Ultra Carnem
Capítulo 24
Antes de descer do carro, Marcos respirou fundo. Tentou se acalmar e racionalizar o que faria. Ainda chovia. Ele desligou o rádio que tocava “I Ain’t No Nice Guy”, do Motörhead, e abriu a porta. Um dos pés saiu do Ford e imediatamente reencontrou o azar de meses atrás.
— Não é possível! — Marcos gritou. Em seguida, retirou o pé esquerdo de um buraco disfarçado pela água da chuva (talvez o mesmo que há meses emboscara seu pé). O dia continuava escuro. A canela gritava dentro das meias caras e finas.
Outra aberração paradoxal aconteceu quando um velho saiu com um maldito galo preso em uma gaiola. Um galo preto com olhos raivosos. Esporas capazes de atravessar olhos humanos como cerejas.
— Cuidado com isso, vov… Deixa pra lá, sai da frente — Marcos disse. O velho sorriu, mostrando os três dentes amarelos que ainda tinha na boca, dois em cima e um embaixo (podre e incrustrado de tártaro).
As luzes da loja encheram seus olhos.
Vermelho. Claro que sim… Sempre o vermelho.
Mas, dessa vez, não era apenas o altar da Santa Morte que estava infestado com a cor mais atrativa e perigosa do arco-íris — era toda a loja. Por mais que se esforçasse, Marcos não encontrava a fonte daquela luz. Parecia compor o ar.
Com alguma força, ele puxou vários pelos de seu braço. Doeu. Estava acordado, desgraçadamente acordado. Desnorteado com a própria vida, em um dia de tempestade, na loja mais suja de toda a cidade, tentando salvar sua alma condenada sem nenhum motivo aparente. O mundo de Marcos ruía a cada passo lento no interior da loja maldita. Ele queria encontrá-la, a velha cigana que tirou dele bem mais do que havia dado. Entendia agora que, na maioria das vezes, tudo o que um homem precisa é de sua sanidade.
— Procurando por mim? — Sofia perguntou, saindo de trás de alguns vestidos ciganos pendurados em cabides. Marcos não se assustou com ela. Estava resistente.
— Preciso falar com a senhora.
— Lembro de você, bonitão. Veio receber?
Mau sinal. Se a velha não sabia que seu pedido fora atendido, talvez não tivesse culpa em nada daquilo. Ou pior: talvez a loja fosse outra pista vazia, e ele precisasse voltar a desconfiar de Carolina e do restante do mundo.
— Não exatamente — disse Marcos.
— Percebo… — resmungou a velha. — Que boba eu sou. Você já recebeu o que era devido.
Sofia chegou mais perto, estudando as roupas de Marcos, cheirando seu perfume.
— Sua vida melhorou, não foi?
— Mais do que seria lógico.
— Só que…
— Eu estou ficando maluco. A senhora precisa me ajudar.
A velha diminuiu os olhos e inverteu um pouco a cabeça para a direita.
—Vamos conversar em um lugar mais reservado.
— Não quero chegar perto daquela aberração!
— E eu não discuto pagamentos sem a presença do pagador. Seus assuntos são com a Ciganinha, não comigo — disse ela. Já caminhava para os fundos do estabelecimento. Marcos a acompanhou tentando não perdê-la de vista.
— Atanásio, seu desgraçado! Vai pra frente da loja.
O velho obedeceu, se arrastando como uma lesma. Passou por Marcos e lhe deu um sorriso cínico, satisfeito com o desespero do babaca de terno caro e ensopado pela chuva, o pobre-diabo que tentava resgatar sua alma com uma estátua de gesso fantasiada de prostituta romani santificada em uma loja de obscenidades.
Quatro meses não mudaram muito a lojinha. Ainda era o mesmo pulgueiro velho, fedido e amontoado de atrocidades. Mas havia novidades. Sofia explicou quando viu Marcos olhando para elas.
— Com os ataques do Açougueiro, a moda agora é vender réplicas de órgãos humanos.
Marcos ouviu e continuou se esgueirando das peças, mantendo o caminho do meio, sem abrir a boca ou tocar em nada. Fez isso até avistar a luz mais intensa dos fundos da loja. O pedaço maldito de gesso continuava no mesmo lugar, no canto esquerdo da cruz invertida que o corredor formava.
— Tira o sapato pra falar com ela — disse Sofia.
— Mas eu não tirei da primeira vez.
— Exatamente. Essa não é a primeira vez.
Marcos obedeceu. A meia já estava grudada no ferimento reaberto.
— Ai! Isso dói — resmungou.
— Deixa. Um pouco de sangue sempre ajuda. Melhor se for de virgem. Coisa que você não é, né, cavalão? — Aparentemente, Sofia também não tinha mudado muito. Marcos tornou a não dar crédito à sua boca senil e imunda.
— Podemos tratar do assunto agora?
— Você é o dono das perguntas, fio, não eu.
Depois de Sofia dizer isso, o pratinho que guardava os pedidos da Ciganinha voou para o chão, empurrado pelo nada. Marcos arregalou os olhos. A velha se abaixou, tentando juntar os bilhetinhos.
— Parece que ela também lembrou de você.
— Ela tem lembrado de mim faz tempo.
Sofia terminou de juntar os papéis, devolveu o pratinho e parou de frente para Marcos.
— O que você quer, moço rico? Outro trato? Quer aumentar os favores? Abrir uma poupança ? — sorriu.
— Nada disso.
A idosa enrugou o rosto, com a expressão de quem não tinha a menor ideia do motivo daquela visita. Marcos continuou. E foi direto ao ponto dessa vez: — O que a senhora sabe sobre esse doido? Esse Açougueiro?
— Eu? O que uma velha cigana saberia sobre isso? Sei do que todo mundo sabe, que ele anda matando gente por aí de um jeito indecente.
— Só isso?
Ela não respondeu. Marcos continuou encarando.
— Fio, escuta aqui… Ficar olhando para mim com essa cara de quem tá com indigestão não vai tirar os demônios da sua cabeça. Diz logo o que veio fazer aqui.
E Marcos contou tudo, como havia feito horas antes com Carolina.
Pesadelos, medos, coincidências, a visão pelos olhos do assassino, absolutamente tudo o que aconteceu, o bom e o ruim desde que cochichara algo nos ouvidos de gesso da Ciganinha. A velha ouvia e coçava os pelos brancos do queixo.
— Tá escondendo alguma outra coisa, fio?
— Não, dona Sofia. Juro que não.
— Eu não gosto do que vou pedir, mas acho melhor me contar o que desejou no ouvido dela — disse, apontando o queixo para a estátua. — A Ciganinha não gosta de dividir seus assuntos, mas parece que aconteceu algum desentendimento entre vocês dois.
— Desentendimento? Esse cara está arrancando pedaços das pessoas e comendo! Ele bebe o sangue delas e tempera suas entranhas como porcos! Meu Deus do Céu! Desentendimento, dona Sofia? Eu estou dentro dele!
— Cada um usa as palavras que tem, moço. Vai me contar ou não?
Marcos concordou. O que tinha a perder? Dinheiro? O resto do seu juízo? Grande coisa…
— Quando a senhora disse que eu podia fazer um pedido, pensei comigo: um cara tão fodido como eu podia aproveitar essa oportunidade pra mudar de vida. Mudar mesmo , entende?
Sofia ouvia. Os olhos vidrados na boca seca de Marcos.
— Eu precisava de muito mais que um único pedido para resolver todos os meus problemas. Eu era pobre, tinha um filho retardado, uma mulher que precisaria da ajuda do Greenpeace se estivesse se afogando. Resolvi pedir o óbvio.
— E o que era óbvio pra você há quatro meses? — Sofia se aproximou da Ciganinha, como se a incluísse na conversa. Disse alguma coisa a ela, mais baixo que um suspiro.
— O que você fez, velha? O que disse a ela?
— Intercedi por você. Mas vai custar caro.
— Caro quanto?
— Quanto vale a vida da sua família?
Marcos não respondeu. Continuou mudo, enquanto Sofia se reaproximava da estátua. A velha subiu em um banquinho de madeira que encontrou embaixo do altar, prendeu os cabelos com as mãos e colocou o ouvido bem perto da boca da estatueta.
— A Ciganinha mandou me contar o resto.
— Vou contar. Eu dou o que a senhora quiser, dona Sofia, mas, primeiro, preciso saber o que é essa coisa. Quem é ou quem foi essa Ciganinha?
Sofia riu de novo e voltou os olhos para a estátua. Estava trocando cumplicidades com a peça de gesso, ridicularizando o desespero daquele homem. Quando julgou ter incomodado Marcos por tempo suficiente, respondeu: — Não é quem ela é e sim como ela foi feita que você precisa perguntar. Me diz uma coisa, rapaz, o que achou dos olhos da Ciganinha?
Marcos não tinha tomado toda aquela chuva para mentir.
— São a coisa mais bonita que já vi na vida. Não só eles — continuou —, ela toda parece tão… viva .
— Sabe, moço rico, há muito tempo, bem depois da Igreja parar de queimar pessoas, alguém da minha família fez um pacto. Um menino, que depois me daria parte do seu sangue. Ele teve uma vida solitária e ficou desaparecido por muito tempo. Depois que faleceu, suas obras se perderam da família por mais tempo ainda. Ele era um artista e tanto. — Sofia perdeu-se por um instante, como todo velho faz. — Parte do seu talento vinha de uma tinta especial, franqueada por Satanás em pessoa. Dizem que ele pintou a Ciganinha com essa tinta. Meu pai dizia que a Ciganinha era igualzinha à mãe do menino Lester, minha parenta. Dizia também, que o menino ganhou muita coisa na vida com essa tal tinta. Como eu disse, as gerações foram passando e a Ciganinha ficou esquecida. Meses atrás, ela voltou para casa. Não demorou nada para eu descobrir que ela atendia os pedidos das pessoas.
— E a senhora nunca pediu nada?
— Seu eu pedisse, teria recebido. Só que o preço seria caro demais. Tudo que vem de baixo puxa a gente pra baixo depois de um tempo. É como um pântano. Mas chega de me enrolar, moço rico. Se você quer a minha ajuda é melhor desenrolar essa língua. O que pediu a ela?
— Pedi… Que ela… Que ela realizasse todos os meus desejos. Todos eles, tudo o que eu gostaria de ter na vida.
Sofia abriu os olhos até que quase pulassem do rosto. A cabeça se agitou de um lado a outro. Então ela abriu a boca e deu uma risada esganada, como uma hiena. Riu tanto que socou as paredes ao lado do altar.
— Do que a senhora está rindo?
— I DIOTA — Sofia gritou. — B URRO ! Achou mesmo que poderia passar a perna nela? Em uma entidade tão velha e sábia? Um vagabundo como você?
— Ei! — Marcos protestou, parecendo ainda mais idiota.
— O coração dos homens é cheio de veneno, rapaz. Cheio de sexo, de podridão e de assassinatos. Cheio de interesses. Todo homem tem uma besta enjaulada e você pediu para que ela a deixasse solta? Foi isso o que fez?
— Mas eu não sou o assassino! Não fui eu!
— Estúpido! Você não é ele em carne , mas é em espírito! Ele é qualquer um que cruza seu caminho pela rua, mas é você quem mata! É sua vontade que fatia aquelas pessoas quando fica de pau duro! São seus olhos que veem através dos dele!
Tudo se encaixou na mente de Marcos. Os espelhos cobertos para que ele não identificasse o assassino (afinal, subconscientemente, ele queria continuar), o prazer em fatiar cada vítima, o tesão pelas barbáries! Até o sonho naquele trailer maldito onde ele estava dentro de um velho maltrapilho. O assassino podia ser um andarilho, um ricaço, um dono de trailer vertendo colesterol pelos poros, qualquer um, não importaria. Quem matava era ele, realizando desejos que nem sabia ter. O desejo de ser Deus, de não ter limites, de ceifar a carne e beber o sangue. Marcos perdeu as forças e caiu de joelhos, encarando a estátua.
— Desculpe! Me desculpe! — chorou, socando o chão para não fazer o mesmo com aquela estátua maldita. O rosto estava tingido pelo pânico.
— Não é assim que resolvemos as coisas por aqui — disse Sofia. Ela o rodeou e apanhou algo escondido atrás da Ciganinha. Era uma adaga enferrujada.
— O que eu faço com isso?
Sofia se aproximou dos ouvidos da estátua, pareceu ouvir alguma coisa que a fez assentir com a cabeça.
— Ela quer que você escolha. Pode acabar com as mortes por aqui e sua família continua como está. Ou pode desfazer tudo e será como se nunca tivesse entrado pela minha porta — disse. Estendeu a adaga a ele.
Marcos precisava pensar depressa. E só havia uma canção em sua mente, um nome. Uma opção.
Randy. Ah, Randy…
Porque não seria justo fazer aquilo com ele. O garoto estava bem, era o mais inteligente da turma. Pela primeira vez na vida, Randy tinha a promessa de um futuro brilhante. E Odeta? Depois de todas as traições e rejeições oferecidas por ele… Seria justo condená-la a ser de novo uma monstruosidade rejeitada pela sociedade e pelo próprio marido? Uma pobretona morando em uma casa onde ratos e baratas desviam das garrafas de vodca? A mãe horrivelmente gorda de um garoto acorrentado aos três anos de idade, sem dinheiro guardado no banco? E pior: casada com ele, com o velho Marcos; um maníaco sexual assassino que matava suas amantes alugando caras que usam anéis de prata e cobrem espelhos.
— Vou pagar o que devo — ele disse, tomando a adaga.
Sofia se afastou e presenciou o aço penetrando o peito daquele homem com vontade. Marcos gemeu, rodopiou os olhos e, em seguida, tombou, inserindo mais da lâmina dentro dele. A velha ouviu o som das roupas caras sendo perfuradas quando ele sofreu um espasmo. Era um som conhecido. Marcos gorgolejou alguma coisa, tremeu outra vez e morreu. Acima dele, repousava a imagem da Ciganinha.
— Atanásio, tem sujeira aqui. Dá um jeito nisso pra mim — gritou Sofia.
Atanásio, com a vontade de sempre, obedeceu. Sofia se afastou e foi até um telefone preto, ficava atrás do esqueleto de anatomia, no lado direito da encruzilhada oculta da loja. Enfiou seus dedos magros nos números que precisava e, enquanto esperava o chamado, disse a si mesma: — Más notícias para um, boas para outros… O tempo sempre ajeita esse tipo de confusão.