Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 102 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 25

 

O Diabo deu um passo adiante e o vórtice às suas costas diminuiu de tamanho, ainda mantendo o brilho intenso.

— Deixe-a ir, cigano — disse Lúcifer. — Não vou pedir de novo.

Lester apertou um pouco mais forte, mas decidiu soltá-la. Livre de suas mãos, Lucrécia começou a tossir e a pressionar a garganta edemaciada. O ar não encontrava o caminho de volta. Ainda assim, ela conseguiu energia suficiente para rastejar para debaixo da mesa. Começava a ter contrações no diafragma, lutando para absorver todo o possível do ar viciado daquele porão.

Com o som da explosão, o padre Crispim voltou a se interessar pelo que acontecia do outro lado da porta do vestíbulo. Ele esmurrou a madeira com força, inúmeras vezes. Lúcifer tratou de acalmá-lo. E foi com a voz do velho cigano que ele disse: — Está tudo certo, padre. Deixe-me terminar aqui.

Enquanto Crispim concordava com o pedido que julgava ser de Lester, o verdadeiro cigano se espremia contra uma das paredes. Ao fazer isso, derrubou dois ou três quadros que miseravelmente acabaram pisoteados por ele.

— Você não pode entrar aqui, estamos em uma igreja! — Lester disse. A voz tremulava como um motor cansado e cheio de ferrugem. Os olhos incompetentes buscavam o inimigo lançando a cabeça em todas as direções. Aproveitando o embuste, Lucrécia conseguia respirar novamente. Ainda não estava pronta para encarar aqueles dois, sua mente estava confusa e atordoada. Mas ela ouviu perfeitamente quando o demônio disse: — A parte de cima é dele . Como sempre, o subterrâneo me pertence. Por que você acha que alguém constrói um porão em uma igreja? Para um salão de jogos? Lester, meu caro… A velhice o deixou burro.

— Suas provocações não me ofendem, não mais. Você me tirou tudo!

Infernizado com a provocação, Lúcifer riu de soslaio. Deixou o vórtice de luz de onde havia saído e caminhou em direção a Lester. O velho se encolheu mais um pouco, sentindo o calor e o cheiro que o seduziram quando ainda era um menino.

— Acabe logo com isso. Mate-me.

— É isso que você pensa que eu vim fazer? Matá-lo? Lester, meu velho Lester. Estou nessa igreja fedida justamente pelo oposto. Quero você do meu lado, pintando, compondo, esculpindo, quero que você volte a trabalhar para mim.

— Eu nunca deixei de cumprir minha parte do acordo. Olhe para essas paredes! Tudo que seus olhos enxergarem foi concebido por minhas mãos. Demônio, foi você quem me abandonou, você me tirou de suas asas e me deixou definhar no fel do mundo. Olhe para mim, eu não tive o que combinamos, nunca tive! — Lester tornava a se exaltar.

De onde estava, Lucrécia conseguia alcançar sua bengala. Ela a apanhou com a ponta dos dedos e a trouxe para si. Tentaria algo inusitado. Desde que deixara o Inferno, havia conseguido trazer à realidade um cabo de marfim, roupas novas e uma bolsa com um estojo de maquiagem. Talvez conseguisse algo mais apropriado para aquela situação. Tomou o cabo de marfim entre as mãos e imaginou uma adaga abaixo dele. Imaginou que ela puxaria o cabo e a lâmina mais afiada do mundo estaria bem ali. Algo que furaria a carne podre daquele velho e o ensinaria a nunca mais se meter com Lucrécia Trindade. Acima do plano onde estava, o Demônio continuava seu embate com Lester.

— Você se tornou um velho chorão. Suas escolhas o trouxeram para esse porão, não eu. Você teve tudo que quis, Lester. Depois de queimar o orfanato e terminar sua mais bela obra, a estátua magnífica que chamou de Ciganinha, eu esperei por sua atenção. Mas o que você fez? Se embebedou por anos, conheceu mulheres e se entregou às misérias do mundo. E não bastou errar tanto assim. Você queria mais, então me apunhalou pelas costas e se escondeu nas saias dos padres. Eu presenciei cada passo que o afastou de mim, cigano. Faz ideia de quanto tempo demorei para encontrar a tinta que por direito era minha? Passa por sua cabeça senil quanto tempo faz que estou tentando descobrir o buraco onde você se escondeu? Não fui eu que reneguei sua carne enquanto ainda era jovem, essa culpa é toda sua.

Lucrécia continuava atenta. Pelo que ouvia, o chefe estava tomando conta de tudo. Mesmo que quisesse, Lester não iria mais confrontá-la. Porém, de qualquer modo, ela ainda daria uma lição ao velho, a última que ele teria em vida. Querendo ou não, Lester encontraria o Inferno.

— Mate-me, Lúcifer — Lester disse e caminhou em direção ao Demônio. — Sinto seu cheiro perfumado. Você ainda é jovem. Da mesma forma como é esperto e bonito. Não podia ter feito o mesmo por mim?

— Não sem um pedido formal. Você me pediu que sua arte vivesse para sempre e assim foi feito. Considere sua velhice um bônus.

— Eu era uma criança, verme maldito! Com todo meu espírito calejado, eu rejeito sua oferta. Não pode me obrigar a aceitar seu ardil. — Estava mais perto de Lúcifer. Podia sentir seu calor, seu cheiro quase doce. — Esse é o meu último desejo. Não precisa enviar seus lacaios para me assustar, basta apertar meu pescoço até que eu pare de respirar.

— Não.

— Faça ou eu mesmo coloco fogo em tudo o que existe nesse porão! Em nome do Deus que o criou e o jogou pelo ralo, faça isso!

Lucrécia estava curiosa de novo. Uma nova explosão de luz a tomou de assalto. Depois veio o calor. Ela sentiu o cheiro de alguma coisa queimando e olhou para os botões de seu vestido. Ouviu o chiar do jarro d’água que o velho cigano mantinha perto de si e ouviu frascos de tinta estourando suas tampas de cortiça. A madeira da mesa começava a ter cheiro de queimado. Lúcifer estava se tornando a Estrela, e nada no mundo poderia detê-lo. A menos que…

Lucrécia apanhou sua bengala e rolou de onde estava. Deixou a proteção da mesa, se reergueu vencendo as dores que não a deixavam e parou à frente do cigano, impedindo o avanço de Lucífer. O velho erguia o pescoço esquelético e esperava sua sentença. Conhecia Lúcifer o suficiente para saber que nada o irritava mais que ser colocado abaixo de Deus, onde de fato estava. Então ela finalmente compreendeu que não poderia matar o cigano ou deixar que o Demônio o fizesse. Sem Wladimir Lester, Lucrécia Trindade era apenas outra candidata ao esquecimento.

— Lúcifer, não faça isso. Ele é apenas um velho, todo velho é especialista em provocações.

— Mate-me, seu resto de merda dos Céus! Vamos! Mate-me! — Lester sussurrou.

Um dos quadros pegou fogo acima dele. Restos de tinta e papel queimados rolaram sobre sua cabeça e seus ombros, Lester os aceitou e gemeu contento o instinto de sair dali.

— Você vai destruir tudo! Pense, chefe! Pense! Eu também quis matá-lo, mas o que nós ganharíamos com essa estupidez?

Lúcifer tornou a relinchar, seu hálito sulfuroso fez Lucrécia fechar os olhos. Não demorou a reabri-los. Que derretessem, Lúcifer tinha o poder de refazê-los se assim desejasse.

— Saia da frente, mulher, ou vai precisar de uma cadeira de rodas em vez dessa bengala.

— Eu imploro. Você precisa da tinta, e eu preciso do que você me prometeu. Fizemos um pacto, Lu, tenho certeza que podemos entrar em acordo.

— Não! Sem acordos! Eu desejo a morte!

— Ouviu isso? — ela perguntou. — Você está quase dando o que o desgraçado quer. Somos mais espertos que ele, chefe. Eu sou mais esperta.

Lúcifer se aproximou ainda mais. A pele de Lucrécia começou a queimar. Sentia bolhas emergindo em seu rosto, alguns fios de cabelo queimando e exalando um cheiro horrível.

— Pense! — repetiu ela.

Os olhos do Demônio eram um mar de fogo. Seu casco queimava o chão de cimento como se fosse feito de madeira. Suas veias infladas de horror formavam riachos de fogo sob a pele vermelha. Porém, contrariando as expectativas dos dois humanos presentes na sala, seu fogo esmoreceu em seguida. Lúcifer diminuiu de tamanho, sua pele rubra voltou à consistência humana. Seus cascos se tornaram pés. Do corpo, fios de tecido emergiram e compuseram seu jeans e sua velha jaqueta de couro. Por último, os chifres derreteram e formaram cabelos.

— Não… Não a escute — choramingou Lester. Exausto, deslizou pela parede de tijolos nus e ficou no chão, como a criança que um dia fora entregue a um homem bom chamado Giordano. Lester se lembrou dele e de como às vezes se sentia feliz com sua presença. E ele o incinerou, como fez com todos os infelizes que cruzaram seu caminho.

— Melhor ter uma boa ideia dentro dessa cabeça — Lu disse. Estava bonito e jovem outra vez, mas seus olhos flamejantes ainda sequestravam um pouco da alegria do mundo. Logo eles também se abrandariam.

— Ele pode produzir mais tinta. E nós precisamos desse elixir se quisermos continuar no jogo . — Dito isso, Lucrécia girou o corpo em direção a Lester. Ele continuava encolhido, olhando para o éter, perdido em um mundo que jamais compreendeu.

— Quantos anos você quer? — Lucrécia perguntou.

— Ele não os merece — interferiu Lúcifer. — O desgraçado nos traiu e se escondeu em uma igreja.

— Chefe — ela disse ainda encarando Lester —, ele não é o único traidor entre nós. Pense bem, podemos contar com ele por mais alguns anos. Isso se ele concordar, é claro. O que me diz, Wladimir Lester? Quantos anos compram seus serviços no Inferno?

— Não os quero. Eu vivi o que tinha para ser vivido. Bem ou mal, tomei o que me foi dado. Mas eu gostaria de enxergar bem de novo. Meus olhos não prestam, um médico disse cem anos atrás que eu precisava de óculos. Juro que pedi que você me curasse — disse a Lúcifer.

— Eu não quis. Não iria curá-lo dentro de uma igreja. Existem… limites .

— Podemos fazer isso agora? Pense bem, Lu. Ele não está pedindo muito. Pelo que vejo, Lester só está tentando esticar o primeiro acordo que vocês firmaram.

— Sempre a maldita arte — Lúcifer resmungou. Tirou Lucrécia do caminho com um toque suave em seu ombro esquerdo e olhou para o cigano encolhido. — Vou dar o que me pede, Lester. Mas você precisa vir comigo. O Inferno é seu lar e faz muito tempo que estamos esperando por sua carcaça imunda.

— Vai me torturar, sei que vai.

O Demônio tornou a sorrir, dessa vez com o rosto tão plácido quanto um riacho no inverno.

— Sua cota de tortura já foi paga. Desejo apenas a tinta, e que você continue produzindo. Dia e noite, noite e dia, enquanto eu não decidir que seus dias chegaram ao fim. E para mostrar que não guardo rancores como ele — apontou para cima —, vou dar-lhe alguma dignidade. Não quero que você chegue no Inferno urinando pelo chão como um cachorro assustado, vamos dar um jeito nessa bexiga.

— Levante-se — Lucrécia disse e estendeu a mão. — Nós começamos com o pé esquerdo, mas podemos recomeçar.

Lester decidiu confiar nela e apanhou sua mão. Estendeu e ela um tubo de vidro, cheio até a boca com sua tinta especial. O maldito ainda tinha as chaves do Inferno dentro do bolso. Lucrécia o tomou para si e guardou o frasco em um dos bolsos do terninho. Em seguida, estapeou gentilmente os ombros de Lester e retirou deles toda a sujeira que desceu dos quadros. Havia uma queimadura bem grande na careca do pobre homem, cobria quase metade da cabeça.

— Também vamos cuidar disso — Lucrécia disse e se afastou. Tomou a direção de Lúcifer para entregar a tinta que motivou toda aquela insanidade.

Já era tarde demais quando ouviram passos rápidos e pesados dentro da sala. Pelo canto dos olhos, Lucrécia reconheceu a silhueta enorme de Crispim. Ele tinha uma faca nas mãos e loucura nos olhos. Corria em direção a Lester, a batina farfalhando como as asas de um grande corvo.

— Eu vou libertá-lo! — disse ele e esticou a mão armada.

Lucrécia girou sobre a perna boa, desprezando a outra que não servia para muita coisa. Sacou o cabo da bengala e notou o brilho de algo que ela conseguira criar com perfeição. Seu corpo perdeu o equilíbrio com o giro apressado, a perna ruim não foi capaz de sustentar parte do copo, Lucrécia caía. No entanto, antes de completar a queda, ela conseguiu estocar Crispim pelo queixo. O aço rompeu os músculos, tendões e ossos que precisava e se alojou no crânio. Crispim inverteu os olhos e caiu de joelhos. Uma poça de sangue logo se formou abaixo dele.

Sorridente, Lúcifer estendeu sua mão direita a Lucrécia e a ajudou a se levantar. Depois, como faria com a carcaça de um animal abatido, apoiou suas botas na cabeça amarela de Crispim e retirou o cabo de marfim de seu queixo. A cabeça do padre ricocheteou e voltou ao solo. Lucífer encarou o cabo que agora possuía uma lâmina incrivelmente afiada em sua extremidade.

— Estou impressionado — disse, e devolveu a peça a Lucrécia. Em seguida, procurou algum sentimento nos olhos de Lester. Tantos anos juntos; seria natural que ele se irritasse com a morte do homem.

— Eu nunca gostei dele — falou Lester.

— Precisamos avisar o Aim, ele ainda está lá em cima — ela informou.

— Acho que não — Lúcifer explicou. — Ele é um demônio, nenhum Damaled fica mais de dez minutos no andar de cima de uma igreja. Acredito que ele esteja no Inferno, tentando reassumir o posto que deleguei a você. E creio que tenha algo que me pertença — disse e estendeu a mão direita. Lucrécia mergulhou a mão em um dos bolsos do terninho e entregou a ele. O Diabo sorriu sentindo a tinta, seu calor orgânico que nunca abrandava, observando sua fluidez avermelhada. Com um movimento circular dos dedos, reabriu o vórtice. Uma nova e aquosa luminosidade alaranjada encheu de brilho os olhos do velho Lester. Quando viu o vórtice pela primeira vez, era apenas uma criança inconsequente, cheia de esperanças no futuro, em seu talento, em sua arte. Diziam que no Inferno não existe esperança, mas não era o que a velha alma de Wladimir Lester dizia. Do outro lado, Lucrécia o aguardava enquanto Lúcifer era saudado por seus milhares de demônios. Finalmente, ele havia conseguido trazer o cigano. Lester suspirou, tomou um gole de coragem e deu o primeiro passo.

— Já é hora de voltar para casa.