Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 78 de 105

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Ultra Carnem

Parte IV: O Inferno

PARTE IV

O INFERNO

“Eu formo a luz e crio as trevas.”

ISAÍAS 45:7

1

Sobre o técnico de informática chamado Marcos Cantão que acabou emergindo para o condomínio mais nobre da cidade para depois desaparecer deixando a esposa e um filho, quase nada se falou em Três Rios. Uma ou duas reportagens, uma entrevista comovida com o menino (que parecia ser algum tipo de milagre inexplicável da medicina) e uma implicação de Marcos Cantão como sendo o homem encontrado morto e irreconhecível às margens da única represa da cidade — classificado por alguns como a última vítima do Açougueiro. A polícia nunca conseguiu encontrar o verdadeiro assassino, tampouco vinculou Marcos como suspeito da onda de assassinatos. Deus sabe que eles não se importaram muito… Para a cidade, a própria polícia e toda a região, o mais importante é que o pesadelo havia terminado. Nos meses que se seguiram, os pais de família puderam voltar a trabalhar sem se preocupar que suas esposas fossem estripadas, garotas voltaram a se arriscar nas ruas e os fiéis das igrejas cancelaram suas promessas aos santos para que aquele bastardo desumano fosse capturado.

Nesse contexto, uma garçonete chamada Lucrécia também seguia com sua vida monótona e mais ou menos segura. Em uma sexta-feira e, por volta das três da manhã, ela procurava espantar seu tédio, ouvindo a conversa de dois clientes em uma lanchonete do subúrbio, um lugar chamado Vagão do Turco.

— E por que não gostou dela? — perguntou um dos homens com um terno surrado que refletia muito de sua personalidade. Ele mostrava a foto de mais uma candidata ao outro homem. Já era o sexto retrato, segundo as contas de Lucrécia.

— Faça-me o favor, Pedro… Não consegue nada melhor que uma viciada em crack bunda-suja? Melhor arrumar outro emprego, parceiro…

— Calma, chefe. Já decepcionei você antes?

— Já — respondeu o garotão. Passou as mãos pelos cabelos negros tão intensos quanto a sua segurança.

A cara avermelhada de Pedro pedia esclarecimentos. O garotão os deu, embora julgasse não precisar.

— E a tal loira que queria ser atriz? Sabia que ela não paga a gente faz um tempão? Desde que a mídia a relacionou conosco, para ser exato. De tanto cavar, os vermes acabaram descobrindo os podres dela, crianças e essa sujeira toda…

— Nisso eu não tive culpa — disse Pedro. — Quem podia imaginar? Ela transava com o quarteirão inteiro e tal, mas, chefe… Virar uma tarada por garotos de doze anos não passava pela nossa cabeça. Pô, chefe… Nem você sabia que ia dar merda.

— Sabia sim, mas você me convenceu. — O garotão que devia ter 25, 28 anos no máximo, sorriu e exalou mais autoconfiança pelos poros. — Eu me pergunto por que você e seus empregados não conseguem fazer nada direito. Quer um exemplo de trabalho bem-feito, Pedro? Eu dou. O nome dele é Marcos Cantão.

Lucrécia, que já estava interessada na conversa entre eles, deu nova atenção à mesa. Ela tinha ouvido alguma coisa na televisão sobre o homem. Encontraram um corpo perto da represa, ainda usando a roupa de trabalho, disseram que podia ser ele. Seria mais uma notícia ruim dispensada na gaveta dos esquecimentos de sua mente se não houvesse um detalhe crucial naquela morte: o Açougueiro. Ela também teve medo daquele bastardo. O homem desfigurado da represa que poderia ser Marcos Cantão havia sido o último.

— Chefe, por favor. Você não pode comparar meus contratos com o que aconteceu com ele. Se os ciganos tivessem me ajudado, ou se pelo menos eu tivesse a tinta , sabe? A história dela ecoa na empresa, nós não temos como competir com isso. Além do mais, foi o senhor mesmo quem recuperou as obras do garoto. É o que dizem e…

— Não acredite em tudo que dizem, Pedro.

Fingindo se interessar apenas pela sujeira das mesas, Lucrécia chegou mais perto. Passava um pano úmido sobre uma delas e continuava esticando os ouvidos à conversa dos homens. Aqueles dois sempre se reuniam na lanchonete, sempre de madrugada, perto das duas, três horas. O cara que mandava era o mais novo. O bonitão . Lucrécia ficava toda acesa quando servia café a ele. Mesmo que ele não fosse tão bonito (como de fato era), ela não o esqueceria por um motivo simples: ele adorava café turco fervido com molho de pimenta. Às vezes, tomava aquilo depois de beber um bocado com outros homens (ele sempre estava acompanhado). Lucrécia estranhou o tempero do primeiro pedido, mas como negar alguma coisa para aqueles olhos angelicais? O jovem possuía uma ternura lúdica e, ao mesmo tempo, uma coisa sacana e suja que parecia despir toda a decência de quem ficasse à sua frente. Era alguém com quem ela transaria até ficar assada — e pediria por mais. O outro era um tipo comum. Ordinário e meio gordo. Pelo que ela ouvira, um agenciador de modelos ou coisa assim. E devia agenciar bem mais que garotas anoréxicas movidas a sibutramina. Lucrécia chegou a pensar na polícia quando, em um encontro anterior, aproveitou uma distração e olhou para o álbum de fotos que o gorducho evitava deixar sozinho. Salafrário, todas eram garotinhas.

Além do obsceno, ele também era viciado em pastilhas antiácidas. A cada dez minutos, comendo ou não, ele enfiava uma na boca — quando não colocava várias delas ao mesmo tempo.

A conversa entre os dois seguia, desprezando o interesse da garçonete.

— Preciso de pelo menos mais três. E nada relacionado a crianças. Quero algo novo.

— Para quando, chefão ?

— Dois dias, estamos perdendo mercado. Sem urgência, nenhum santo chega ao Paraíso.

— Dois dias!? Nem que Deus nos ajudasse — disse Pedro, secando a careca com um lencinho. Em seguida, fez uma expressão arrependida e arremessou uma pastilha na boca. Mal a mastigou.

— Se eu quisesse ajuda Dele, não teria te contratado.

— Eu me expressei mal, peço perdão. Os negócios estão difíceis, chefe, muita concorrência e…

— Escuta uma coisa, Pedro. Nunca pensei que precisaria cobrar por sua dedicação, mas você está pedindo para ser tratado como um qualquer! — O bonitão deu um golpe sutil na mesa com a mão aberta.

— Não é is-isso che-chefe…

Mostra pra ele, bonitão!, pensou Lucrécia.

O gorducho continuou: — A concorrência anda pesada. Em toda a esquina tem gente trabalhando contra nós. Em toda bendita esquina. O que nós vendemos perdeu o interesse. A meleca do Zeitgeist está mexendo com os nossos clientes, deixando muita gente em uma onda nova; numa onda boa, está me entendendo?

— Eu não sei… Não acho que seja só isso. Será que não estamos procurando no lugar errado? Desatualizados, quem sabe?

— Pode até ser. Mas preciso da sua ajuda nisso, chefe. Sozinho não dá.

Lucrécia balançou a cabeça. Mesmo uma garçonete noturna sabia que não se pede ajuda para o chefe. Sorriu de onde estava, com a expectativa de o gordinho nojento se dando mal. Não gostava daquele homem. Ele era um verme, um aproveitador. Qualquer cérebro minimamente pensante perceberia isso.

— Como é? — perguntou o bonitão. Dessa vez socou a mesa com mais vontade. Os pequenos potes com sal e palitos rodopiaram sobre os eixos. O homem de terno barato se apressou em apanhá-los. Lucrécia correu para limpar um pouco do Bloody Mary que o garotão espalhou pela mesa. Era a primeira vez que o via tão irritado. Usualmente era muito calmo (e bonito).

Enquanto ela fazia seu trabalho, os homens pararam de conversar. O pano úmido cheirando a desinfetante dando mais voltas que o necessário. Quando terminou, Lucrécia foi para trás do balcão e voltou a fingir que trabalhava, dando polimento ao granito verdolengo da superfície.

— Escuta aqui, Pedro. Eu pago seu salário para que você resolva meus problemas. Agradeça por ter problemas!

— Eu… me… Me desculpe, chefe. É que a pressão está muito forte sobre a captação , estamos perdendo o juízo.

— Se você não quisesse a pressão, deveria ter continuado no seu emprego público. Mas isso não te servia, né? Quantas você comia naquele tempo? Fala aí, Pedrão? Eu respondo… Duas: sua mulher e a sua filha.

Pedro olhou para trás, conferindo se ninguém estava ouvindo. Fama ruim no negócio deles era uma trivialidade, mas também não ajudava em nada. Por sorte, a garçonete estava entretida com alguém ao telefone.

— Fala baixo, chefe… Nervosismo atrapalha os negócios.

— O que atrapalha é incompetência, Pedro — disse o rapaz, e deu um gole em seu Bloody Mary. — Tentou falar com o pessoal da prévia ?

— Eles não me dão atenção. Você conhece esse pessoal, eles nunca escutam. Talvez se o senhor mesmo falasse com eles…

Lucrécia despachou o telefone e voltou a ouvir a conversa. Secava copos secos com um pano seco (ou seja, enrolava).

— Você é um banana, Pedro. Mas vou ligar para o Aim. — O garotão mergulhou a mão direita na jaqueta e sacou um celular que valia mais que a vida de Lucrécia.

Nem mesmo Pedro havia visto algo parecido. Todo transparente, parecia uma fatia de cristal tatuada com botões vermelhos. Pedro cresceu os olhos quando o viu. O garotão percebeu e tapou o que devia ser a boca do aparelho.

— É um segredinho do nosso último contrato. A Apple vai parecer uma lavanderia depois que lançarem isso aqui — disse bem baixinho.

— Quem arrumou a conta? — Pedro perguntou.

(Conheça teu inimigo… principalmente se ele trabalha na mesma empresa que você).

— O Davi.

Filho da puta.

Davi era o homem forte da companhia. Lidava com as operações internacionais. Dizem que chegou a cuidar dos Beatles por um tempo, bem antes do Paul supostamente morrer de acidente, desgrudando a cabeça do pescoço; mas sabe-se lá… Naquele tipo de negócio se ouvia muita besteira.

— Alô? Aim?

Pedro aproveitou para secar mais da careca com o lencinho escuro e tomar outra pastilha. Lucrécia estava à distância, ainda mais curiosa em descobrir quem eram aqueles homens. Aquilo tudo era muito estranho, o modo como falavam, o horário das reuniões. E que tipo de negócio um cara bonitão como aquele tem com um gordo fedendo a desodorante barato e arrogante como o tal do Pedro?

Na mesa, bonitão continuava com seu aparelho cujo valor devia ter mais de cinco zeros.

— …o problema aqui, Aim, é que o Pedrão… É… ele mesmo; aquele Pedro. Ele está com a gente ainda, sim… O lance é que nós estamos tendo uma reunião em um (olhou de lado para classificar onde estavam)… um boteco , e eu queria que você participasse. Qual boteco?… O Vagão do Turco. Isso. Esse mesmo. O vendedor de ouro… Tá bom… Pelo banheiro, como sempre.

Lucrécia tinha novas perguntas. O que havia no banheiro? E como o bonitão conhecia os negócios do chefe? Era policial?

Ela estava de costas para os lavabos, atenta aos dois homens à mesa.

Foi quando outro homem surgiu às suas costas.