Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 95 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 18

 

A entrada da cidade limitava-se a um posto de gasolina abandonado e caindo aos pedaços e a um arco enferrujado, dando boas-vindas aos visitantes. Lucrécia não conseguia confabular um nome mais perfeito. Jesus Cristo, o lugar tinha o nome de Martírios!

Logo que avançaram pela entrada, chamaram pelos olhares dos miseráveis que se aventuravam na tentativa de asfalto que cobria a cidade. Havia um bar com a fachada já parcialmente descascada até o cimento. Na frente do lugar, um grupo de cinco homens tentava acabar com o fígado tomando aguardente. Eles olhavam para Lucrécia com algum apetite, algo que só perdurou até encararem Aim.

— Lugar detestável. Não importa o que tenha acontecido comigo em Três Rios, essa cidade consegue ser pior. Notou a expressão no rosto deles? Essa gente não está mais viva! Como não enxergam a miséria onde vivem?

— Eles enxergam, sim. Só não tem pernas ou vontade suficiente para fugir dela. São como a cadela que você tentou ajudar. Vivem em bandos, sugando uns dos outros o que ainda lhes resta de vida.

— Que queimem no Inferno — Lucrécia disse, quando um deles disse uma gracinha que fez os outros homens rirem e olharem para ela.

— Acho que não. As chamas de Geenna desprezam o combustível ruim deles. Talvez possam encher o rio das Dores, Caronte gosta dos despretensiosos. São fáceis de controlar. — Deu o próximo passo com mais firmeza. — Vamos andando, quero encontrar o cigano e voltar para casa. Você ainda tem muito a aprender por lá.

— Tem ideia de onde ele está?

Aim respondeu apontando para uma serpente cujas escamas eram feitas de gente. Uma procissão.

A maioria dos fiéis era de mulheres. O primeiro pelotão era composto pelas mais velhas, cobertas dos pés à cabeça por vestes negras. Elas seguravam suas velas, usavam xales, muitas precisavam da ajuda da mulher ao lado para seguirem em frente. Todas entoavam cantos sacros e simples, do tipo que se encontra nos folhetins das igrejas católicas interioranas. A segunda parte era infestada de gente comum. Mulheres com vestidos de chita, poucos homens, algumas crianças que tentavam simular as expressões de fé dos adultos. Depois dos dois blocos, o que se via era uma mistura de gente comum e vagabundos que, esperançosos, seguiam os passos de quem tinha mais fé.

— Esperam conseguir graças gritando como babuínos. Eles deviam perder dois minutos de conversa com o chefe. Nas poucas vezes que ele falou do comandante celestial, deixou bem claro o quanto Ele era chato. E pelo que me consta, Ele detesta puxa-sacos.

— Não deve ser fácil saber o que todo mundo está pensando. Minha mãe costumava dizer que a maldade é mais exata quando estamos quietos. Nossa mente é capaz de pensamentos terríveis. Mas o que quer dizer apontando para esse bando de aloprados? Vai me dizer que o cigano maldito virou santo?

Aim esticou os lábios sem mostrar os dentes e continuou seguindo a procissão. Tomava o cuidado de não se aproximar demais ou permitir que Lucrécia o fizesse. Se dentre aquelas dezenas de humanos houvesse um vidente, alguém capaz de enxergar a pele verdadeira de Aim ele poderia alertar aos demais.

A procissão atravessou o que parecia ser o centro de Martírios. Por todo o caminho, algumas escamas da serpente debandavam enquanto outras tomavam seu lugar. Havia gente parada nas portas das casas e dos comércios. Habitantes desnutridos de alma e coração, que insistiam em permanecer naquela terra seca. Muito do comércio local estava sendo encerrado. Lucrécia notou inclusive uma agência bancária — que devia ser a única — fechando as portas quando a procissão se aproximou de sua fachada.

Durante a travessia, o calçamento de paralelepípedos não a ajudava. Lucrécia temia enfiar a ponta da bengala em um dos vãos e se estatelar no chão. Pensava nisso e caminhava um pouco mais devagar quando alguém puxou a parte mais baixa de seu vestido novo. Como havia se tornado costume, ela empunhou a bengala na direção do idiota que ousou tocá-la. Ela não saberia responder se fora sua passagem pelo Inferno, o pacto firmado na lanchonete ou sua roupa nova, mas nunca se sentira tão confiante na vida. Mesmo assim, o que seus olhos revelaram a enterneceram um pouco.

— O que você quer? — ela perguntou.

O garotinho com o rosto sujo de terra sorriu, mostrando a janelinha de dois dentes de leite perdidos. Olhava para a bengala, há pouco recuada de seu peito. Ele tornou a encarar Lucrécia em seguida, mas não disse nada.

— Sai daqui, menino. Não tem nada melhor para fazer? — intrometeu-se Aim. O menino colocou o que podia de língua para fora e fez um barulho flatulento com a boca.

— Deixe — Lucrécia disse a Aim. — Ele não vai machucar você.

Com muita dificuldade, ela se abaixou, apenas o suficiente para ouvir o que o garoto tinha a dizer. A procissão estava mais animada agora, algumas mulheres demonstravam imenso prazer em cantar mais alto que suas concorrentes.

— Você não é daqui, é? Nem você, nem o negão.

Os olhos de Aim faiscaram uma pequena rajada de eletricidade. Lucrécia respondeu que não; e isso bastou.

— Viemos ver um amigo. Você sabe que procissão é essa?

— Todo mundo sabe. Eles rezam para o beato. Ele morreu dentro da igreja, dona. Ele morreu bem no meio do altar, enquanto o padre rezava. Dizem que ele faz milagres, mas minha tia Herminda diz que só Deus faz milagres. Você acha que alguém pode fazer milagres, dona?

— Eu não sei. Mas espero que sim. O que me diz desse beato? Você acredita nele?

Os ombros do menino subiram e desceram.

— Tanto faz. Ele pode aparecer e virar uma galinha colorida que minha vida não vai mudar nadinha. Tem um trocado? Eu não como um pão faz três dias.

— Você tá bem gordinho para alguém que não come nada.

— Só um trocadinho, moça! Minha mãe me bate se eu não levar dinheiro para casa.

Lucrécia tateou o bolso, procurando alguma coisa que não deveria estar ali. Aim não deixou que ela terminasse.

— Some daqui, moleque. Desapareça ou mando o Demônio puxar sua perna quando estiver dormindo.

— O padre disse que o Diabo não existe! Você tá mangando de mim!

Em silêncio, Aim se aproximou e arregalou seus grandes olhos negros.

— Todos sabem que nem tudo o que os padres dizem é verdade. Como daquela vez que o antigo capelão pediu para que todos os meninos tirassem suas roupas. Você estava lá, Leandro. Você era bem pequeno, mas aposto que se lembra do que sentiu.

O menino recuou um passo, alternando olhares para Lucrécia e Aim. De repente, sua esperteza o havia abandonado. Seus olhos estavam úmidos, os braços recolhidos às costas. Lucrécia pensou que ele começaria a chorar ali mesmo. O menino preferiu correr, e ele só parou quando dobrou a próxima esquina, cinquenta metros à frente.

— Por que fez isso? Eu posso lidar com uma criança.

— Tenho certeza que sim, mas o menino tocou sua alma. Você não pode deixar que isso aconteça. Se quiser continuar nas boas graças do Inferno, nunca se afeiçoe a eles, Lucrécia. Crianças são como veneno para um Damaled. Além disso, estamos chegando ao nosso destino.

A mulher mirou o horizonte à frente. Pouco depois de uma nova ravina de paralelepípedos naquela cidade que parecia um tobogã, a cruz de uma igreja aparecia entre as cabeças humanas da procissão. Assim que a notou, Lucrécia sentiu uma fisgada na perna e parou de andar outra vez. Depois foram os olhos que perderam o foco e os pulmões que pareciam cheios de poeira. Aim a tomou pelo braço antes que caísse.

— O que está acontecendo comigo?

— Você vai se acostumar. É a presença Dele — apontou o dedo indicador para cima. — Sua alma ainda está confusa, ela clama por quem a criou. Com o tempo, a sensação ficará mais controlável. Creio que seu assunto com Wladimir Lester ajudará nisso. — Aim a deixou sobre as próprias pernas outra vez. Olhou ao redor. — Venha, você precisa descansar um pouco, tem um hotel no próximo quarteirão. Não devemos encontrar o cigano enquanto esses malditos entoarem cânticos.

— Me dá um tempo, esquisitão. Eu mal consigo respirar.

— Vai conseguir. A presença da fé para alguém que escolheu o Inferno é um pouco parecida com a sensação de ar rarefeito. Amanhã você já vai estar melhor. Tudo o que precisa para vencer a montanha é de uma noite de sono.

Lucrécia firmou sua bengala e deu um passo em direção à calçada. Não era muito mais nova que o chão, mas ao menos esta era feita de concreto.

— Eu não sentia sono até sairmos do Inferno. Sono, cansaço… Na verdade, eu me sentia bem melhor.

— Você descansou por meses. Além do mais, ninguém dorme no Inferno. Se para você isso pareceu uma dádiva, para muitos é a pior danação de Lúcifer. Agora venha comigo, não precisamos que você caia de cara na calçada e chame a atenção desses caipiras.

Lucrécia tornou a fraquejar, pouco antes de chegarem ao hotel Paraíso, onde passariam a noite. A entrada era uma calamidade, não havia sequer um letreiro no ponto mais alto da construção, o nome do hotel estava escrito com tinta vermelha desbotada e sombreado por uma palmeira saída da mente de alguém que não terminou de cursar o jardim de infância. O interior, no entanto, surpreendentemente agradou Lucrécia. Piso frio sem aquele odor mofado de carpetes, um tímido lance de escadas, a única parte que ela não havia gostado nada era o gerente. Um tipo ensebado, magricela, com uma camisa aberta no peito que mostrava seus poucos pelos que começavam a branquear. Ele comia um pedaço de frango, desfiando a carne com as mãos engorduradas e chupando o que restava entre os dedos. Quando ergueu os olhos notou que havia duas pessoas em seu hotel, principalmente a que entrou na frente.

— Aim… — disse com a voz cigarrada. — De novo visitando nossa cidade maravilhosa? Nunca pensei que gostasse tanto assim de sentir calor. Aliás, pensei sim, claro que sim.

— Não gosto do calor daqui . E também não gosto de você, Lupércio.

A caricatura de gente lambeu os dedos de novo e sorriu. O canino direito era de ouro, mas naquela boca até o metal mais cobiçado do planeta parecia merda. Aim chegou mais perto e tamborilou os dedos sobre o balcão.

— Quero o quarto de sempre, o que não costuma feder.

O gerente pareceu não ouvi-lo, os olhos cravados em Lucrécia.

— Quem é a princesa? Tá transando com ela? — cochichou. Lucrécia ouviu mesmo assim.

O próximo movimento de Aim pareceu um vento forte. Em menos de um segundo suas mãos testavam a ossatura fina do pescoço de Lupércio. O homenzinho estava içado no ar, batendo as pernas contra o forro de madeira do balcão da recepção.

— Mais respeito. Ela caiu nas graças do chefe.

Em um gesto conhecido, Caricatura de Gente espalmou as mãos no ar. Aim o manteve entre os dedos por algum tempo, se divertindo com o pavor do homenzinho. Quando o devolveu, o fez como quem se livra de um saco de cal. Caricatura de Gente perdeu uns cinco segundos retomando o oxigênio. Depois se desculpou e apanhou uma chave embaixo do balcão. Estendeu-a para Aim. Como o demônio não se moveu, ele a deixou sobre a madeira.

— Suíte presidencial, comandante. — Lupércio acrescentou, massageando o pescoço.

Com um suspiro que não passou de um gole de ar rejeitado pela boca, Aim o deixou em paz. Lucrécia já estava no segundo degrau da escada, contando os segundos para escapar da presença de Caricatura de Gente.

— Conheci um monte de idiotas como ele. Não precisava ter quase quebrado o pescoço do homem, eu sei me virar sozinha.

— Você não o conhece. Ele é dono de uma rede de tráfico de mulheres. Algumas jovens demais para receber essa classificação. Temos negócios com Lupércio desde 1992. Quando me disseram que o cigano estava nessa cidadezinha mixuruca pensei que era um bom sinal. O inferno está em todo o lugar, mulher, mas ele adora Martírios.

O quarto escolhido por Aim era o único sem numeração. A porta era a mais velha de todas, ficava no fim do corredor e parecia bem mais a entrada de um depósito de produtos de limpeza do que de um quarto. A impressão perdurou somente até Aim girar a maçaneta.

— Quem imaginaria? — Lucrécia comentou, se lembrando de uma cena de Um Príncipe em Nova York , estrelado por Eddie Murphy. Não havia uma banheira no espaço, mas o chão era de porcelanato. Em um trecho do piso brilhante havia um grande tapete com motivos persas. Sobre ele, um módulo de madeira marfim, uma televisão enorme e um receptor de TV a cabo. Mas de todas as perguntas Lucrécia escolheu somente uma: — Onde você vai dormir?

Aim foi até janela e tirou do caminho a cortina de seda e a renda que protegia os vidros.

— Eu não sou como você. Ficarei de vigília essa noite. No momento certo, estará acordada.

— Posso saber qual é o momento certo?

Aim se afastou da janela. Caminhava em direção à porta.

— Durma, Lucrécia. Tenho alguns assuntos a tratar com o homenzinho lá embaixo.