Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 100 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 23

Ambos concordaram que ninguém poderia saber sobre o que aconteceria a seguir, nem mesmo Aim. O padre também exigiu que Lucrécia deixasse qualquer pertence na sacristia. Os celulares, as câmeras e os gravadores que ela não dispunha. Tudo o que ela trouxera foi sua bengala e uma bolsinha vermelha, carregada com seu kit fracassado de maquiagem (também deixou a bolsa sobre a mesa).

Saíram pela porta da sacristia. Aim estava do lado de fora, sisudo e contrariado por ter ficado de fora da conversa. Não ficou mais satisfeito quando Lucrécia disse a ele:

— Preciso de uns minutos com o padre. Explico tudo quando voltar.

— Nada disso, eu a trouxe até aqui, não vai me tirar da jogada e pegar todas as glórias para si mesma.

Lucrécia pediu um instante a Crispim. Chegou mais perto e inclinou o pescoço, de modo que Aim precisasse baixar o seu para ouvir o que ela tinha a dizer. Seu rosto venceu a maquiagem e ganhou uma tonalidade vermelha que Aim passaria a reconhecer como tudo o que tem essa cor na natureza: perigo.

— O que vai acontecer se eu contar para o Lu que você fodeu com tudo? Pense nisso, demônio, aposto que ele ficaria bem insatisfeito.

— Cuidado — Aim respondeu e a apanhou pelo braço. Apertou, mas ela não demonstrou a dor que sentia. — Está brincando com uma chama que não pode controlar, mulher. Vai acabar se queimando.

— Lucrécia? — Crispim a chamou, percebendo que os dois estavam prestes a se atracar dentro da sua igreja.

Aim a deixou ir. Recuou até a parede lateral e se mimetizou na sombra de uma coluna de sustentação da nave. Lucrécia continuou seguindo os passos ruidosos do sacerdote.

Subiram ao altar, quatro degraus. Crispim ajudou Lucrécia a vencê-los e a levou até os fundos. As três mulheres que oravam nos bancos mais próximos do altar se interessaram e cacarejaram algo entre si. Uma delas riu, olhando para a mulher manca que pensava ser muito importante. Crispim as ignorou como era sábio fazer, enquanto Lucrécia calculava como seria maravilhoso quando aquelas três galinhas velhas tombassem ao Inferno.

Eles só pararam de caminhar quando fizeram uma curva suave para a esquerda, um pouco depois da última coluna de sustentação da igreja. Lucrécia agradeceu. O granito polido do altar era venenoso para sua condição física.

Crispim parou de frente para outra cortina vermelha que ficava protegida dos olhares curiosos dos fiéis — de costas para o resto da igreja. Lucrécia não imaginou o motivo para aquele tecido estar ali. Não poderia existir uma sala atrás dele, o espaço não seria maior que dois metros quadrados. Suas suspeitas terminaram assim que Crispim puxou o tecido.

— Vamos atravessar a parede? — Lucrécia perguntou, olhando para a pedra de mármore polido à sua frente. Havia um único entalhe nela que dizia: “Orai e Vigiai”.

— Mais ou menos. — Crispim respondeu. Em seguida, retirou um colar de prata de dentro da batina. Havia uma chave enroscada no metal. Mas era diferente de qualquer chave que Lucrécia já vira. Para começar, era cônica. Na ponta, havia duas aberturas mais espessas, perfuradas, como os canos de uma espingarda. Antes de usá-la, Crispim checou novamente se não estavam sendo seguidos por Aim ou uma das beatas.

— Vá em frente. Estamos sozinhos — Lucrécia confirmou.

Tremendo um pouco, Crispim colocou a chave dentro do “G” da palavra “vigiai” e a pressionou com força. Um estalido suave emergiu da estrutura. O padre então rodou a chave. A parede de mármore — que na verdade era uma porta — cedeu logo depois, com muito pouco ruído. Crispim apanhou algo do outro lado da abertura. Lucrécia retrocedeu um pequeno passo.

— Calma, precisamos de luz — ele disse e exibiu uma lanterna pequena. Lançou o facho aceso para o interior da porta e viu o semblante de Lucrécia derretendo como um maratonista que tombou no meio da prova.

— Pode desistir, se quiser. São mais de quarenta degraus.

Dentre todas as palavras e expressões disponíveis nos dicionários, Lucrécia escolheu a mais comovente e verdadeira:

— Que merda.

Escadas… A nova maldição de Lucrécia.

— O senhor primeiro, padre. Eu vou precisar das paredes e de alguém que me impeça de rolar até lá embaixo.

Crispim fez isso assim que fechou a porta de mármore às suas costas. Por um instante, a lanterna do sacerdote falhou e tudo ficou escuro. Lucrécia se recostou à parede rústica, temendo por um deslize estúpido que no seu caso não era raridade. Percebeu um brilho frágil vindo de baixo e também cheiro de velas. Crispim voltou a acender a lanterna e também a chama de um isqueiro que apanhou em uma nova abertura na parede. Ao lado da cripta havia um candelabro com uma vela bastante grossa. Ele a acendeu e encarou o rosto surpreso de sua visitante.

— Tudo bem?

— Vai ficar quando chegarmos lá embaixo.

A descida não foi tão complicada, afinal. Tirando um pouco de falta de ar, da perna ruim de Lucrécia queimar como brasa e das duas vezes que ela precisou ser amparada por Crispim, os degraus pareceram brincadeira de criança. E não era mero palpite o que ele disse sobre mais de quarenta degraus — depois de o padre ter acendido outros seis candelabros, Lucrécia contou 58. Então a luz de muitas velas iluminou o chão firme feito de mosaicos de cimento. Lucrécia e Crispim estavam logo depois do último degrau, em um pequeno vestíbulo. Era retangular e os dois menores lados tinham a mesma largura da escadaria íngreme.

— Credo, tá um gelo aqui embaixo — reclamou ela.

Crispim estava parado à sua frente, calculando a sinceridade daquela mulher. Ela era forte e obstinada, mas muita gente ruim também nasce assim.

— Preciso confiar em você daqui pra frente, como você confiou em mim na descida das escadas.

— Eu sei que ele está vivo, padre. Você não mente muito bem.

— Vivo é uma palavra bonita demais para descrever o pobre homem. Me dê dois minutos antes de ir atrás de mim. Preciso conversar com ele.

Lucrécia concordou e esperou enquanto sussurros anunciavam sua presença. Não ouviu nada que partisse de Lester. Nem mesmo um suspiro. Os passos de Crispim ressoaram de volta bem antes dos dois minutos. Lucrécia o teria agradecido se suportasse minimamente a presença de alguém a serviço de Deus. Ela passou algumas horas difíceis no inferno, mas sua vida fora daquele lugar foi bem pior.

— Ele concordou em falar com você.

Lucrécia avançou alguns passos tímidos, ainda testando o chão com sua bengala de cabo de marfim. Percebeu que não ouvia os passos de Crispim atrás de si.

— Você não vem?

— O velho quer falar a sós com você. Eu não concordei, mas a idade dá a ele o direito de ser teimoso. Pode fechar a porta quando passar por ela.

Sem acreditar em tamanha sorte — que, provavelmente, não tinha nada a ver com sorte —, Lucrécia deu os passos que precisava até sair do vestíbulo.