Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 40 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 20

Quando o rapaz do posto de gasolina contou sobre as obras, Nôa não deu crédito que a catedral estivesse mesmo prestes a cair. Agora, observando toda a fachada coberta por andaimes, ele tinha outra opinião. A porta da frente da igreja estava atrás de um desses andaimes, e também atrás de um tecido feito de náilon, que ia do topo da catedral até o chão. Nôa calculou que aquilo servia para que nenhum pedaço de concreto acertasse um pedestre na descida.

— Que maravilha… — disse a si mesmo.

Não havia ninguém trabalhando nela. Se tivesse pelo menos um pedreiro, Nôa poderia jogar uma conversa e entrar na igreja. Queria dar uma olhada, mesmo sem ter ideia do que faria depois de estar lá dentro. Se tivesse sorte, talvez encontrasse alguma coisa de Lester, algo desprezado, embrulhado e pronto para ser exposto quando a reforma terminasse. No fundo, nem ele acreditava nisso. Depois de tanta estrada e caminhada, Nôa tinha certeza que perdera seu tempo outra vez.

Decidiu rodear a igreja. Não era raro que um pedreiro esquecesse uma porta aberta — e em uma cidadezinha daquelas, não teria a menor importância, poucos se aventurariam a invadir a casa de Deus.

Olhou para os dois lados da rua antes de fazer isso, só para ter certeza de que ninguém o denunciaria caso tivesse êxito. Esperou que uma mulher empurrando um carrinho de bebê passasse por ele para só depois percorrer a lateral. Nôa encontrou uma abertura na rede de proteção, e entrou por ela.

O cheiro de poeira era quase insuportável e cada passo suspendia mais daquele pozinho fino. Seus braços começaram a coçar, Nôa olhava para cima sem parar, com medo de que algum caco de tijolo abrisse sua cabeça. Ficaria muito bem nas manchetes dos jornais. “Ladrão de padres sofre a ira de Deus.” Talvez ficasse famoso depois disso e suas porcarias que não pagavam o aluguel começassem a valer um bom dinheiro. Provavelmente Liza tiraria proveito da boa fase e arranjaria um cara bem melhor que ele para seguir com sua vida.

— Não mesmo — disse, olhando para cima.

Conforme caminhava, mais pó aderido ao tecido chovia sobre ele. Nôa não conseguia manter os olhos abertos. Eles coçavam e ardiam. Mesmo se não fosse atingido por um tijolo celestial ou ficasse cego, provavelmente cairia de boca no chão e perderia os dentes. Nesse caso, a manchete do jornal seria algo como: “Idiota quebra os dentes tentando roubar a igreja”.

Já havia avançado dez metros quando notou com as mãos algo que não tinha a rispidez da parede descascada no reboco. Nôa limpou os olhos com a camiseta e ficou imóvel, tentando não desprender mais poeira para cima de si.

A porta lateral da igreja estava bem em frente. O visitante tocou a fechadura. Estava com um pouco de receio de descobri-la fechada. Às vezes, o melhor é ficar com a boa e velha esperança, pois a realidade costuma doer bem mais. Mas quando Nôa puxou a maçaneta, a madeira da porta cedeu. Ele a empurrou mais forte, sem saber que sua sorte acabaria ali mesmo. A porta abriu apenas vinte centímetros, não era o suficiente para passar por ela.

— Anda! Desiste, merda! — resmungou. Tomou uma distância e deu com os ombros na madeira. Uma chuva de estilhaços finos caiu sobre ele. Nôa baixou a cabeça, preparado para aquele tijolo celestial.

Só levantou os olhos quando parou de chover concreto. Bateu as mãos sobre os cabelos se livrando de um pouco da sujeira e tentou enxergar a parte de cima. A porta poderia estar segurando um pedaço da parede, alguma viga — só Deus e os empreiteiros mágicos da igreja seriam capazes de responder como se construía uma catedral em uma época em que o gás dentro da Coca-Cola ainda era novidade. Ele forçou mais uma vez a madeira, a parte de cima se moveu mais um pouco.

— Tudo bem, o problema não é na parte de cima.

Nôa se abaixou, sentou-se no chão imundo e esticou o braço até o interior da igreja. Tateou o chão em busca de algo que estivesse prendendo a porta. Precisou se esticar bastante, até que seu ombro doesse junto à madeira, para encontrar o que procurava. Estava no chão, por baixo da porta. Nôa tateou o objeto. Era madeira. Prova disso foi uma farpa que resolveu entrar em seu dedo. Nôa retirou a mão, mas logo depois tentou de novo. Dessa vez, conseguiu puxar o pedaço de madeira em sua direção. Era uma cunha — um toco de madeira cortado em V. Ele jogou o pedaço para longe e forçou a porta outra vez. Ela cedeu mais um pouco, mas ainda estava presa. Nôa deu uma cabeçada na madeira, apenas para ficar mais calmo. Então tornou a mergulhar seu braço na abertura da porta. Havia outra cunha a prendendo. No entanto, Nôa não conseguiu puxar esse pedaço de madeira para fora. Ele, porém, encontrou um pedaço de ferro perto de onde estava sentado, um vergalhão. Usou-o para empurrar a cunha. Tomou fôlego e tornou a empurrar a porta. Ganhou alguns centímetros de abertura. Um cheiro ruim de cocô de pombo saiu do lado de dentro. Nôa parou com metade do corpo para dentro da abertura. Do lado de fora, onde ainda estava seu rosto, sentia uma brisa fresca. Deveria mesmo continuar com aquilo?

É claro que sim.