Ultra Carnem
Capítulo 17
Estavam em segurança, mas que lugar deplorável era aquele?
Antes de perguntar sobre isso ou de fazer qualquer movimento mais longo que uma respiração, Lucrécia tinha questões mais urgentes.
— Até quando vou usar esses trapos? Se esse cigano é tão importante quanto vocês dizem, eu deveria pelo menos usar uma roupa decente, não acha?
— Sinceramente, não. Mas nunca entendi a vaidade das mulheres.
— Ah, claro que não. Deve ser por isso que você continua usando seu terno de cem mil dólares. Qual é Aim, eu não estou pedindo para me dar superpoderes, eu só quero sair desses trapos. — Puxou um pedaço do vestido e levou até o nariz, deixando um pouco de suas pernas apareceram na solidão da estrada. — Esse lixo ainda está cheirando a gordura. E eu sei lá o que mais se impregnou no tecido. Eu não dou mais um passo se não der um jeito nessa droga!
Aim sacudiu a cabeça, desceu os olhos e encontrou os próprios sapatos polidos que conseguiam resistir à poeira. À frente, o sapatinho de vinil vermelho de Lucrécia, que de vermelho não tinha mais nada.
— Está tudo aí dentro, Lucrécia. O chefe não transformou você na Mulher-Maravilha, mas creio que você consiga mudar sua própria roupa. Basta fechar os olhos e ver a si mesma, da maneira como gostaria de estar.
Insegura e descrente, ela obedeceu. Cerrou as pálpebras, respirou profundamente e sentiu-se a criatura mais ridícula do Céu e da Terra — e do Inferno, claro. Porém, quando voltou a abri-los, Aim estava sorrindo.
Em vez do antigo trapo cor-de-rosa que começava a ficar marrom com a gordura impregnada, Lucrécia usava um terninho vermelho. Nos pés, os calçados que pareciam sapos pisoteados deram lugar a botas de couro que reluziam o reflexo do sol. Mesmo a bengala, antes um pedaço de madeira e verniz, recebera um cabo de marfim, exatamente como ela imaginara, com o formato de uma serpente branca.
— Nada mal. Talvez você seja de fato especial. Nunca vi um humano aprender tão rápido.
— O que mais eu posso fazer? — ela perguntou, tocando o tecido suave do terninho. Mesmo o cheiro do tecido era novo. Os botões que o fechavam pareciam feitos de prata. E deviam ser mesmo, se seguissem sua imaginação, seu desejo.
— Essa parte vai precisar descobrir sozinha…
— Faz parte do processo — ela interrompeu, repetindo o que ouvira até ali. — Posso saber onde estamos? O que nós fazemos no meio de uma estrada de terra? E sem um carro?
— São dez minutos de caminhada. Podemos conversar um pouco enquanto isso.
Aim deu o primeiro passo. À frente, mais ou menos cinquenta metros de estrada. Às margens dela, uma paisagem seca e abandonada. A única expressão de vida era uma matilha de cães disputando uma fêmea no cio. Um dos cachorros já estava enganchado a ela, enquanto outros dois o atacavam com mordidas. A fêmea gritava, sentindo o órgão edemaciado do parceiro lacerar suas entranhas.
— Lar, doce lar… — disse Lucrécia.
— Estamos em Minas Gerais. Perto de um vilarejo chamado Martírios. Fica logo depois do aclive — falou, apontando para a frente. Sob o ponto mais alto da estrada havia uma árvore seca e um poste de madeira sustentando fios de alta tensão.
— Bom nome para uma cidade no meio do nada. Vai me dizer que o cigano mais importante do universo está em um cafofo desses?
— Posso garantir que sim.
Passavam próximos à matilha de cães. Lucrécia não conseguiu presenciar a cena e seguir em frente. Ela se abaixou, apanhou um pedregulho e atirou sobre os cães. O vencedor deixou a cadela em paz e correu para o meio do mato seco. Os demais fizeram o mesmo, inclusive a fêmea. Lucrécia estava chorando, algo que surpreendeu Aim.
— Como eles podem fazer isso com ela? Pobrezinha!
— Ninguém resiste à sua própria natureza por muito tempo. Ele — olhou para o céu que começava a ficar nublado — desejou que fosse assim. Não viu o que a cadela fez? Ela não fugiu para o outro lado, preferiu ficar entre seus estupradores. O que isso diz a você, mulher?
Ela pensou bem pouco.
— Que tudo sempre pode piorar.