Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 68 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 16

O caminho de volta foi interminável naquela tarde. O aumento de cargo e de salário não agradou Marcos a ponto de fazê-lo esquecer do que estava escondido em seu frigobar. Pela primeira vez em meses, sentiu saudade de quando acordava desanimado e tinha que fugir da bunda cheia de celulites de Odeta. Talvez todo o problema fosse esse. O custo de sua mudança do Inferno para o Paraíso chegara na forma de um psicopata. Estaria perfeito, e ele não se importaria se aquele desgraçado maluco matasse o resto da cidade inteira, desde que não colocasse o fio de sua navalha no pescoço de Randy. Não nele. Marcos parou o Ford em frente à sua casa e, por alguns instantes, continuou dentro dele. Precisava de tempo. A cabeça rachando bem lá no fundo, naquela caverna sagrada onde as dipironas e aspirinas não chegam.

O jardim arrumadinho e irritantemente verde era bem diferente da calvície botânica da antiga casa. Dentro da casa nova, encontraria um Randy mais inteligente que o restante da turma e não o garoto babão que precisava de fraldas aos onze anos. E encontraria Odeta. A nova Odeta que conseguiria facilmente um papel principal em um filme pornô de milfs . A família perfeita só não tinha mesmo um cachorro. Marcos detestava animais, sobretudo cães. O ódio começou com o pai. Seu velho, para castigá-lo, o trancava no canil com Cadilac — o dobermann da família. Quando Cadilac estava feliz e Marcos não havia aprontado nada, o canil era só mais um lugar da casa, mas quando alguma coisa saía errada, Deus… Era o próprio Inferno. Por sorte, a coleira de Cadilac o segurava longe dos cantos onde Marcos se escondia. Mesmo assim, ele o alcançou algumas vezes — seis pontos na barriga e quatro no braço.

Pela janela da sala, alguém percebeu o carro estacionado. Melhor entrar ou teria que arrumar uma boa desculpa. Marcos desceu, esticou as costas tensas e apanhou a pasta que substituía há algum tempo a caixa de ferramentas. Atravessou o jardim bonito sem precisar desviar de nenhum brinquedo.

À porta, presenteou Odeta com um selinho. Ela vestia algo inimaginável meses atrás. Um vestido justo, especializado em içar seios. Marcos a abraçou longamente, com força, como não costumava fazer e menos que estivessem nus.

— Tudo bem? — ela perguntou, ainda em seus braços.

— Acho que sim.

— A Carolina ligou pra mim.

— É? O que ela queria? — Marcos se afastou para que Odeta não percebesse seu coração disparando.

— Não tem nada pra me contar, Marcos?

— Deta, eu… Do que está falando?

A expressão séria de Odeta foi mudando aos poucos. Esticando-se. O rosto ficando corado. Continuou até que os lábios compusessem um sorriso.

— Sua promoção, bobão! O seu Orlando ligou para Carolina e mandou que encomendasse um buquê de rosas pra mim. Logo que chegou aqui em casa, ela me ligou. Marcos, outra promoção! Isso é incrível!

— Pois é… Acabei esquecendo.

— Como alguém esquece uma promoção para supervisor regional? Quem diria que aquele magrelo enfiado em um 147 chegaria tão longe? Se o papai visse você agora, aposto que ele morderia a língua.

Se o desgraçado do seu pai mordesse a língua, ele morreria envenenado…

— Ando com a cabeça cheia, Deta.

— Podemos dar um jeito nisso, garanhão — ela disse. Um sorrisinho sacana iluminou seu rosto. Marcos pensou que um pouco da nova Odeta poderia mesmo ajudá-lo a relaxar. Acabou desistindo quando percebeu Randy sentado no tapete caro da sala, apertando os botões do Playstation e ignorando o resto do mundo. Era emocionante. O mesmo garoto que há poucos meses não conseguiria empurrar um carrinho em linha reta agora jogava on-line.

— Quer jogar? — Randy perguntou. Odeta saiu de fininho em direção à cozinha, deixando os dois com a TV .

— Que jogo é esse?

— Um jogo de guerra — Randy resumiu.

— Acho que prefiro ficar olhando. Não sou bom em nada mais moderno que um Atari — mentiu. Randy continuou como estava; as costas envergadas, olhos hipnotizados pelos tiros na televisão.

Vê-lo jogando ajudou a limpar a mente dos problemas. Tiros e gritos eram melhores e mais calmos que a consciência de Marcos, que não parava de pensar em dedos fatiados, orelhas, fígados e intestinos humanos.

Quando a campainha tocou, depois de alguns minutos, Marcos checou seu relógio de ouro.

Era 17h40 e parecia um pouco tarde para boas notícias.

Aproximou-se da janela e espionou. Não conseguindo ver quem era, caminhou até a porta da frente.

Pelo olho mágico encontrou alguém vestido como um torcedor do Boca Juniors. O rapaz dos Correios usava um boné azul enterrado na cabeça, não dava para ver muita coisa do rosto. Marcos abriu a porta.

— Seu Marcos Cantão?

— Sou eu.

— É só as-assinar aqui por gentile-leza — pediu o rapaz. Trazia uma caixa de papelão de uns vinte centímetros por dez. Ele parecia nervoso, picando as palavras. Não como um gago, mas como alguém com medo da própria sombra.

— Só assinar? — confirmou Marcos.

— Tem que co-colocar o RG também, se-senhor.

Marcos sacou sua caneta prateada do bolso da camisa e rabiscou o que precisava. O rapaz olhava para os lados e para as costas.

— Prontinho — Marcos disse e recebeu a caixa. Acabou procurando pela van que sempre vinha com o Sedex. Não havia nenhuma na rua, mas talvez tenha ficado do lado de fora do condomínio. A portaria não era muito longe da sua casa.

— Tudo bem com você? — Marcos perguntou. O garoto estava suando um bocado.

— Te-tenha um bom dia, senhor — foi tudo o que disse. Depois saiu sem responder mais nada. Marcos esperou ele se afastar da casa. O rapaz andava depressa. Ele olhou duas, três vezes para trás. Parecia preocupado com alguém em seu encalço.

— Você devia pedir umas folgas — Marcos ainda brincou. O rapaz o ignorou, dobrou a esquina e desapareceu.

A caixa endereçada a Marcos pesava bem pouco, trazia alguma lembrança de um pente de memória dentro dela, algo leve. Marcos chacoalhou o volume, tentando adivinhar o que era. Sentou-se no sofá, em frente à TV onde Randy continuava com seus homicídios.

Tentou abrir a caixa com as mãos nuas, mas depois de alguns segundos, acabou indo até a cozinha buscar reforços.

— Quem era? — perguntou Odeta, vendo-o remexer os talheres da primeira gaveta da pia.

— Correios. Cadê aquela faquinha pequena? Aquela mais velha?

— Essa aqui? — ela perguntou, tirando-a do escorredor de talheres. — Não vá se cortar com ela. O Randy amolou ontem.

Incrível.

A evolução de Randy beirava o impossível. A lembrança do garoto praticamente incapaz que empilhava dominós na sala usando o máximo de sua inteligência ainda era muito forte. Parecia que, a qualquer instante, aquele sopro divino ia mudar de direção e devolver o velho Randy com Q.I. de batata para eles.

A caixa continuava na sala, no sofá, um pouco acima do Randy esperto. Tiros e gritos de guerra enchiam a casa.

— Abaixa um pouco esse volume, filho.

— Só um instante, pai — pediu Randy. Em seguida, se esquivou como se os tiros pudessem atravessar a tela de LED e acertá-lo. — Tô quase ganhando.

Claro que estava. E com aquele volume no talo, ganharia um aparelho de surdez antes do Natal, mas Marcos não insistiu. Randy já tinha quitado sua cota de dor com o mundo, onze anos de prisão cerebral não era pouca coisa.

Com a faquinha em mãos, Marcos apanhou de volta a caixa e voltou até o sofá. Antes de abri-la procurou pelo remetente. O campo destinado a isso dizia apenas: “CASA DOS BRINQUEDOS ”, sem CEP , sem endereço.

O correio já fora bem melhor, ao contrário da faquinha que estava realmente afiada. A fita adesiva que lacrava a caixa partiu como manteiga. Marcos suspendeu a tampa sem muita cerimônia. Quando a luz da sala iluminou seu interior, a boca de Marcos perdeu toda a saliva.

Eram dentes. Dentes arrancados pela raiz. Pelo menos quinze deles, manchados com sangue coagulado. E graças a Deus que estava coagulado ou teria respingado e manchado todo o sofá. Mesmo tomado pelo pânico, Marcos conseguiu achar divertida a ideia de Odeta encontrando manchas de sangue no sofá caro e imaculadamente branco da sala, ela ficaria maluca.

— Conseguiu abrir? — ela gritou da cozinha. Também estava com as mãos em um cadáver. Um frango para o jantar. Randy continuava concentrado demais em seu jogo para notar qualquer outra coisa.

— Sim — respondeu Marcos. As mãos pesavam sobre a tampa, garantindo que a embalagem ficasse segura.

— E o que é?

— Nada importante, Deta. São apenas umas peças para o computador do escritório.

— Se não é nada importante, você podia me ajudar aqui, né? Tem ficado tão pouco em casa.

— Preciso ir ao banheiro, Odeta — disse e escapou da sala, tomando a escada até o segundo andar. No quinto degrau, tropeçou. Meteu o joelho na quina de um deles e derrubou o volume escada abaixo. A droga da caixa de papelão quicou em outro degrau e acabou abrindo e libertando alguns daqueles dentes. — Que merda — Marcos reclamou baixinho, esfregando com uma das mãos o joelho que encontrara a quina do degrau e recolhendo os dentes com a outra.

— Tudo bem aí? — Odeta perguntou. A voz estava mais perto, talvez na saída da cozinha.

— Tudo! — Ainda faltava um dente, um que rolou dois degraus para baixo. Os passos de Odeta chegando perto da escada.

— Quer ajuda?

— Não, Deta! Não sobe aqui!

— Por quê? Você se machucou, não foi? — A voz mais perto agora. — Você às vezes é um desastre, amor. Deix…

— Não!

Pensa rápido Marcos, pensa!

— Não venha aqui. Eu não consegui segurar — ele falou.

Então um silêncio sepulcral.

E não demorou nem meio segundo para Odeta soltar aquela sua gargalhada escrachada.

— Como é? Você fez na…? Na cueca? — ela perguntou. Randy apertou o PAUSE quando a viu rindo, com uma coxa de frango na mão e faca na outra. Odeta ria tanto que seu avental com uma parreira de uvas desenhada esvoaçava, ameaçando cair.

O menino largou o controle remoto de lado e gritou: — Papai cagou na cueca! Papai cagou na cueca!

— É! Caguei sim, e caguei feio — disse Marcos, apanhando o último dente fugitivo. — E se não ficarem quietos, faço vocês comerem o que saiu!

Ouviu Odeta contendo o riso porcamente e dizendo a Randy para que fizesse o mesmo. Devia estar apertando os lábios para não explodir de rir outra vez. Algo que não mudou em Odeta foi seu humor, ela continuava um deboche.

Quando chegou ao banheiro, Marcos parecia ter acabado de sair dele. Estava vermelho, suado e ofegante. As mãos tentavam parar de tremer para não derrubar sua pequena caixa de horrores. Na cabeça, inúmeros pensamentos disputando a vaga de ideia mais terrível. O Açougueiro tinha seu endereço agora. Ele, ou o chantagista — e nos dois casos a isca o levava outra vez para Carol. Ninguém mais, além da família, tinha o endereço de sua casa — ou motivos para responsabilizá-lo por homicídios. Mas Carol não tinha um motivo. A menos que… E se aquelas atrocidades em vez de envolverem o Açougueiro fossem exclusivas do ex-namorado traficante dela? Pelo que Carol falava, ele era bem capaz de exageros parecidos. Não devia ser algo fácil de conseguir, clones sintéticos de ossos e carne humanos, mas não seria impossível.

Seguro dentro do banheiro, Marcos voltou a abrir a caixa de papelão. Além dos dentes encontrou um bilhete preso aos fundos, com uma fita durex. Na frente, estava escrito “leia-me”, em inglês: ReadMe .

Claro que o desgraçado sabe que eu trabalho com computadores .

ReadMe é um arquivo de texto comum, presente na pasta de instalação de muitos programas. Todo software tem um ReadMe com instruções iniciais, detalhes da licença, chave de ativação do produto e informações que pouca gente lê. Com o ReadMe , os indícios tomaram definitivamente a direção de Carol ou de algum cliente. Marcos descolou o papel, desdobrou e leu: “O que você viu ontem à noite, eu posso fazer com você. Boca fechada, campeão! Esse aqui falou demais e eu arranquei os dentes dele. Ah! Quase esqueci… Meus amigos me chamam de Açougueiro. Mas não sei como você deve me chamar. ”

A caixa tremia. Os dentes tilintavam lá dentro. Marcos abriu a tampa do vaso e colocou seu dia para fora. Um vômito dolorido e azedo. Toda essa história de matança, Açougueiro e chantagens, o que saiu dele tinha muito mais relação com isso do que a coxinha que lembrava ter comido. Quando as contrações terminaram, ele puxou a descarga, se livrando da capa gordurosa que ficou sobre a água. Ainda de cócoras, colocou a caixa sobre a tampa do vaso e voltou a encarar os dentes dentro dela. Encontrou outra surpresa ali, em uma das laterais e também presa por uma fita adesiva. Uma caneta. Sua caneta. Outra prova. E quantas coisas mais aquele monstro ainda podia forjar para incriminá-lo? Aquela caneta era só mais um lembrete: “Se me caguetar, te coloco na cena, campeão ”. Marcos apanhou a esferográfica, limpou o acrílico com papel higiênico e a enfiou no bolso. Foi fácil , pensou. Mas o que faria com os dentes? Não poderia jogá-los no esgoto. Parecia paranoia, mas o esgoto sempre desemboca em algum lugar, e a polícia estava passando um pente-fino na cidade toda por conta dos assassinatos. Distraído, Marcos levantou do chão onde se apoiara para vomitar, pensando em alguma solução. Com a subida, deu com a cabeça nos galhos finos de uma maldita árvore decorativa que Odeta cismou de enfiar no banheiro. Ele dissera que a única justificativa para terem uma arvorezinha ali seria se o dinheiro acabasse e tivessem que limpar a bunda com as folhas, mas não adiantou. E nem para isso serviria aquela maldita palmeirinha. Mas serviria para outra coisa…

É claro! , pensou, massageando da cabeça.

Tornou a se abaixar e retirou a camada de pedrinhas de mármore, expondo a terra do vaso. Tinha bastante terra ali. O suficiente para desaparecer com um punhado de dentes . A caixa de papelão iria desmontada descarga abaixo sem maiores problemas, o papelão derreteria facilmente. Com a ideia certa na cabeça, só precisava agora de algo para cavar o vaso decorativo. Olhou em volta. Cremes de Odeta, xampus, toalhas, mais cremes de Odeta e…

— Saboneteira.

De inox. Uma pequena pá. Parecia perfeito.

— Tudo bem aí, amor? — Odeta bateu à porta. Marcos quase gritou com o susto. — O Randy pediu desculpas — ela continuou.

— Acho que é uma virose. Diz para ele que tá tudo bem, que eu já vou descer.

Os passos de Odeta se afastaram de novo. E ela não estava mais rindo, apesar da voz empolada.

Marcos se recostou à porta e esperou, até ter certeza de que ela não voltaria. Depois, com algum esforço, conseguiu usar a faquinha de cozinha para desaparafusar a saboneteira. Para resolver o problema com a terra escavada do vaso de plantas, usou a própria caixinha onde estavam os dentes. Sepultou-os em seguida. Rezou um Pai-Nosso em nome do defunto banguela e jogou a terra sobre eles. O bilhete, Marcos colocou na carteira, no compartimento secreto dos preservativos que não usava com Odeta. Feito isso, tornou a repor as pedrinhas e deu mais de dez descargas para que a caixa de papelão tomasse o caminho da rede de esgoto. Repôs a saboneteira na parede, lavou as mãos e o rosto e desceu.

Ouvindo seus passos, seu filho foi para a frente da escada. Marcos já estava no final da descida.

— Foi mal, pai. Eu estava brincando.

— Um homem não deve se desculpar quando tira sarro de outro, Randy. Dá um abraço e tá tudo certo — pediu ele. O garoto obedeceu e sentiu a camisa do pai suada no peito. Talvez tenha pensado que o pai acabara de cagar um guaxinim, mas não disse nada.

Odeta os observava da porta da cozinha. Marcos também a encarava, por cima de Randy, escondendo algo no olhar que preferia ter deixado fora de casa.

Tinha uma família maravilhosa, conquistara tudo o que sempre quis, mas continuava com suas transadas com Cat e Carol (fora uma ou outra vagabunda que conhecia e gostava). Ele nem lembrava mais da última vez que tinha levado um fora de uma garota. Isso também o incomodava agora. Porque seu comportamento libertino podia muito bem estar atraindo o Açougueiro para dentro de sua casa.

E se ele se aproximar de você, Randy? Do meu Randy! Apertou o garoto.

— Preciso sair um pouco — disse em seguida. — Espairecer as ideias.

De onde estava, Odeta o ouviu claramente.

— Doente assim? Agora? Não mesmo, Marcos. O jantar está quase pronto!

— Não faça isso, Deta. Preciso tomar ar fresco — Marcos disse. Caminhou depressa até o aparador da sala e apanhou a chave da porta. Odeta não tentou impedi-lo, Marcos era teimoso como uma mula.