Ultra Carnem
Capítulo 25
Foi preciso muito autocontrole para Nôa não invadir a igreja de novo naquela mesma tarde. Entretanto, quando chegou à pensão de Dolores, estava tão cansado — ele voltou o caminho todo a pé — que simplesmente desmaiou sobre a cama. Só acordou no dia seguinte, às duas e meia da manhã. Fazia um pouco de frio, gotas tímidas se chocavam contra o metal nas janelas, mas nada daquilo tirou um grama de seu ânimo. Alguma intuição dizia a ele que as poucas palavras que trocou com João Paulo não foram mera imaginação ou fruto do seu cansaço. Elas vieram do além-mundo, do outro lado.
Nos anos que antecederam seu interesse por Lester, Nôa pensou bem pouco sobre questões espirituais. Seu pai sempre disse que era perda de tempo, que um homem precisava fazer o melhor de si, e que, se Deus existisse, tinha nos deixado à própria sorte. Sua mãe era um pouco diferente. Ela tentou, digamos, encaminhar Nôa. O máximo que conseguiu foi colocá-lo nas aulas de catecismo. Lester trouxe bem mais que superstições para a vida de Nôa; ele o fez acreditar no outro lado. Agora, enquanto caminhava na escuridão da noite, calculava se tudo o que ouviu — ou sentiu — de João Paulo era verdade. Alguma coisa aconteceu com o homem, isso era fato. João estava envelhecido, encruado na má sorte, esgotado.
Nôa ganhou a rua da igreja às três e vinte da manhã. Cinquenta metros antes do local, ele parou por alguns instantes e estudou se havia alguma vivalma pela rua. Cidadezinhas são desconfiadas, você não precisa fazer muito para ser taxado de bandido — algo que ele de fato se tornara nos últimos dias. Havia um cachorro do outro lado da rua, um vira-lata caramelo. Ele levantou o pescoço, abanou o rabo e voltou a dormir encaracolando o focinho ao rabo. Um carro parou dois quarteirões antes, à esquerda. Foi o sinal para que Nôa entrasse na igreja antes que alguém mais aparecesse.
Antes de tentar a entrada apertada da tarde anterior, ele foi até o lado oposto, por onde havia saído com o padre Justino. O filho da mãe se lembrou de usar a chave, é claro. Nôa tornou a circular a igreja, indo até os fundos, e se meteu entre o conhecido tecido de náilon que protegia a catedral. Com o azar que andava tendo, o padre teria voltado depois de conversarem e fechado também aquela porta. Isso seria bem ruim. Nôa não tinha ferramentas para arrombá-la, além disso, faria barulho. O que ele trouxe em sua mochila — emprestado da dona da pensão — foi um alicate, um martelo e uma chave de fenda.
O rapaz se esgueirou pelo caminho que tinha feito antes e alcançou a porta. Forçou a maçaneta. A madeira rangeu suavemente e permitiu sua entrada. Dessa vez com menos alarde — nada de rolar pelo chão e se encher de sujeira. Ativou a luz da lanterna do celular e alguns pombos revoaram acima dele, o assustando de novo. Sem a luz do dia, a catedral era bem mais assustadora. As imagens cobertas pareciam se mover às vezes, erguendo braços e os retornando à posição original quando se olhava diretamente para elas. Os pombos estavam nervosos. Voavam e pousavam nas partes mais altas; um deles se chocou contra um dos vitrais, contra o rosto de Jesus Cristo. A ave caiu no chão e ficou se debatendo, então tornou a voar. Fazia frio, um pouco de condensação escapava de sua boca — Nôa não se lembrava de a noite estar tão gelada.
Ele só parou de olhar para o teto e para as estátuas cobertas quando chegou aos pés de São José. O santo também estava envolvido com plásticos, como todos os outros, à exceção da estátua de São Matias que ficava na mesma altura, sobre o altar. Nôa circulou a estátua de São José sem desnudá-la da proteção.
— Merda…
Era alto demais. Ele não conseguiria tirar a estátua de onde estava sem arremessá-la no chão. A imagem ficava em cima de uma coluna de gesso, de cerca de um metro e meio de altura. Nôa olhou ao redor, procurando uma escada. Havia andaimes, é claro, mas eram de ferro e fariam um barulho dos diabos. Além disso, eles provavelmente estavam sustentando alguma coisa lá em cima.
Aos fundos, ao lado de onde os bancos estavam empilhados, encontrou algo que poderia usar. A cabine do confessionário estava tombada, e ele poderia arrastá-la. Bastaria colocar um pedaço de papelão por baixo, para reduzir o atrito e o ruído. Não encontrou papelão, mas havia um monte de plástico sobre os bancos que formavam o corredor até a segunda porta lateral. Teria que servir.
Confiante, Nôa apanhou o plástico e o levou para perto da cabine.
Por que, Jesus, uma execução nunca é tão fácil quanto seu planejamento? Nôa esfolou o braço, suou como um porco e só conseguiu o que queria depois de quinze minutos — parcialmente.
Ele puxou o móvel até a entrada do altar e suspirou. Havia um lance de degraus até o topo, onde estava a estátua. O plástico se rasgaria com o atrito com o chão, e aquela merda era pesada demais para empurrar sozinho. Nôa chutou a madeira, fazendo os pombos acordarem de novo, e levou as mãos à cabeça. Checou o relógio do celular. Não demoraria muito até amanhecer.
— O que está fazendo aqui? — perguntou uma voz que o fez estremecer.