Ultra Carnem
Capítulo 21
O homem que ali estava usava um batina. Os cabelos claros rasos à cabeça e a pele muito branca o faziam parecer estrangeiro. Era tão alto que fez Aim parecer pequeno, devia ter quase dois metros. Não que o demônio tenha se intimidado. Tão logo o notou, disse a primeira provocação: — Espero que tenha mudado de ideia desde o nosso último encontro.
Acentuando uma grande ruga na testa, o homem respondeu: — Aim, não é? Um nome difícil de esquecer. Vejo que trouxe companhia dessa vez, o que disse para essa pobre mulher para arrastá-la até aqui? Ofereceu dinheiro? Ou quem sabe prometeu algo que nunca será capaz de cumprir?
Aim esboçou um sorriso e conteve o volume da voz.
— Venho em paz. Eu sempre venho em paz, padre. A mulher se chama Lucrécia. Ela está trabalhando conosco.
Ciente da bobagem que escalava a garganta de Lucrécia, Aim se antecipou e disse: — Eu expliquei ao padre anteriormente sobre a nossa empresa. Sobre o interesse dos investidores em obras sacras, e da boa quantia que pagaríamos se pudéssemos conhecer pessoalmente o gênio artístico por trás delas.
— Esqueceu de mencionar que você ameaçou meu primeiro diácono e espancou duas pessoas da cidade que se recusaram a falar mais do que você mereceria saber. E você já teve sua resposta, Aim. O autor está morto, suas obras cuidam de perpetuar sua vida miserável.
— Não foi o que seu rebanho disse.
— Homens espancados e assustados falam qualquer coisa. Como alguém poderia estar vivo depois de tanto tempo? Conhece alguém com mais de trezentos anos? Agora, se vocês já terminaram, preciso cuidar dos preparativos para a missa noturna. Devem ter visto a procissão dos fieis de Dionísio, estamos a uma semana do aniversário de morte do santo e não preciso de sua influência negativa por aqui.
O homem esguio já estava de costas quando Lucrécia avançou em sua direção. Infelizmente, sua vontade era bem mais forte que suas pernas. Acabou tropeçando, os pés se inverteram, torcendo o tornozelo direito. Lucrécia só não caiu porque as mãos do religioso foram mais rápidas. Aim não a acompanhou. Queria ver em primeira mão se aquela mulherzinha valia tanto investimento.
— Quero conversar com o senhor. Desculpe pelos modos do meu amigo, mas o assunto que tenho a tratar é muito importante.
— Eu não a conheço, senhora. Todo assunto que tinha a tratar já foi discutido com seu amigo. — O padre apontou para Aim. Ele estava de costas, falando com alguém pelo celular.
— Eu imploro — Lucrécia insistiu. Estava de novo sobre as próprias pernas, ajustando com as mãos o caimento do terninho vermelho. — Posso dizer que meu futuro depende do que nós conversarmos.
Mais uma vez, o padre lançou os olhos para Aim.
— Seu amigo é um homem presunçoso. Podemos conversar se isso aliviar sua alma, mas adianto que nada do que ele diz é verdade. Esse homem é um corruptor, senhora. Você faria bem se não tivesse relação alguma com ele.
— Uma conversa, padre. Eu e o senhor. É tudo o que estou pedindo. Depois iremos embora.
O homem branco baixou os olhos e encarou longamente a mulher à sua frente. Ela também não parecia sincera, ninguém com uma bengala tão cara o seria dentro de uma igreja, a menos que estivesse doente e precisando de um milagre. Mas talvez o verdadeiro milagre fosse a chance definitiva de se livrar daqueles mercenários.
— Podemos conversar na sacristia da igreja, mas preciso ser breve. Acompanhe-me, por favor.
Antes de segui-lo, Lucrécia procurou decifrar a expressão de Aim. Seria impossível. Ele facilitou o trabalho e assentiu com a cabeça, lentamente. Em seguida, voltou ao celular.