Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 91 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 14

Marcos precisou sair às pressas, logo depois que Lucrécia deu sua resposta — parece que havia um garoto tentando se comunicar com o Inferno, um dos bons, com o tempero de ira e vingança que os Céus detestavam. Aim começou os preparativos com a mulher em seguida, levando-a para outra localidade do Inferno. Antes disso, voltaram a tomar o corredor das celas. Lucrécia andou o mais depressa que podia. Aquele lugar era tão deprimente… Suas lembranças vinham em torrentes. Andou ainda mais rápido quando sentiu o cheiro azedo do suor de seu pai.

Passaram pela sala onde ela havia acordado e depois por cem metros de celas vazias. O som dos seus passos criava algozes na mente atribulada de Lucrécia. Ela podia imaginar os demônios metidos entre as paredes, camuflados, apenas esperando que Aim desse a ordem para que eles se fartassem dela. Estavam quase chegando à outra enorme porta, quando Lucrécia perguntou: — Para onde estamos indo?

— Para o rio — Aim respondeu. Sua voz mordaz afirmava que ele também não estava feliz.

Tão logo se aproximaram, Lucrécia notou a diferença daquela porta para as anteriores. No lugar dos traços cuneiformes havia entalhes de formas humanas. Todas estavam em sofrimento. Mulheres caíam aos joelhos velando seus filhos, homens eram enforcados e descarnados, demônios se fartavam com a carne dos mais desatentos. Também havia uma inscrição na parte de cima. Não estava na linguagem antiga, tampouco em alguma língua que Lucrécia compreendesse, mas usava o abecedário ocidental.

— O que está escrito? — ela perguntou.

— O mesmo que do lado de fora.

— Ei! Estamos do mesmo lado, certo? Vai machucar muito responder minhas perguntas?

Aim suspirou. Lucrécia sabia ser petulante. Ainda assim, essa talvez fosse a chave para conseguir trazer Lester para seu verdadeiro reino.

Com um movimento rápido dos dedos, ele reorganizou as letras. Elas brilharam como se estivessem queimando a madeira antiga. Alguns entalhes também se modificaram, baixando as cabeças e protegendo os olhos.

Lucrécia leu em voz alta: — “Deixai toda esperança, ó vós que entrais”. Dante, não é? Isso faz algum sentido quando se sai desse lugar?

— O poeta estava certo nos dois sentidos. Ou você crê que haja mais esperança na Terra do que no Inferno?

Ficar calada era o melhor a ser feito.

Aim tocou a porta mais uma vez e Lucrécia perdeu a consistência. Só voltou a si do outro lado da abertura. Abriu os olhos, reafirmou as mãos sobre a bengala e avistou uma área pantanosa e escurecida. Havia sepulturas onde a terra vencia o lodo das águas. Corvos disputavam espaço sobre as lápides. Cipós desciam das árvores ressecadas como os cabelos de um cadáver. O cheiro também incomodava; um misto de podridão e ranço. A consistência do ar era tão ácida que os olhos de Lucrécia começaram a lacrimejar.

— Bem-vinda ao Vale do Suplício — Aim disse e tomou a frente.

Lucrécia avançou quase às cegas. Mesmo contrariado Aim a conduziu pelos braços por alguns passos.

Avançavam mais de dez metros de escuridão quase total quando o demônio decidiu falar de novo.

— Nós estamos fazendo o caminho inverso. Esse lugar tem esse nome porque é onde as almas infelizes tentam seu último acordo com o que mora nos Céus. Eles se humilham, rastejam, prometem o que nunca seria cumprido. Presenciei homens comendo o próprio vômito nesse pântano. Tentam de tudo para se livrar do que os aguarda depois da primeira porta.

— E ninguém consegue escapar? Ninguém nunca conseguiu?

— São almas orgulhosas. Fazem o que fazem para tentar o logro, a enganação.

Passaram por uma fileira de lápides. Sobre elas, muitos capacetes camuflados. Também havia crucifixos em cima de algumas poucas, cobertos por lodo, com um cheiro que tornava impossível qualquer aproximação.

— Guerra? — Lucrécia perguntou.

— Não existe melhor método para extrair a essência de um humano. Os soldados mais cruéis ficam por aqui, ajudando o pântano a se manter horrível. Olhe ali, atrás das árvores.

Lucrécia fez isso e encontrou um batalhão de soldados. Era incrível como nazistas e aliados trabalhavam juntos. Talvez por que gostassem da tarefa que lhes fora imposta. Havia outros dois soldados entre eles. Pelas barbas compridas e corpos esqueléticos, Lucrécia imaginou que eram de algum ponto do Oriente. Os soldados mais antigos — cuja pele estava colada aos ossos de maneira que raios X seriam totalmente dispensáveis — enfiavam lanças compridas em suas barrigas. Os homens choravam e gritavam. Plenamente conscientes de seu sofrimento, enquanto seus intestinos vazavam pelos furos.

— Minha nossa, quando tempo isso dura?

— Todo o tempo — Aim respondeu. — Vamos em frente, você não quer ver a segunda parte do que eles fazem.

Dessa vez Lucrécia obedeceu sem protestos. Ela detestava soldados, como qualquer outro tipo de autoridade, mas aquilo? Céus! Parecia horrível, mesmo que os homens torturados fossem estupradores, como papai-tarado. Pensando bem… Não, nada disso. Nenhum castigo é exagero para essa laia.

Chegaram a uma área mais lodosa e Lucrécia precisou se escorar de novo em Aim. Ao contrário dos dela, seus sapatos polidos continuavam brilhando. Aim caminhava como se o chão lamacento fosse asfalto sólido. Passaram por uma área mais arenosa de onde avistaram outro batalhão de soldados, depois por três árvores carregadas de pessoas enforcadas. Todas vivas, gorgolejando, gemendo e golpeando a ar abaixo dos pés enquanto sufocavam. Elas não estavam de uniforme, mas nuas — os homens não tinham mais sexo, alguém ou alguma coisa havia cuidado desse detalhe. Aim explicou que se tratavam dos conspiradores e subversivos, pessoas que viviam para espalhar a discórdia na Terra. Quando questionado sobre o motivo de estarem sendo torturados, Aim explicou que aqueles bastardos conspiraram inclusive contra Lúcifer. Nada de misericórdia nesse caso.

O ar ficou mais rarefeito quando o som borbulhante das águas tomou o lugar dos gemidos dos torturados. Lucrécia passou a caminhar mais devagar, imaginando que a qualquer momento fosse cair desmaiada. Aim estava dez passos à sua frente quando parou, enfiou uma das mãos na parte de dentro do paletó e tirou de lá uma moeda dourada. Ele a atirou à sua frente. A névoa se agitou sobre a superfície do lago oculto onde a moeda mergulhou. Um cão rosnou a alguma distância.

— Que merda foi essa? — Lucrécia arquejou. — Tenho pavor de cachorros.

— Cérbero? Ele não vai chegar perto de nós. Não enquanto seu dono não ordenar.

Sobre o lago, alguma nova movimentação. Porém, a névoa espessa não deixava que se visse mais de dois metros a frente. Além de espessa, era fétida. Tinha o cheiro da decomposição humana.

Roubando as últimas reservas de energia, Lucrécia chegou até Aim. Ele olhava para a frente e prendia a respiração, parecia preocupado.

À distância que o nevoeiro permitia enxergar, a silhueta de uma balsa de aproximava. Sobre ela, a sombra de uma túnica apodrecida remava usando o que parecia um conjunto de ossos emendados. Lucrécia recuou um passo quando em um relance notou seu rosto. O pouco de carne que havia tinha a mesma cor do lodo onde estava pisando. Os olhos eram amarelados e fundos, o nariz já não existia, deixando em seu lugar um buraco carcomido e ossos. O barqueiro continuou remando até chegar perto da margem.

— Caronte — Aim disse. Lucrécia não precisou perguntar sobre ele. Garçonetes modernas também conhecem um pouco de mitologia.

O barqueiro escorou o remo feito de ossos no assoalho da balsa — feita do mesmo material — e se apoiou sobre ele.

— Sabes que não posso atravessar um vivo pelo Aqueronte. Existem outros meios para tal.

A voz de Caronte era pouco mais que um sussurro. Lucrécia a comparou com a voz de um cliente do Vagão do Turco. Inácio estava condenado pelos pulmões e usava um balão de oxigênio — o que não o impedia de acender um cigarro atrás do outro. A voz de Caronte tinha aquela mesma ranhura.

— Tenho autorização. Dele. A mulher precisa trilhar alguns caminhos do Inferno.

Caronte virou de costas e confabulou algo consigo mesmo, em uma língua desconhecida para Lucrécia. Parecia estalada, como o sibilar faminto de um lagarto. Sua túnica se agitou com um vento mais forte que trouxe o fedor do rio para perto da margem.

— Com quem ele está falando?

— Corante, seu irmão gêmeo. Caronte o assassinou depois de ser roubado por ele. Quando algo não funciona como deveria, eles conversam entre si.

Lucrécia pensava em apressar Caronte e seu amigo invisível, quando viu a silhueta do barqueiro se voltando para ela. Caronte agora tinha metade do rosto coberto por uma máscara de bronze. Com um movimento lento, ele recolocou o remo de ossos dentro do rio e convidou Aim a ingressar. Mas antes…

— Preciso das minhas moedas. Uma para você, sete para a desgraçada; uma para cada pecado herdado dos pais.

— Duas moedas, esse é o combinado — disse Aim.

— Ainda sou o dono do rio, demônio. Se quiserem atravessar, o preço é esse.

— Sua ganância nunca deixa de me impressionar, velho.

Aim forçou as mãos sob o terno e apanhou as moedas negociadas. Caronte as colocou bem perto dos olhos, em seguida mordeu uma delas.

— Suba, mulher — disse Aim. — Estaremos em segurança em cima da balsa.

Tão logo Lucrécia colocou seu peso vivo , a balsa oscilou sobre as águas. Um pouco do rio subiu até o assoalho composto por ossos. Ela recuou os pés para que aquela imundice não a tocasse. Era vermelha. Também tinha um pouco do cheiro de…

— Que nojo, isso tudo é sangue?

O barqueiro dispensou seu sorriso gasto como resposta.