Ultra Carnem
Capítulo 8
Fazia sol. Não o calor monstruoso dos últimos dias, mas um tempo agradável que trazia um vento leve capaz de refrescar a rua toda. Marcos entrou no 147 e partiu para o mercadinho do japonês. Caminho de sempre. Rua parada de sempre…
A chuva da noite passada destruíra parte do trabalho do pessoal da prefeitura. O mesmo negão (afrodescendente de porte grande e musculoso) com o rego aparecendo tomava conta da placa de desvio, o mesmo baixinho cretino chamado Marcelo comandava a turma do macacão laranja. Só para constar no caderno de tentativas, Marcos resolveu pedir passagem.
— Seu Marcelo! O cara aqui tá querendo atravessar — disse o homem negro.
Déjà-vu total. Exceto que, dessa vez, o baixinho decidiu se aproximar do carro. Marcos pensou em seu dedo médio esticado no dia anterior. Só faltava essa; apanhar dos brutamontes da prefeitura logo no começo do dia.
Seu Marcelo franziu os olhos, tentando reconhecê-lo dentro do carro. Marcos acenou timidamente. Em seguida, o homenzinho se afastou.
— Pode tirar as placas — disse. — Deixa ele passar.
O 147 passou bem devagar pelo meio do pessoal. Marcos deu um aceno espalmado para o baixinho em vez do dedo médio de sempre. Ele retribuiu o sinal.
Tomara que essa sorte dure o dia todo , foi o que Marcos pôde pensar.
Alguns quilômetros sem muito trânsito e estava no mercadinho. Nakura estava na porta, estressado e tragando um cigarro ruim. O chão forrado com outras guimbas, mostrando que ele fazia aquilo há algum tempo.
— Tudo bem, seu Nakura?
— Bem nada. Arruma porcaria do computador!
— Calma, chefe… Tô aqui pra isso…
— Perdendo venda desde ontem — meneou a cabeça. — Arruma logo porcaria.
— O que aconteceu com a máquina? — Marcos perguntou. Depois de colocar os calços nos pneus traseiros, seguiu para o interior do mercadinho, andando depressa e mostrando a urgência que não tinha.
Mais adiante, Cat se esticava sobre uma bancada carregada de limões. Usava uma minissaia laranja. Mini não… Micro. Os melões saltados. Cat, Cat… Sempre mostrando mais do que devia. Marcos sentiu a calça apertar assim que a viu.
— Catína , explica pro seu Marco o defeito — disse Nakura, às suas costas. Em seguida, saiu bufando e pisando duro. Cat tomou seu posto e caminhou até Marcos. Estava sorridente naquela manhã. Talvez o padrasto tivesse suspendido o castigo.
— Oi, Marcos.
— Sobrou pra você, Cat? — sorriu. Sentiu um pouco de falta do tio que sempre antecedia seu nome.
— Não esquenta. Vou mostrar o problema.
Marcos deu a volta no biombo de cimento e ocupou a cadeira que havia no caixa para quase nunca ser usada (era baixa demais, além disso, ninguém passava muito tempo parado ali). As costas agradeceram. As brincadeiras com Randy na noite passada o arrebentaram. Cat também deu a volta na bancada. Ficou de joelhos e se esticou toda, tentando ligar o computador. A cabeça acabou ficando perigosamente perto das coxas de Marcos. Ela se virou pra ele. Os olhos de Marcos pararam nos seios enormes. Cat percebeu, mas dessa vez, não escondeu as frutas.
— Tá querendo o que com essa cara, tio? — ela perguntou e o encarou por baixo das sobrancelhas.
Aquele foi… “o sinal”. Ela estava mesmo fazendo aquilo? Dando mole para ele? Marcos decidiu arriscar: — Melhor parar com isso, Cat. Seu pai me mata se…
Nunca chegou a concluir a frase. Cat puxou a blusinha para baixo e colocou os sonhos de consumo de qualquer humano masculino sobre as coxas de Marcos. Em seguida, abriu o zíper de sua calça. Marcos não soube o que fazer. Esperou paralisado que o despertador do criado-mudo o acordasse do novo sonho. Ainda sem acreditar no que acontecia, tentava aniquilar a expressão abobalhada do rosto. Dos fundos do mercado, Nakura às vezes olhava para ele, sem saber o que se passava no chão. De onde estava, ele podia ver somente o rosto de Marcos, apontando pela bancada. Nessas alturas, Cat já salivava em cima dele. Literalmente . E ela estava adorando fazer aquilo. Era bem provável que fosse uma vingança pelo mês de castigo, mas e daí?
Enquanto ela trabalhava, Marcos observava três estrelinhas desconhecidas tatuadas no ombro esquerdo da garota, perto da nuca. A cabeça bombeando incansavelmente sua virilha.
Ele permitiu, cravando as unhas sob o assento da cadeira para não gemer, mas logo precisou dizer com a voz amortecida: — Melhor parar com isso, Cat. Não tô mais aguentando. — Seus dentes estavam trancados. Olhava para a cara de paspalho de Nakura aos fundos; o japonês estava checando os repolhos.
Cat colocou suas mãos por baixo das nádegas de Marcos e apertou. Ele revirou os olhos, prendeu as mãos com força embaixo da cadeira.
— Cat! Eu…
Ela o puxou mais para dentro.
Obrigado, Deus!
Aquele foi o orgasmo mais forte da sua vida. Incontrolável, trêmulo e mudo. Cat terminou o serviço sem sujeira ou desperdício. Sorriu de onde estava. Em seguida, se levantou e, sem dizer uma palavra, deixou Marcos com a máquina pifada.
Marcos estava amortecido, ele não merecia tanta sorte. Mas talvez merecesse. Sempre soube que havia algo de indecente em Cat, mas aquilo? Logo pela manhã?
Ajeitou-se melhor na cadeira quando ouviu passos curtos no meio do mercadinho. Era Nakura. Vinha ligeiro para o caixa, cuspia fumaça pelo nariz.
Ele sabe. E se tiver uma câmera aqui? Ele viu!
Nakura parou do lado de fora da bancada e tamborilou os dedos sobre a superfície. Marcos engoliu a pouco de saliva que tinha na boca.
— Arrumou porcaria?
Sem ter o que falar depois de cinco minutos com Cat, Marcos respirou fundo. Abaixou-se e apertou instintivamente o botão que ligava o computador.
Bip!
Parecia impossível, mas aquela droga funcionou de primeira. Do outro lado da bancada, Nakura também parecia descrente. Ele apanhou os óculos com a mão direita, subiu os olhos sobre as lentes e perguntou: — O que era?
— Mau contato. Às vezes, acontece. Pode ter sido alguma pane elétrica, por causa dessa chuvarada. É difícil diagnosticar, seu Nakura. Faz o seguinte, o senhor observa e se tornar a dar defeito, me liga. A qualquer hora.
A qualquer hora que Cat estiver por aqui .
— Quanto fica conserto?
— Não é nada.
Seria muita cara de pau cobrar algo além do que já tinha recebido. Mesmo assim, Nakura retirou uma nota de cinquenta da carteira e entregou a Marcos.
— Gasolina — disse. O técnico quase teve pena. Quase…
Junto com a grana, veio um cartão pessoal. Nakura explicou do que se tratava.
— Esse amigo meu tem firma grande e precisa de técnico. Liga pra ele, Marco.
— Poxa… Obrigado, seu Nakura. Vou ligar sim. Hoje mesmo. — Dos fundos, Cat simulou limpar os cantos da boca e distendeu um sorrisinho. Era o começo de uma bela amizade.