Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 58 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 6

— Já chegou, amor?

Marcos não respondeu enquanto fechava a porta da sala. Caminhou até a cozinha e encheu um copo com um pouco de suco que sobrou do almoço de Odeta e Randy. A coxinha do seu Raul matou sua fome, mas fez o oposto com a sede.

— Tudo bem no trabalho? — ela insistiu. Mastigava alguma coisa, sentada em um sofá com a marca de sua bunda. Marcos pensou que ela comeria madeira se alguém colocasse catchup. Que ela comeria o pé da mesa de jantar ou o pé da poltrona da sala cujas almofadas cheiravam a peido mofado.

— O de sempre, Deta — ele respondeu.

Reclamações não mudariam seu dia. Além disso, as partes mais animadas — como os melões da filha do japonês e o cheiro sexy da Ciganinha — não poderiam ser mencionadas. E outra: Odeta daria mais atenção a um pedaço de bolo estragado do que para o seu desabafo.

— Cadê o Randy?

— No quarto — ela respondeu. Em seguida, um trovão explodiu no céu.

— Sozinho? Que merda, Odeta. Você sabe que ele detesta chuva!

Marcos descalçou o sapato úmido e saiu correndo para vê-lo. Com tantos trovões, Randy estaria em pânico. Tudo bem que Odeta fosse horrível com a casa, com ele e consigo mesma, mas com o próprio filho?

Encontrou a porta do quarto recostada, apenas uma frestinha de luz passando pela abertura e iluminando o quarto.

Randy estava sentado no chão, debaixo de um cobertor. As luzes estavam apagadas e as janelas fechadas. Ele sempre fazia isso quando ficava com medo, como se a realidade fosse bem mais assustadora que a escuridão.

— Tá tudo bem, filhão. — Marcos puxou devagar o cobertor, tentando não assustá-lo ainda mais. — Pode sair do esconderijo agora.

— Passou o balhulho ?

— Passou, sim. Era só chuva. O papai está aqui.

Randy jogou os cobertores para o lado e pulou em cima de Marcos, cobrindo-o com abraços e beijos. Nesses momentos, Marcos quase entendia por que Deus fazia crianças como Randy. Ele era amoroso, doce, sincero. Era uma dádiva ter alguém assim na sua vida. E uma tremenda injustiça com o garoto… Randy teria que enfrentar maus bocados durante sua existência. As gozações, morrer solteiro e sem filhos, não conseguir um emprego e um salário capazes de mantê-lo vivo.

Depois do abraço apertado, Marcos olhou bem para aquele rosto longilíneo. Um garoto normal até que começasse com suas palavras empapadas ou suas birras de bebê. Precisou de um pouco mais de atenção quando encarou seus olhos. Havia algo diferente neles. Faziam Randy parecer… Mais velho.

— Te amo, papai.

— Também amo você, Randy.

— Vamu brincá?

Marcos estava um caco, as costas pedindo cama, e o estômago uma cerveja gelada. Mas não teve coragem de negar um pedido do menino.

— Quer brincar de quê?

— De de-se-nhoooo! — gritou Randy. Comemorou com palmas, antes mesmo de começar. Em seguida, se levantou e apanhou sua Lousa Mágica de dentro de uma caixa de papelão. Voltou a se sentar. Enterrou os olhos nela. O rosto próximo demais como a mãe dizia para não ficar.

Começou a desenhar com uma canetinha azul. Marcos já esperava por algum hieróglifo que só Randy conseguiria entender. Como da vez que ele desenhou uma bola com três pauzinhos espetados nela. Demorou muito para alguém acertar que a coisa era um cachorro sem uma das patas (havia um cão na vizinhança, o nome dele era Tripé). Desenhar era uma das brincadeiras preferidas de Randy — e, claro, que alguém adivinhasse qual era o desenho. Quase sempre mamãe e papai deixavam que ele ganhasse. O coitadinho não ganharia muita coisa da vida tendo o miolo mole daquele jeito, nada mais justo que ganhasse alguns jogos.

Dessa vez, Randy estava mesmo se esforçando. Conferia o desenho afastando a lousa, mastigava a língua com o tique nervoso recebido do DNA paterno. Marcos não se lembrava de vê-lo fazendo aquilo antes, mas andava tão ausente tentando ficar longe de Odeta, que não estranharia se Randy voasse. A caneta se movia rápido, pra lá e pra cá, precisa como se estivesse nas mãos de um garoto esperto.

— Terminou? — perguntou, depois de uma pausa de Randy.

— Não, papá! Inda não!

A TV alta de Odeta incomodava os ouvidos de Marcos. Um homem que trabalha o dia todo não deveria precisar disputar espaço dentro da sua própria casa. O tipo de situação que acrescentava mais cem metros de abismo entre os dois. Não, Odeta, não basta você ser uma baleia e usar essas roupas de botijão de gás, ainda tem que se comportar como uma aberração surda! , pensou.

— Pronto, papá. Divinha!

Randy estendeu a lousinha e entregou para Marcos. Esquecendo Odeta e os ruídos da casa, Marcos apanhou o brinquedo preferido do filho, se preparando para encontrar uma árvore, um gato ou algo ainda mais simples — uma vez Randy desenhou um risco e disse que era uma régua. Mas o queixo do papai veio abaixo quando viu o desenho. Marcos ficou tão assustado que desprezou completamente os traços firmes (não menos surpreendentes) da caneta de Randy. Toda sua atenção estava presa no significado daqueles…

— Onde você viu isso, Randy?

— O que é, papá? Tem que divinhá!

— Primeiro me diz onde você viu isso, Randy!

A pequena aspereza na voz foi o suficiente para o menino. Pequenas estrelinhas apareceram no canto dos olhos. O queixo se enrugou todo.

— Papá tá bávo?

— Não, filho… Não tô bravo. Desenhou um coelhinho?

— Não, papá. — Randy riu e enxugou os olhos, esquecendo que estava triste. — Tenta de novo!

— É um… copo?

Randy meneou a cabeça. A mente de Marcos urrava atrás de alguma explicação.

Como ele viu essa coisa? Deus do céu. Isso é possível? Ou Odeta anda me seguindo e levando o garoto com ela? Não… Ela não faria isso; não envolveria Randy.

— É um poço dos desejos?

Randy inclinou a cabeça, confuso.

— Acho que não, papá!

— Humm… — Marcos levou a mão ao lábio, abaixo do nariz. — Então, é um lugar onde as pessoas escrevem seus pedidos?

Houve um pouco de silêncio. De surpresa, Randy gritou: — Não! Randy ganhô de novo, Randy ganhô de novo!

Três erros e ele vencia, esse era o trato (e foram quatro erros do paizão). E Randy sempre vencia, apesar de esquecer depois de dez minutos.

— Tá certo, campeão, você ganhou. Mas agora precisa contar o que é para o papai, tá bom?

Randy franziu a testa como se não concordasse.

— Anda, Randy… O que é isso aqui? — pousou o dedo sobre a Lousa Mágica.

— Papá bavo? — repetiu Randy. Às vezes, ele fazia aquilo. Se perdia em uma pergunta e a repetia por horas, por dias. Se isso acontecesse, Marcos nunca não teria sua resposta.

— Não, Randy. Mas o papai quer saber o que é o desenho.

— Randy conta, papá. É o pato da Nigacinha.

— Como é?

— É… O… Pa-to da Ni-ga-ci-nha .

— Prato da Ciganinha? É isso que você quer dizer? — perguntou. O dedo tocou a lousa com mais força e tremeu. Marcos percebeu o erro e o recolheu depressa. Não queria assustar o filho ou mostrar como estava nervoso, mas a ansiedade de saber como aquilo saiu da cabeça de Randy… Jesus, como não estaria maluco de curiosidade?

O menino sorriu, mostrando todos os dentes. Depois bateu palmas. Papai estava certo. O desenho era mesmo o prato da Ciganinha. Não que Marcos tivesse ficado feliz ou fosse pressioná-lo para descobrir detalhes. A cabeça de Randy era um processador velho e todo técnico de computação sabe o que acontece quando se exige demais de uma coisa dessas. Perda total, placa-mãe queimada — ou, no caso de Randy, convulsões.

— Vô pegá oto binqueto — ele disse. Saiu do chão e voltou até a caixa de papelão do canto do quarto. Com algum esforço, a carregou e virou a caixa de cabeça para baixo. Uma chuva de brinquedos rolou pelo chão. Randy só começou a escolher alguns depois de se sentar outra vez.

Enquanto a criança se distraía, Marcos aproveitou para conferir o desenho. Era mesmo o pratinho que ele vira na loja de esquisitices. Os pontos de interrogação azuis estavam invertidos, mas eram claros no desenho. E Randy podia escolher entre as sete cores disponíveis, mas fez os sinais justamente com a caneta azul. Dentro do prato desenhado, outra surpresa: Randy tentou traçar os pequenos rolinhos de papel onde os desejosos rabiscavam seus pedidos. Marcos estava arrepiado da cabeça aos pés. Para piorar, os trovões voltavam aos céus para deixar ele e Randy ainda mais tensos. Mas Randy não estava dando a mínima para o céu explosivo, enquanto erguia um carrinho nas mãos.

Seria possível? , pensava o pai, ainda interessado na lousinha. Os traços firmes. Randy parecia diferente, mais ágil. Mais esperto ?

A nova brincadeira com o carrinho mostrou um Randy mais coordenado. Nada daqueles empurrões descontrolados que arrasavam com os Hot Wheels em dois dias. O menino empurrava um pequeno caminhão de bombeiros com a destreza de um garoto de uns seis, sete anos. Em se tratando de Randy, era um progresso e tanto.

Os computadores fritaram minha cabeça. Mas e se aquela cigana estivesse certa? E se…

Ficaram por duas horas naquela segunda brincadeira. Randy se divertindo e Marcos catalogando cada novo gesto do filho. Mesmo a fala empapada dele começou a ficar mais clara. Era como se a sua cabeça tivesse se tornado uma enorme esponja, absorvendo tudo ao redor. As falas da TV , os trejeitos de Marcos, os sons da rua. Marcos ficou várias vezes com os olhos molhados, agradecendo a Deus pelo aparente avanço de Randy. Mas o avanço do menino não era coisa de Deus como dizia um programa evangélico que Odeta assistia na televisão, enquanto Marcos preferia a pornografia na internet.

Randy, enfim, cansou-se. Estava bocejando, quase dormindo sentado quando Marcos o colocou na cama e foi para a sala. Odeta já havia ido para cama. A sintonia porca e cheia de chuviscos da tela logo o presenteou com um sono curto e picotado. Quando percebeu, já passava das onze. Hora de ir para cama também. Antes, escovou seus dentes e tornou a encontrar o espelho cheio de distorções do armarinho. Dessa vez preferiu encará-lo, de longe e depois, tomado por novas surpresas, mais de perto. Marcos não conseguia encontrar os fios brancos de sua cabeça. Nenhum deles. Também sentiu algo diferente quando encostou o quadril na louça da pia. Seu amigo que morava na terra das cuecas estava maior. Não que tenha durado muito tempo. Marcos rapidamente voltou ao normal quando ouviu o ronco da mulher deitada em sua cama. Melhor assim, se Deta percebesse a empolgação, o esmagaria entre suas coxas. Ela queria sexo. Estava cercando seu homem, reclamando seus direitos de fêmea. Marcos não podia negar fogo para sempre. Talvez fosse melhor acabar logo com isso. Pular para cima dela e pensar em uma garota como Cat. Abriu a porta do quarto, esperando encontrá-la enfiada na camisola encardida e suspensa na altura da pança. O estômago chegou a embrulhar — para contrariá-lo ainda mais, Odeta sequer se raspava.

A silhueta nada excitante que esperava encontrar repousava no escuro do quarto, vestida . Marcos arrastava os passos, observando a duna estática que marcava o tecido do lençol, tentando não perturbá-la. Sentou-se à cama, evitando qualquer ruído que pudesse acordar o gigante adormecido. As malditas molas não concordaram e estouraram um “pleim ” como se soubessem o que ele pretendia. Marcos respondeu com uma careta dolorida. Odeta continuou dormindo. Ele respirou fundo e também se cobriu com o lençol velho que compraram no Walmart há uns dois anos, compraram seis jogos na promoção, não eram bonitos ou bons, davam coceira, mas pelo menos custaram pouco.

Meia hora depois e seus olhos ainda estavam arregalados para o teto.

É muita sorte. Randy melhorando, Odeta desmaiada sem querer meu salame na baguete dela. Sem cabelos brancos nas têmporas?! Quem diria que um dia tão ordinário acabaria tão bem?

Depois de longos minutos vasculhando o fundo de seus pensamentos, alguns bastante obscuros, Marcos adormeceu. Seu último pensamento foi sobre ela, a Ciganinha.