Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 64 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 12

Na manhã após aquela noite horrível, Randy também tinha novidades.

— Filho, a mamãe já falou que você precisa ser paciente com seus colegas. Não esqueça que você também tinha suas dificuldades.

Era a primeira cartinha de advertência de Randy requerendo a assinatura dos pais — ele tinha chamado um coleguinha da escola de burro. Não só isso, mas também esmurrou o mesmo garoto no olho esquerdo quando ele devolveu a provocação o chamando de alienígena — sua evolução intelectual inexplicável acabou chegando depressa aos corredores da nova escola.

Marcos sorria em silêncio, tomando mais um café da manhã exagerado na casa nova que compraram em uma área nobre da cidade. A vida melhorou rápido desde aquela tarde chuvosa n’O ESTRANHO E O MÁGICO e o provedor da casa, que agora enfiava um pão com Nutella na boca, tentava não se lembrar da sua antiga vida. A nova TV , entretanto — ainda parcelada —, ameaçava quebrar o encanto da manhã perfeita e falava sobre a pior onda de crimes que já acometera em Três Rios.

— Peraí, gente. Quero ouvir isso — Marcos disse. Apanhou o controle remoto e aumentou o volume da TV da cozinha (umas das quatro da casa).

— Interessado em desgraças logo cedo? — reclamou Odeta. Depois deu outro gole em um suco de alguma coisa amarela com granola.

— Shii.

— Foram encontrados mais dois corpos decapitados no hotel Éden, próximo à rodovia Washington Luiz, quilômetro 77. A onda de crimes está sendo atribuída a um suposto serial killer, batizado pela população de “Açougueiro”. Até o momento, a polícia não tem pistas sobre o suspeito, mas testemunhas disseram ter visto um homem branco, alto e muito magro saindo da última cena de crime. Os restos dos corpos, segundo a faxineira do hotel que concordou em nos dar uma declaração, estavam espalhados pelo quarto todo.

A TV cortou para a testemunha: — O quarto todo branquinho estava vermelho de sangue. Até o teto. O desgraçado ainda se satisfez de sexo em cima dos restos da menina.

— A polícia nos informou que pretende rastrear o suspeito pela coleta do DNA , mas se esse material não pertencer a uma pessoa com ficha criminal, não possibilitará nenhuma identificação. João Linhares Mesonesto para o Jornal da Manhã .

— Meu Deus do céu, onde esse mundo vai parar? — disse Odeta.

Marcos girou o corpo e derrubou o pote de geleia de morango no chão da cozinha. Flashes disparavam em sua mente. Cenas de sexo, gritos horríveis, prazer e dor.

— Tudo bem, amor? Ficou pálido de repente.

— Pai?

— Fiquei impressionado com a notícia. Como alguém pôde…

— Você? Impressionado? — perguntou Odeta. — A notícia não é pior que essas porcarias de terror que você adora.

— Mas isso é de verdade, porra! — Marcos gritou. Também golpeou a mesa fazendo os talheres tilintarem sobre os pratos. Randy arregalou os olhos. Era raro ver o pai descontrolado assim.

Com um olhar mais frio, Odeta pediu um pouco de calma, enquanto se abaixava no chão da cozinha com um pano úmido.

— Me desculpem. Às vezes, fico pensando onde vamos parar com tanta violência.

— Deus vê esse tipo de coisa, Marcos. Deus vê tudo. Ele vai fazer a polícia encontrar esse doente.

— Tomara — disse Randy. Em seguida, a van que o levava para a escola encerrou o café da manhã com sua buzina. O menino se levantou e apanhou o bilhete. — Tô indo. Assina para mim, pai — pediu outra vez. Marcos rabiscou.

— Sabe que não deve fazer esse tipo de coisa, não é?

— Sei, sim — Randy respondeu.

— Deus tanto dá como tira, Randy. Lembre-se sempre disso — reforçou Odeta.

Marcos engoliu um pouco de café, se esforçando para não engasgar.

— Quer ajuda aí embaixo? — perguntou a ela.

— Vou passar um paninho, depois eu limpo essa meleca direito.

Odeta disfarçava, mas seus movimentos fortes demais mostravam o que ela também sentiu ouvindo a TV . Não era todo dia que um decepador chamado Açougueiro ficava solto pelas ruas. As cidades eram grudadas naquele pedaço quente do estado, encontrá-lo daria muito trabalho à polícia. E falando em trabalho, era hora de Marcos encarar o dele.

— Preciso ir, tenho uma tonelada de problemas para resolver hoje.

Odeta se levantou e ganhou seu beijo sem precisar pedir. Ela aproveitou para ajustar a gravata do marido. Quando Marcos seguiu até a porta de saída, suas pernas ainda bambas precisavam de atenção para não fazer besteira.

Deus do céu, eu estava lá enquanto fazia sexo com Odeta? E quem pode me culpar por isso? Alguém pode condenar um homem pelo que ele faz sonhando?