Ultra Carnem
Capítulo 22
Quando a força é inútil começa o trabalho de um diplomata. Enquanto cruzavam a igreja em direção à sala da sacristia — onde os padres usualmente se paramentam para as missas, e onde também ficam todos os objetos destinados ao culto de Deus —, Lucrécia tinha certeza que sua função ia bem além do treinamento dos demônios ultrapassados do Inferno. Também começava a ter a mesma certeza de que o Inferno a infectara permanentemente. Era como uma alergia. Sua pele coçava bastante, principalmente no ponto mais sensível, que ainda era a ferida da perna. Parece que Lúcifer faria questão que aquela porcaria doesse para sempre, como a lembrança de um ex-namorado cretino que arrasou com sua virgindade antes de dar no pé.
— Antes de entrarmos… Meu nome é Lucas Crispim.
— Lucrécia, padre — disse ela, estendendo suas mãos úmidas. Crispim retribuiu a saudação e em seguida espetou uma chave na porta branca que ficava atrás de uma cortina vinho. Ao lado dessa, outra cortina da mesma cor servia para restringir dos olhos um órgão eletrônico, um violão, uma caixa amplificada vagabunda e um microfone e seu pedestal. O padre aproveitou para cobri-los após a entrada de Lucrécia.
Assim que cruzou a porta, ela espirrou.
— Desculpe. Deve ser o cheiro da sala.
— É canela — explicou o padre. — Dizem trazer prosperidade e afastar energias negativas. Eu gosto do cheiro. Sente-se, por favor.
No centro da sala havia uma mesa redonda com tampo de mármore branco. Sobre ela, uma renda vermelha. Lucrécia também notou um grande armário de madeira escura à sua frente, com mais de seis módulos. Parecia bem velho, tão velho — e em tão bom estado — quanto o restante da igreja. Em um desses módulos, tão alto que quase tocava o teto, um relógio cuco continuava acertando as horas. Porém, o que mais chamou sua atenção tomava conta da quase totalidade da parede à sua direita. Enquanto o padre fechava a porta e caminhava para a mesa, Lucrécia se calou olhando para a estátua.
— Lindo, não acha? — perguntou Crispim.
— Sinceramente, padre… Eu não entendo por que a igreja continua mostrando seu maior representante espetado em um crucifixo. E entendo menos ainda o fato das pessoas gostarem de ver seu sofrimento.
— Nós, humanos, gostamos de superação. Cristo lavou nossos pecados, mas, na minha opinião, sua maior contribuição foi a mudança que se sucedeu durante sua vida, e principalmente depois de sua morte. Cristo veio nos trazer a luz do pai celestial. Antes dele, vivíamos no obscurantismo, sem um caminho correto a seguir. Consegue imaginar como o mundo seria se ele não tivesse nos ensinado o amor?
A essa questão, Lucrécia jamais respondeu. Na verdade, imaginava perfeitamente. Para começar, ninguém aceitaria viver uma vida miserável com a crença que depois de morto tudo ficaria bem. Ninguém acordaria cedo no domingo para ir para uma igreja onde todos fingem ser bonzinhos para, logo depois dos sacramentos, falarem mal das roupas ou da maquiagem dos outros. Sem religião, os homens talvez percebessem que deveriam ser melhores entre si, pela simples questão de que se não fizessem isso tornariam suas vidas miseráveis. Sem dogmas, as mulheres poderiam ser bonitas e maquiadas em todos os continentes, ninguém seria apedrejado por adultério e os extremistas não se comportariam como elefantes na andropausa procurando um filhote de doze anos para rebocar à sua selva particular.
— É um pouco difícil para mim, não tive uma educação religiosa. Mas admiro o que ele tentou fazer por nós — mentiu.
— Bem, não foi para isso que viemos até a antessala. Aceita um café? Água?
— Serei breve, padre. Queremos uma entrevista com o artista. Só isso. Não pretendo obrigá-lo a seguir conosco, digo o mesmo sobre o senhor permitir que nós o vejamos. Mas eu conto com o seu bom senso para essa última decisão.
Crispim caminhou até a mesa e se sentou. Cruzou as mãos sobre o mármore branco.
— Se esse é seu único pedido, recebeu minha resposta há dez minutos. Quando seu amigo nos visitou meses atrás, fui categórico em dizer a ele que estava enganado. Você sabe quem é o prodigioso artista que sua empresa procura? Wladimir Lester. Se você se interessa por arte, já deve ter ouvido falar dele. Lester é um artista cigano, nascido até onde se sabe, antes de 1800. Acredito que Aim e seus superiores estejam fora do seu juízo perfeito.
Lucrécia estava com a cabeça baixa, sorrindo e mirando o padre com seus olhos pequenos e espertos.
— O senhor diz que Lester é um artista cigano. Não seria correto para alguém morto dizer que ele foi um artista cigano?
— Não torça minhas palavras, senhora. Você entendeu perfeitamente o que falei.
— Padre, ouça, eu só quero conversar com ele. Não pretendemos chamar a imprensa ou atribular a vida do pobre homem. Já sabemos que milagrosamente ele está aqui e que continua pintando. Toda essa igreja é prova disso. Uma catedral desse porte, no meio do nada? Eu sei que o Vaticano tem muito dinheiro, mas não consigo encontrar uma resposta para investirem tanto em uma cidadezinha que não aparece nos mapas. Rastreamos algumas obras, notamos o cuidado em esconder os recibos. Se existe uma coisa nesse mundo que sempre deixa uma marca por onde passa, é dinheiro. — Lucrécia não entendia de onde fluíam as palavras certas, mas era como a nascente de um rio. Bastava pensar em Lester e Lúcifer e sua língua fazia exatamente o que precisava fazer. Não que estivesse incomodada…
Ao contrário de Crispim, que deixou a mesa sem uma palavra.
Ele foi até o armário escuro onde havia uma cafeteira elétrica fumegando. Apanhou uma xícara para si, pingou algumas gotas de adoçante e perguntou: — Qual é o seu papel em toda essa história? A senhora me parece sensata, diferentemente do seu amigo. Deus me perdoe dizer isso, mas ele pareceu um demônio na primeira vez que pisou em Martírios. Ele e o outro rapaz, um que usava jaqueta de couro, cujo nome me foge da memória agora.
— São homens se comportando como homens. Quando o interesse se sobrepõe à razão, é a vez dos exageros. Estamos sob pressão, padre. Nossa empresa apostou alto nas obras de Lester. Gastamos muito dinheiro para encontrá-lo, e bem mais adquirindo as poucas obras disponíveis para compor nossa coleção. Quando finalmente descobrimos seu paradeiro, nossa empresa virou um inferno .
Crispim pigarreou e lançou os olhos para a estátua crucificada.
— Desculpe, foi força de expressão. Padre, o dinheiro que as obras têm dado à sua igreja, podemos triplicar, quadruplicar se nos der uma chance. Do que o senhor tem medo? Não podemos arrastar o homem daqui à força, ainda mais alguém que seria considerado uma aberração da velhice. Queremos que ele continue produzindo, nosso único papel seria agenciar suas obras.
— Nós temos tudo de que precisamos.
— Sim, vocês têm. Mas e o resto dessa cidade? Eu vi a miséria como vivem, as mulheres definhando e os homens se embriagando. Vi crianças com a barriga cheia de doenças. Padre Crispim, nós podemos ajudar toda essa gente. Podemos fazer muito mais se contarmos com a sua compreensão. Até quando a Igreja sepultará suas riquezas sobre os próprios pés?
— Não creio que esteja qualificada para falar da Santa Igreja.
— Pense nas criancinhas, padre. Podemos reconstruir a cidade. Meu pessoal faria isso em um piscar de olhos. Novas escolas, um hospital decente, podemos inclusive organizar excursões para a visitação da sua igreja; se o senhor gostar da ideia, obviamente.
Dinheiro… A verdadeira linguagem universal.
— Supondo que ele esteja mesmo vivo, o que esperam encontrar em alguém tão velho que não seja senilidade e incapacitação? Sinto muito, sra. Lucrécia, mas não vejo objetivo algum em um encontro com Wladimir Lester. Suas obras estão na igreja, e poderíamos ceder muitas delas à sua empresa, nos termos que acabou de apresentar.
Lucrécia percebeu a chance e decidiu aumentar as apostas. Ela se levantou, apanhou a bengala escorada à mesa e cravou os olhos miúdos em Crispim.
— Encontrar o autor é fundamental. Agradeço pelo seu tempo, padre, mas creio que nossa conversa termina aqui. Existem muitos artistas espalhados pelo mundo; as ruas estão cheias deles. Os abrigos de moradores de rua, as estações de metrô. Pode ser que o senhor tenha razão e Wladimir Lester não valha tanto trabalho e dor de cabeça.
Porém, a semente estava plantada e o padre Crispim a deixava germinar dentro dele. Claro que detestava a miséria de Martírios. Sua igreja e o hotel Paraíso eram as únicas coisas decentes em toda aquela cidade. Mesmo a fé dos fiéis ultimamente estava reduzida a dois ônibus que aportavam em Martírios uma vez por ano — e deixavam apenas a metade do dinheiro do qual poderiam dispor. Além disso, a mulher falou em um novo hospital. Desde os anos 1990 que o São Matheus não tinha equipamentos ou médicos suficientes. Prova disso era sua própria mãe, a sra. Luzia Mirra, morta depois de uma infecção bacteriana que poderia ter sido sanada em uma semana com antibióticos e um antibiograma decente. Infelizmente para ela e para o padre Crispim, era uma mulher teimosa. Catarina não aceitou ser internada em um hospital particular, exigiu o mesmo tratamento que o resto da cidade recebia. Suas últimas palavras foram: “Que seja feita a vontade de Deus”.
— Espere. Ainda temos o que conversar.
Lucrécia se deteve a um passo da porta. Esticou os lábios em um sorriso acidental e tornou a aniquilá-lo quando se virou de frente para o homem de cabelo claro.
— Estou ouvindo, padre.