Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 74 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 22

Ele está em outro pulgueiro qualquer. O ar é vermelho, a TV passa um comercial de escadas de alumínio da Polishop. O cheiro que está no ar é agradável e conhecido.

Cat.

Ela ainda está amarrada e viva, o corpo rabiscado como um mapa de anatomia. Fígado, coração, intestinos, útero. Quase tudo sinalizado . A moça parece distante; sonolenta ou drogada. O assassino se aproxima, deixando tudo mais claro aos olhos de Marcos. Ele descobre que a luz vermelha vem de um abajur ao lado da cama. Cat sorri nervosamente para o assassino. Marcos não consegue entender o que ela diz, mas ouve sons abafados vindos de trás da mordaça. O assassino tem algo novo nas mãos: uma faca que parece ser capaz de destrinchar um dragão-de-komodo. Marcos percebe novamente, em um dos dedos, o anel de prata polida com o São Jorge. Cat parece enjoada, e a expressão um pouco divertida de segundos atrás se torna pânico genuíno. Ela se debate e não parece mais distante, muito menos drogada ou coisa assim. Está apavorada e confusa, como se acordasse de um sonho bom e estivesse no inferno. Cat consegue soltar uma das mãos e agora tenta, como um animal, se livrar da corda que prende a outra. Marcos não tem nenhum controle sobre o assassino, ele apenas está ali, observando. O matador se aproxima e corta, com um só golpe, três dos dedos de Cat. Só restam o indicador e o polegar em sua mão livre. Ela grita, lágrimas e secreções inundam a mordaça que a impede de falar. O pano está tão apertado que Marcos consegue ver sangue nos cantos da boca. Como ela permitiu aquilo , por que sorria segundos antes? Marcos suspeita que o desgraçado seja o namorado dela. Ele o conhece. Cat havia jurado que terminara o relacionamento há dois meses, mas não se pode confiar em uma garota que abocanha um técnico de informática pobretão na frente do padrasto. Os dedinhos cortados agora estão no chão; a mão esguicha sangue para todos os lados. O canto dos olhos revela para Marcos que tem mais alguém ali, alguém que os jornais não mencionaram. Nem mesmo o site maluco do cara que curte as piores bizarrices do mundo teve acesso a essa nova informação. Marcos reconhece o sujeito . Já tinha visto aquele rosto em uma foto, entre as coisas que Cat mantinha perdidas em sua bolsa mais cara. É o tal (ex?) namorado. Ele mesmo. Um suspeito a menos para o prêmio de Açougueiro do Mês, pois o (ex?) namorado está nu e com as mãos presas para trás, ele está de joelhos e sangrando por um buraco que ocupa o lugar de seu pinto. Abaixo do rombo, não existe mais uma bolsa escrotal. O assassino dá um chute no estômago do rapaz, o pobre homem geme como um cão atropelado. O Açougueiro se volta para a mocinha sem dedos. Ele se aproxima e, para acalmá-la, mergulha a faca em sua barriga. Cat não morre, mas consente que ele a amarre de novo. Balbucia algo que Marcos pensa ser uma pergunta: “Por quê?”. O dono dos olhos parte para a preparação final de sua obra, e Marcos, aprisionado dentro dele, acompanha tudo. Logo percebe que Cat está morta. O Açougueiro vai até a geladeira. Apanha algo novo que havia guardado lá dentro: testículos. Ele volta e mergulha a faca na barriga do (ex?) namoradinho chorão. O (ex?) namorado de Cat perde a respiração de tanta dor. O Açougueiro afasta a mordaça e enfia os testículos ensanguentados na boca do rapaz, depois recoloca o tecido. O prisioneiro demora quase dez minutos para morrer, sufocado com as próprias bolas. O matador espera pacientemente. E Marcos também, preso atrás de seus olhos. Depois de se certificar da morte do rapaz com um novo chute, o assassino urina em cima dele. Quando termina, volta para Cat e termina sua obra. É como um artista pintando um quadro. Um lunático saído da pior parte da mente de Jack, o Estripador. Agora só falta a maldita abóbora , pensa Marcos. Também repara que não será fácil descobrir a identidade do desgraçado, os únicos espelhos do quarto (um na sala onde ele está e outro no banheiro) estão cobertos. Marcos imagina por quê. Ele sabe que estou aqui . Dentro dele. Esperando para entregá-lo à polícia. Marcos relembra da estátua que mudou sua vida, existe uma miniatura da Ciganinha sendo colocada dentro da abóbora, a abóbora que seria enjaulada entre as pernas de Cat. Tal detalhe crucial não viria a público, mas era importantíssimo para Marcos. O assassino afaga o pano que cobre o espelho do quarto. Acaricia-o como se ele escondesse algo apaixonante. Um sacana de um narciso, pensa Marcos. O homem fiscaliza sua obra e olha para o espelho coberto. Parece pensar em apresentar sua obra ao reflexo. E então, arranca o pano com violência.