Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 27 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 7

Perto das onze da manhã, Nôa trocou de lugar pela sexta vez. Continuava em frente ao casarão, alternando entre os muros, o centro dos portões onde ficava a campainha e o outro lado da rua. Agora, ele estava sentado e via alguma movimentação na porta. Ela se abriu, alguém espiou o lado de fora e tornou a fechá-la. Nôa gritou:

— Eu não vou embora até falar com vocês. Tenho o dia inteiro, tenho a vida inteira!

Uma mulher de saia longa e cabelos trançados que passava pela calçada se benzeu e estendeu a ele uma moeda. “Deus tem um plano para você”, ela disse. Nôa apanhou a moeda, mesmo não sendo um mendigo (ser tratado como um farrapo daria algum efeito especial à sua dramatização). Antes que a mulher seguisse seu caminho, ele acrescentou:

— Espero que seja um bom plano.

A mulher já estava distante quando Nôa arregalou os olhos e gritou para o lado de dentro do casarão:

— Estão vendo? Agora eu tenho dinheiro! Não podem me ignorar para sempre!

Ele gritou outras vezes, se levantou, ameaçou escalar os portões, depois voltou a sentar. Estava com fome e um pouco descrente que a porta se abriria, apesar de sua insistência. Aqueles homens estavam acostumados com o sofrimento, pior que isso, eles achavam que as penitências os colocavam mais perto de Deus. É, mas um doido gritando ou morrendo de fome em seus portões era diferente — a imprensa adoraria uma novidade dessas.

Outros dois ônibus passaram pelo ponto até que outra movimentação à porta fez Nôa gritar de novo. Dessa vez, quem saiu foi um homem sem capuz. Não o mesmo de antes, esse tinha olhos castanhos e uma pele rosada de Jô Soares. Também tinha uma cicatriz do lado esquerdo do rosto, um pouco funda demais e já consolidada.

— O que, em nome de Deus, você tem na cabeça? Quer ser preso, meu filho?

— Padre, eu só quero falar com o responsável. Tenho um assunto importante, é caso de vida ou morte.

O homem sorriu do exagero, mas não colocou uma chave na fechadura do portão.

— Vida ou morte? Ouça, rapaz, como já lhe informaram, estamos em retiro. Para dizer a verdade, essa é a nossa vida. Não podemos aceitar visitantes nesse monastério. Isso perturbaria os homens e atrapalharia sua evolução espiritual.

— Se eu ficar gritando aqui, vou atrapalhar mais ainda. E não adianta me prender, quando eu sair, volto para sua porta e grito em dobro. E eu posso fazer greve de fome, aposto que os jornais adorariam.

— Dio Mio! — falou o homem, espalmando as mãos aos céus.

Baixou os olhos e estudou Nôa por um instante. Os cabelos empapados pelo sereno que se tornara garoa, a calça igualmente úmida, a mochila que não saiu de suas costas desde então. Não duvidou que Nôa cumprisse sua ameaça. Ele tinha aquele olhar maluco que diz que alguém é capaz de tudo.

— Pode me adiantar o assunto?

— Eu já disse, padre. Quero falar com o responsável.

— E pensa que está falando com quem?

Nôa rodou a mochila, trazendo-a para a frente depressa demais. O sacerdote recuou um passo. Aquele estranho podia ter uma arma escondida. Pessoas se desesperam e matam umas às outras o tempo todo. E perseguir e matar religiosos parecia estar na moda ultimamente. O homem só relaxou quando Nôa mostrou o conteúdo da mochila a ele.

— Um livro?

— Não um livro comum, padre. Este livro aqui tem seu endereço. É um diário. A maioria das páginas fala sobre um menino cigano que morou neste lugar há muito tempo.

O padre se esforçou para segurar a imparcialidade do rosto, mas sua testa não demorou a enrugar.

— Posso vê-lo?

— Do lado de dentro, padre. Se concordar em conversar comigo, deixo você ler o que quiser.

— Pode girá-lo? Quero ver o encadernamento da parte de trás.

Nôa tinha virado o livro do avesso. Conhecia cada palavra, cada erro, cada maldição, praga e encantamento que existia em seu interior. Mas não se atentou muito à capa. Só agora, quando estendeu o volume ao padre, percebeu um símbolo na parte de trás. Não era uma coincidência que as quatro flores de lírio nos brasões eram idênticas às que estavam entalhadas na porta de entrada.

— Onde encontrou esse livro?

Nôa olhou para a construção e guardou o volume.

— Filho, teimosia deveria ser pecado… Vou deixar que entre. Mas não abra a boca até estarmos sozinhos. Não quero deixar meus irmãos ainda mais agitados depois de tudo que você já fez.