Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 20 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 20

Dizem que o Inferno é a repetição, mas talvez seja a novidade. Era o que Buba pensava enquanto lançava os olhos para as quatro paredes do quarto e, principalmente, para algumas obras de Lester jogadas sobre a cama.

— Vai me contar o que está acontecendo aqui? Cadê as duas? — o menino gordo perguntou. Japonês se espremia ao lado da porta, rente à madeira. Vermelho, um pouco mais corajoso — ou se fazendo disso para que Buba não o lembrasse para todo o sempre que ele teve medo de um cigano —, aguardava as respostas de Lester.

— Você queria a estátua, não é? A Ciganinha? — perguntou ele.

Buba tornou a olhar para a peça. Agora, com a luz de três velas animando o quarto, ele podia vê-la melhor. A estatueta estava sobre um travesseiro, apoiada na cabeceira da cama, de pé. Estava de frente para a porta e para Buba. Ao lado dela, um quadro emoldurado, com a frente voltada para o colchão. Buba chegou mais perto, mantendo a lâmina sempre diante de si. A coisa de gesso parecia viva. Não se admiraria se ela saísse da cama e começasse a falar.

— Eu não quero mais essa porcaria. Já vim até aqui com você, fedido. É melhor a gente voltar e dormir. O padre está azedo hoje, não vou irritar mais ele. E cadê a madre e a sua amiguinha ?

Da porta, ouviu a respiração aliviada de Japonês e Vermelho. Ele não os recriminou dessa vez, também queria sair daquele quarto o mais rápido possível. O cheiro que estava no ar chegava a revirar o estômago. Talvez o cigano usasse sua própria merda naqueles quadros. Pensava nisso quando Lester começou a falar de novo.

— Elas estão bem aqui. Antes de a gente voltar, vocês precisam falar com a madre Suzana.

Os três se entreolharam e depois olharam para o cômodo. O menino estava perdendo o juízo, deve ter inalado muito solvente enquanto pintava seus quadros de merda. Vermelho diria isso, mas antes, Japonês, que segurava a porta aberta com o peso do corpo, sentiu a madeira pressionando suas costas e se afastou. Era o vento, sim, era sempre o vento. O problema é que a janela estava fechada e a madeira da porta repetia o movimento. Japonês se afastou mais, acabou esbarrando em Vermelho que o empurrou de volta.

Buba esticou o braço armado em direção a Lester.

— O que tem ali atrás?

Lester recuou o passo que precisava para escapar de um possível golpe do garoto. Em seguida, algo empurrou a porta, atirando Japonês no chão e expondo o pior pesadelo que aqueles três meninos teriam em vida. As chamas das velas que animavam o quarto tremularam, mas não chegaram a se apagar. O cheiro de morte ficou tão intenso que os pulmões tentavam expeli-lo com tosses. Os olhos lacrimejavam, tentando permanecer abertos.

Assim que viu o que a porta escondia, Buba correu em direção à janela. Japonês se levantou e foi até a porta novamente fechada, forçou a maçaneta. Vermelho foi ajudá-lo, assustado demais para ter força.

A madre Suzana estava saindo das sombras. Seus olhos estavam perfurados e vazavam algo negro como petróleo. A mancha escorria até perto dos lábios ressecados. Ela ainda usava o hábito, escondendo o corpo que estava no mesmo estado. As mãos grandes e desnutridas pareciam ter cem anos, as unhas estavam negras, encharcadas com o mesmo material que saía dos olhos. Ela tentava falar, ou parecia que tentava, mas o que os meninos ouviam eram gemidos dolorosos e entrecortados.

— O que fez com ela? — Buba gritou. — Eu quero sair daqui!

Forçou a fechadura da janela repetidamente. Acabou largando o canivete no chão e usando as duas mãos, esquecendo-se que depois da madeira haveria as grades. As persianas cederam muito pouco. Elas retornavam ao batente e não conseguiam se abrir com os puxões desesperados de Buba. Seus dois amigos estavam no meio do quarto, entre eles e a porta, a figura tomada de morte que um dia fora Suzana.

— Você vai viver para sempre, Buba-Baleia. Mas ninguém nunca mais vai querer olhar para você. Para vocês.

— Eu vou te matar! — ele gritou e deixou a janela. Apanhou a lâmina do chão e partiu para cima de Lester. O cigano não reagiu. Ele deixou que o metal penetrasse sua barriga duas vezes. Foi só quando Buba se afastou, com o punho molhado de sangue, que Lester disse algo novo. Suzana já tinha acabado com Japonês, torcido seu pescoço e o atirado para o outro lado do quarto. Vermelho estava tendo um fim parecido, mas Suzana preferiu usar o pincel que a matara para abrir caminho pelos olhos até chegar ao cérebro do menino.

Com o canivete mergulhado no ventre, Lester caminhou até a cama. Não teve dificuldade alguma em avançar. Buba se recolheu ao canto esquerdo, gritando junto com Vermelho enquanto ele era torturado. Da cama, Lester apanhou o quadro e o apontou em direção a Buba. O menino girou os olhos, talvez imaginando que aquela visão fosse a última de sua vida. Da pintura que vira inacabada, horas antes, uma luz esverdeada venceu o amarelo das velas e banhou o corpo de Buba, dos pés à cabeça. Seus olhos se abriram mais do que seria possível, seus joelhos arquearam, e ele escorregou parede abaixo. O queixo pendeu, os músculos relaxaram.

— Faça o que deve ser feito — disse Lester.

No centro do quarto, Suzana apanhou o corpo de Japonês e o atirou para cima de Buba. O Baleia continuou parado, dominado, olhando para a luz verde que escapava da moldura. O quadro lamentava e gemia; seus riscos tomavam consistência e forma. Quando terminou com Japonês, Suzana carregou Vermelho para o mesmo lugar. Os dois meninos mortos também presenciaram a obra de Lester, mas algo dentro deles ainda vivia. Suas essências, a última gota de vigor, suas almas.

Lester repousou o quadro no chão e deixou que terminasse seu trabalho com os três. A luz esverdeada lambendo seus corpos, refletindo o suor que resvalava pela pele. O cheiro pútrido se diluindo aos poucos, se perfumando, trocando de lugar com um novo odor que saía da estatueta pousada na cama. Os corpos dos três meninos pareciam fazer o mesmo. Estavam assumindo alguma transparência, a carne sólida os deixando e rumando em vapores para dentro do quadro maldito.

Um baque surdo no centro do quarto e Suzana estava de volta ao chão, para onde estaria condenada para todo o sempre. O fluido escuro que animava seu corpo escoou pelo hábito, tal qual um tapete de piche. A mancha ganhou o chão e correu até Lester, subindo pelos seus pés. Enovelou-se ao contorno do corpo em um abraço; continuou seu caminho pulsante até que chegasse ao canivete estocado no ventre. Lester retirou a lâmina de si e deixou que caísse. O negrume encontrou a fenda que precisava para entrar e foi escoando para o interior do corpo. O menino permitiu que o fizesse.

Antes que Buba, Japonês e Vermelho desaparecessem totalmente, os olhos ciganos estavam negros de novo. Ele caminhou até uma das velas — no oratório do quarto — e a apanhou. O fogo iluminou seu rosto demoníaco, seus olhos negros. Lester mergulhou a mão no bolso direito da calça e retirou algo de dentro dele. Colocou o tubinho em frente à luz da vela. Parecia mais cheio, mas não o suficiente para tudo o que ainda queria produzir. O cigano sabia como resolver a questão. Giordano e os órfãos gritavam no quarto de onde jamais sairiam com vida.