Ultra Carnem
Capítulo 25
Seis meses depois, na mesma loja cigana, um cliente percorria o corredor comprido com um sorriso no rosto. Ele chegou até Sofia e estendeu sua mão.
— Vim pagar a senhora — disse a ela. Era forte, cabelos nevados, uns sessenta anos.
— Seu negócio não é comigo.
— Mesmo assim, quero agradecer pela ajuda. Tenho tudo o que eu sempre quis, graças à senhora. Minhas falhas de memória acabaram, saí das ruas. Hoje tenho uma esposa linda, um garoto esperto e um bom emprego… Agradeço aos céus por ter me colocado em seu caminho. Aceite — ele disse, retirando um anel de prata com um São Jorge em alto relevo e estendendo a ela. — Quero que fique com isso, faço questão.
Sofia apanhou o anel, notou algum salpico vermelho perdido entre os relevos e os ignorou. Mordeu o metal para atestar que era mesmo prata.
— Dá um abraço no seu garoto por mim — disse depois, satisfeita com o presente.
— Dou, sim. O nome dele é Randy — disse o homem. Em seguida, olhou para a loja que não deixava de incomodá-lo. — Eu estou um pouco atrasado, dona Sofia. Só vim mesmo para deixar o anel. Aceite, é de coração.
Sofia concordou e esperou que ele se afastasse. Então sorriu e resmungou sem que ele a ouvisse:
— Não agradeça aos Céus, agradeça a Ciganinha. Ela sempre ajuda quem pede com fé.
Do lado de fora, o sol brilhava. Sem nenhuma nuvem no céu.