécia — é um Diabo velho com cara de novo, um demônio que não assusta nem uma velhinha que tem medo da morte e um gordinho safado que não conseguiria vender seguros de vida para a mulher de um homem com câncer. — Aim e Lúcio baixaram a cabeça, envergonhados. Aim tamborilava os dedos pela mesa, esperando aonde tudo aquilo os levaria. Mas foi Pedro quem reagiu.

— Sua porca! Acha mesmo que pode falar assim com a gente?

O cheiro ruim começou a se espalhar de novo. O mesmo acontecia com o calor. Aim se afastou da mesa, fazendo a cadeira se arrastar depressa. Pedro em seguida. Lucrécia continuou onde estava e deu outro gole no refrigerante que começava a esquentar.

Lúcio levantou-se e tirou a jaqueta. Algo em suas costas começou a crescer por dentro da camiseta. Seu rosto e sua pele também se modificaram. Ele envelheceu dez anos em segundos. Seus músculos cresceram junto. Nas mãos surgiram garras negras e compridas. Os olhos ferveram de novo. Seus pés saíram facilmente dos sapatos e se tornaram patas com cascos bifurcados. Lúcio caminhou em direção a Pedro, e por onde pisou o chão ganhou marcas escuras. Sua camisa ficou apertada, chegou a rasgar nos bíceps, mostrando uma musculatura enorme e hipervascularizada. Estava todo vermelho, brilhante, como se exalasse luz. Seus poros contendo milhões de sóis dentro deles. Lúcio se mostrava como a Estrela para Pedro, pela segunda vez. A primeira foi quando o admitiu, depois de demitir o antigo cara dos contratos. Seu nome não era relembrado — como o de Pedro também não seria. O único negociante com um nome lembrado até hoje se chamava Judas.

— Sua vez de pagar, Pedro — disse Lúcifer.

— Mas, chefe? Depois de tudo que eu fiz?

— Negócios… — disse. Lúcifer apanhou um guardanapo da mesa. — Precisamos nos reciclar…

O demônio amassou o guardanapo entre os dedos e o incendiou na palma da mão, o fogo dançou para ele, de uma maneira que as chamas não fazem. A pequena bolota de cinzas ainda fustigava algum calor quando ele a assoprou. O papel quase sem peso se consumia em cinzas, um LED vermelho na escuridão da noite. A fagulha bailou sobre o ar quente do trailer. Seguiu flutuando até atingir o terno de Pedro. Ele a estapeou e assoprou a brasinha presa em seu ombro. Começou a incinerar logo em seguida. Pedro gritava, tentando apagar aquele fogo, gritava, mesmo sabendo que não conseguiria. Seu rosto já derretia quando ele disse: — Espero você lá embaixo, sua piranha!

Então seus lábios pegaram fogo e viraram cinzas, como todo o resto de seu corpo.

— Encontre uma cadeira confortável, porco.

Lucrécia varreu a mesa com os olhos e apanhou um dos copos de vidro. Atirou-o no chão causando uma explosão de estilhaços. Com o maior dos cacos, fez um corte profundo na palma da mão direita. Não esboçou qualquer reação dolorosa. Reagiu como se tivesse passado a faca em um pote de margarina e perguntou: — Onde eu assino?

O Diabo sorriu, certo de que tinha feito uma bela troca. Seu corpo se retraiu e ele voltou a ser o rapaz bonito que usava uma jaqueta de couro e dirigia um Maverick envenenado.

— A tinta, Aim. Alguém acaba de entrar para o time…